terça-feira, 24 de abril de 2007

Os quatro do apocalipse


Foi lançado em DVD de banca, e agora se encontra por dez reais em lojas do centro de São Paulo, o western spaghetti "Os quatro do apocalipse" (I Quattro dell'apocalisse, 1975) Trata-se de um western interessante e atípico, em vários sentidos, feito pelo cineasta de filmes de horror gore splatter pegajosos Lucio Fulci.

No oeste, na segunda metade do século XIX, o jogador malandro Stubby, interpretado por Mario Testi, que antes já havia feito o excelente "Era uma vez no oeste" chega em uma pequena cidadezinha com seu deck de cartas marcadas. Imedia
tamente é preso e colocado na cadeia com uma prostituta (Lynne Frederick) um bêbado alcoolatra compulsivo (Michael J Pollard) e um negro mentalmente perturbado (mas de bom coração) que fala com os mortos (Harry Baird).

Do lado de fora da cadeia acontece um massacre, comandado por grupos de bandidos locais e ignorado/opoiado, indiretamente, pelo xerife, que janta calmamente enquanto pessoas são assassinadas em cenas de sangueira típica do Bava. Os quatro são libertos depois do massacre, pegam uma carroça e fogem pelo deserto, procurando uma cidade próxima. E aí surgem problemas.

O filme tem cenas totalmente gore e splatter, marca registrada do Fulci, e uma trama muito bem amarrada, coesa e acima de tudo, interessante, com os quatro, que inicialmente se odeiam, gradualmente se aproximando uns dos outros. O personagem do negro, Bud, feito por Baird, tem uma voz bonita e sensível, e sua loucura é mostrada de forma crua mas ao mesmo tempo cheia de magia e mistério, e a prostituta interpretada pela Lynne Frederick é linda!

Frederick tem uma história triste: era uma atriz inglesa que fez muitos filmes de horror nos anos setenta como "Shock", "Vampire Circus" e "Phase IV", além de filmes interessantes como "No blade of grass", sobre um vírus mutante que destrói a terra, no qual ela faz parte de uma família que se refugia na Escócia, "Nicolas e Alexandra", sobre a vida do último czar da Rússia (Lynne faz o papel de uma das filhas do czar, e é assassinada com a família, como ocorreu na vida real) e "The Amazing Mr. Blunden", um filme que entra no filão "Incrível fábrica de chocolate" feito na Inglaterra em 1972.

Aos vinte e dois anos, dois anos depois de fazer "Os quatro do apocalipse" ela conheceu o Peter Sellers, que já tinha mais de cinqüenta anos. Casou-se com ele, mas três anos depois Sellers morria de um ataque do coração. Frederick herdou a maioria do dinheiro do ator inglês, deu apenas pouco mais de dois mil dólares para cada um dos filhos dele (!!!), e ainda processou a Universal Pictures devido a coletânea de cenas não utilizadas dos filmes da Pantera cor de rosa "A trilha da pantera cor de rosa (1982)", disponível no Brasil em DVD, que considerou mal uso da imagem de seu ex marido, ganhando mais um milhão de dólares.

Morreu em 1994, aos 39 anos, devido a problemas com alcoolismo.

Dinheiro não é tudo.

Após essa breve digressão, de volta ao filme:

A Lynne está lindíssima, e o filme foi fotografado com algum filtro difusor muito utilizado nos anos 70, que deixa os reflexos e luzes naturais mais brilhantes e esfumaçados, fazendo as imagens remeterem aos trabalhos do
fotógrafo inglês David Hamilton. Isso ajuda a criar o clima onírico e poético que permeia várias cenas. Há uma seqüência numa cidade semi-abandonada, com ex mineradores imundos, que vivem na neve, que é muito
bonita, na qual homens durões e brutais, bêbados, violentos e sujos, deixam seus corações gradualmente amolecerem e mostram o lado hospitaleiro e altruísta, do ser humano, recuperando a humanidade, que haviam perdido com o fim do minério em sua cidade.

Paralelamente o filme tem cenas de brutalidade e violência poucas vezes vistas no gênero. Claro, se trata de um spaghetti western dos anos setenta, gênero que flerta muito com a violência, mas este tem cenas de tortura e canibalismo que vão mais longe do que o padrão.

O final é amargo e pesado, com uma excelente colocação (indireta, vocês que concluam) sobre a inutilidade da violência e da dor da perda. Bonito mesmo. A última tomada, com por do sol e todo o cenário típico de Western é muito bonita, e cheia de uma melancolia silenciosa.

Vejam que é bom. O melhor filme do Fulci que assisti, mostra um lado sensível deste macabro cineasta que eu desconhecia.

A edição brasileira é tirada do recente relançamento deste filme pela distribuidora americana Anchor Bay, e incluí cenas excluídas pela censura norte americana anteriormente.

The four of the apocalypse.

“The four of the apocalypse” (I Quattro dell'apocalisse, 1975) is not your typical western, not even for an spaghetti, a genre that is different for itself. Made by gore specialist Lucio Fulci, its also an unusual film for this director of horror, zombie and often surreal films.

The plot: gambler Stubby Preston (played by Mario Testi, a veteran of the classic “Once upon a time in the west”) arrives in a small western town, with his deck of marked cards ready to play. He is immediately arrested and put in jail with a prostitute (the delicately beautiful Lynne Frederick) an alcoholic drunk (Michael J. Pollard) and the weirdest of the three outcasts, a young black man with a kind heart but a tenuous grip on reality and the “ability” to speak with the dead (Harry Baird).

Soon enough, Fulci goes to his gore, and the whole city is annihilated in a bloody massacre, fully explored in human red with all its gut wrenching violence, a sequence made, no doubt, in order not to disappoint the die hard fans of Fulci violence. The four outcasts are then released in the western desert by the corrupt sheriff, and, with a station wagon, wander through the desolated planes, looking for shelter.

Initially they hate each other. What could a dodgy (albeit charming) gambler, a young pregnant prostitute, a drunken slob and a crazy man have got not only in common, but to hold them together as a team? The plot is very tight and well developed (loosely based in novels by western writer Bret Harte, it was written by the prolific Italian screenwriter Ennio de Concini, who went to work with Tinto Brass of “Caligula” fame, as also for several made for TV works). The most developed character might be Bud, the crazy black man, a figure that evokes madness through his strange and often incoherent dialog and actions, but proves to be captivating with his delicate voice full of mystery, sensibility and magic.

Problems arise when the group crosses paths with the sadistic murderer “Chaco”, a strange, mystical half Indian, hunter, shamanic character, brilliantly played by Tomas Milan. Chaco submits the protagonists to consumption of psychedelic drugs (a seventies reference and trademark, no doubt), rape and violence, and leaves them to die in the desert.

But they don’t.

They survive, gather strength in a ghost town and look for shelter, finding it in a small city.

Immediately before going to the town, they meet a preacher which decides to follow them, and who advises: “God knows what we will find, they are strange people”, which sets the tone for what the writer had in mind when he decided to put that scene in. The fact is he knew his main female character was pregnant and she would, eventually, have the baby. It’s not clear if he designed the lost city to have such a strong meaning in the story, or if he just came up with it so he would have a background for the childbirth scene. In any case, this became the strongest emotional sequence in the entire film.

They arrive in a snow-ridden village, populated solely by men. The sequence starts dark and without hope: after the protagonists were subjected to days of relentless persecution and violence, Bunny, the prostitute, goes through the ordeal of having a child. Almost a ghost town, the city is a decaying corpse of the mining days, where lonely, bitter, men dive into anger, despair and alcohol. The beautiful young girl enters labor and there is not a woman in sight. She needs the help of men who lost hope and joy in life. In fact, their lives are so empty that the arrival of a new case of whiskey is a welcomed change in their cold routine.

The infant is brought into a metaphorical, and literal, desert of ice and hopelessness: the son of a prostitute, probably being the fruit of violence and neglect himself. Unwanted, born in a city of men that don’t care for life anymore. The expectation created by the scene, and the whole film, is that we are going to be presented to even more brutality and harshness.

But then comes the only glimpse of light in the whole film: as the baby is being born, the men in the city become involved. They cheer and care about it. They want this new life to triumph. The child is adopted by the men. He brings them a sense of new life, hope and most of all: re-beginning.

When Bunny finally gives birth, she is completely drenched. Dying, she asks Stubby “I’m I a mother Stubby?” with the innocence of a teenager. Knowing that Bunny will die, Stubby assures her that it’s a boy. As Bunny dies, the music mellows, and we are supposed to do too. The film then borderlines on over sentimentalism, but it manages to save itself from a cliché in the nick of time: as Bunny dies and reveals her love for Stubby, she tries to touch his face. Hardened by the desert and being a gambler, used to hide his feelings, Stubby is unable to reply, and only cries after she’s dead. This beautiful scene explores very well the character’s psyche and feelings, fully exploiting its potential, background and characteristics.

The photographer, Sergio Salvati, who worked with Fulci in his most well known classics “Zombie” and “The Beyond” makes effective use of typical diffusive lenses, making all lights very soft and ethereal. This sort of illumination was very common in 70’s films, and British photographer David Hamilton is famous for making photographs and films with this kind of illumination. The atmosphere created by them certainly helps the dreamlike and poetic tone of the film, and, of course, of the childbirth sequence.

The end, as it couldn’t be different, is bitter and heavy, with an excellent depiction of the uselessness of violence and the anxiety and misery provoked by loss. Beautifully and eerily painful. The last shot, with a typical western blood red sunset is as beautiful as it is silently melancholic.

A strange, small European film, about a dark, gritty American west. It’s certainly amongst Fulci’s best, and it’s definitely worth checking.

Out on crisp new edition by Anchor Bay video, restored with before censured scenes and a good documentary, “Fulci of the apocalypse”, featuring interesting interviews with the surviving main members of the cast, Milan and Testi (the beautiful Frederick, formerly wed to Peter Sellers, died at 39 of alcohol abuse and Baird passed away in 2005 due to cancer).

segunda-feira, 16 de abril de 2007

O Expresso do Horror



Agora imaginem um filme feito em 1973 que misture ALIEN com O ENIGMA DO OUTRO MUNDO e EXPRESSO PARA O INFERNO.

Parece bom demais?

Nada! Foi feito por Eugenio Martin em 1973 e se chama EXPRESSO DO HORROR.

Novamente temos Peter Cushing e o conde do horror Christopher Lee reunidos em uma película com monstros.

Somos apresentados a narração de Lee:

"O que segue é a declaração a associação geológica real feita por este que vos escreve, Alexander, Saxton. A descrição é verdadeira e fiel aos fatos que cairam sobre nossa expedição na Manchuria. Como líder da expedição, eu devo aceitar a responsabilidade por seu fim desastroso. Entretanto, deixarei para o julgamento dos honoráveis membros da sociedade a decisão de a quem culpar por essa catástrofe"


Vejam só, tudo começa em 1906, quando um antropologista interpretado por Lee encontra, nas geleiras inóspitas da Manchuria, o fóssil congelado de uma criatura que pode ser o elo perdido entre o cro-magnon-homo-antecessor-homem-de-rhodesia com os humanos contemporêneos. Quase a chibatadas, ele põe orientais para carregar uma caixa enorme com seu espécime dentro do trem trans-siberiano, em direção a Rússia. E aí irão iniciar-se problemas, é claro!

A população do trem já é interessante por si só: além do antropólogo Lee temos Cushing como um médico (Dr. Wells), um estranho místico inspirado em Rasputin, interpretado por Alberto de Mendoza e belas atrizes coadjuvantes que serão devidamente devoradas.

Apesar das advertências de Lee, é claro que alguém decide abrir a caixa com o fóssil.


Acontece que o fóssil na verdade é de uma criatura alienígena que chegou na terra milhares de anos atrás. E ela tem o poder de, com seus olhos vermelhos, sugar o cérebro de quem encontra, absorvendo toda a informação existente dentro dele. Segue uma cena de Cushing serrando uma cabeça para descobrir o cérebro de um guarda do trem russo não tem mais as enrugações que são provocadas pela nossa memória, ele está absolutamente liso!

O monstro está a solta no trem fazendo vítimas, seus olhos ficam vermelhos no escuro e ele causa sangramentos na boca, olhos e nariz de quem estiver a sua frente.

E então...

O filme vira um precursor dos filmes de zumbi atuais! Na verdade, a criatura espacial pode transferir-se de um corpo para outro, assim temos a suspeita eterna do "doppleganger", a cópia, como John Carpenter explorou profusamente em "O enigma do outro mundo".

Enquanto isso o trem não pode parar! Afinal, o monstro não pode ser solto nas estepes russas.

O clima de paranóia se instala. Enquanto Cushing e Lee formam a linha de frente, todos querem descobrir QUEM entre eles é o monstro, e o trem viaja a toda velocidade pelo gelo da sibéria.

Finalmente eles conseguem mandar uma mensagem cifrada para a próxima estação de trem, pedindo ajuda ao exército local, que é comandado por quem? Por quem?

TELLY "Kojack" SAVALAS! No papel de um cossaco chamado CAPITÃO KAZAN!

Quando, em um determinado momento, o exército do Cap. Kazan consegue encurralar o monstro em um corredor, Savalas dispara:

"Atirem em qualquer coisa que sair daquela porta!"

Dr. Wells: "Mas e se o monge for inocente?"

Kazan: "Ahh, nós temos MUITOS monges aqui na russia!"

Inicia-se um massacre com direito a cenas gore e o exército russo caçando o monstro no escuro, em meio aos passageiros inocentes que agonizam entre tiros e espadadas.

A última meia hora tem mais gente morta através de espadadas, tiros dos cossacos e garradas do monstro do que MEU ÓDIO SERA TUA HERÂNÇA inteiro.

Diálogos geniais: o Rasputin satãnico perseguindo o monstro clamando "Tome o meu corpo, lorde satã!" a o que esse replica "Não há nada na sua cabeça, saia daqui!" numa óbvia crítica a religião, e o momento em que, quando todos estão reunidos sem saber quem é quem, um dos passageiros, um policial, pergunta a Cushing e Lee: "Mas e se um de VOCÊS for o monstro?" a o que Cushing replica "Nós? Nós somos INGLESES!"

Vamos aos fatos.

Trata se de um filme com:

- Christopher Lee e Peter Cushing
- Monstro bizarro com olhos vermelhos e garras ridículas que decepam pessoas
- Olhos e bocas sangrando a granel
- Monge louco russo satânista
- Cushing serrando uma cabeça para fazer uma autópsia
- Uma condessa polonesa
- Olhos colocados em uma placa de petri e observados em um microscópio
- Monstro fazendo observações filosóficas sobre sua chegada na terra há milhões de anos
- Exército de soldados zumbis
- Clima claustrofóbico dentro de um trem cercado por neve e gelo
- Telly Savalas no papel de um cossaco chamado CAPITÃO KAZAN distribuindo pontapés e sopapos a torto e a direito, fazendo Al Pacino como Tony Montana do Scarface parecer uma menininha.

Mistério! Intriga! Suspeitas! Horror! Risadas! Está tudo aqui. Robert Rodriguez e Quentin Tarantino gostariam de ser o Capitão KAZAN quando crescessem.

Enfim, foi lançado em VHS no Brasil, e está disponível no eMule aqui:

ed2k://fileHorror.Express.(1972).avi726112882ECFB2F20F798631B4A32D32BA3773EE5/

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Theatre of Blood



Um dos filmes recentes que assisti e que, por diversas razões me deu mais prazer foi "Theatre of Blood" lançado em 1973. Película absolutamente genial do diretor inglês Douglas Hickox, que não chegou a fazer nada de muito interessante depois desse filme.

(Nem antes, na verdade)

Por sinal ele é pai do Anthony Hickox, diretor horrendo que anda fazendo filmes com Steven Segall por aí.

De qualquer forma, não sei se Hickox estava inspirado, se o roteiro (com ajuda, e muita, do Shakespeare, o que por si só já da um grande impulso a trama, é claro) se a época era propícia, ou se a equipe de produção inteira combinada fez a coisa virar. O fato é que "Theatre of Blood" é um dos melhores filmes do Vincent Price, ele mesmo reconhecia isso. É divertido, tem um humor negro genial, da vontade de esperar ver cada nova cena de vingança que vem pela frente, prende a atenção e tem zero de chatice.

Resumo resumido rápido, curto, breve, da trama: O célebre ator inglês Edward Lionheart (excelente nome, não?) é especialista em interpretar as peças de Shakespeare em teatros ingleses. Apesar de ser um ator bem razoável, na opinião deste que vos escreve, ele sempre é escorraçado e humilhado pela crítica malvada e impiedosa do circulo de críticos de Londres. Um bando de burgueses pomposos, grosseiros, grotescos, gritantes, graves, galantes, gorfantes e muitas outras coisas negativas, com G.

Acredita-se que Edward morreu. Após a cerimônia de entrega do prêmio de melhor ator na última reunião do grupo, Edward, que perdeu para um ator iniciante, tem um colapso. Não acredita que perdeu. Desgostoso, faz uma cena escabrosa, barraco mesmo, na frente do clube, rouba o troféu que perdeu, como um menino mimado, e depois se joga num rio. Acho que no Tâmisa. (que na época, nem era assim tão limpo).

Acontece que Eddie Lionheart não morreu PORRA NENHUMA MOÇADA! E ele se voltou para vingar-se, e vingar-se com MUITO SANGUE! E aí que rola o tesão do filme. Apoiado por um grupo de mendigos londrinos (que me lembraram muito aqueles mendigos do Laranja Mecânica que espancam o Alex) ele, dramaticamente, traumaticamente e efusivamente reencena seqüências de assassinato e mortes dantescas e sádicas das peças de Shakespeare das quais participou! E quem conhece Shakespeare sabe que o homem sabia matar com gusto! Cada um de seus impiedosos críticos deverá, portanto, sofrer uma morte horrível e criativa, enquanto Lionheart (o mesmo Edward a que venho me referindo, apenas mudei para o segundo nome) profere as falas criadas pelo, para usar um clichê, imortal bardo inglês!

E aí temos seqüências ge-ni-ais de violência e humor negro! As primeiras mortes não fazem muito sentido. “Oh deus, o que está acontecendo? Por que ele foi mutilado por uma turba assim (Julius César)” mas logo percebe-se que não são meros assassinatos, há um modus operandi todo especial por trás do morticínio! O filme retrata como Lionheart e sua trupe de doentes conseguem levar, das maneiras mais criativas, os críticos a seu teatro abandonado (ou outras locações) e recriando as cenas violentas das peças de Shakespeare, culminando com a morte do malvado critico em questão.

Temos aí então uma superposição de filmes! A cada quinze minutos (ou por ai) Vincent Price entra em cena e reproduz toda a cena da peça a qual se refere, REALMENTE interpretando Shakespeare ao pé da letra.

Dá gosto de ver ele citando “Now is the winter of my discontent” e eu devo dizer que concordo que os críticos foram exageradamente severos com ele, o cara mandava bem! Depois de criar a cena dentro da cena, o pobre crítico percebe que vai virar presunto, e o filme assume seu verdadeiro ar de horror com humor. GENIAL!

Em uma das seqüências, e contarei apenas essa com (algum) detalhe para não estragar o filme para vocês amiguinhos cinéfilos, Lionheart chama um fulano para seu teatro abandonado com uma desculpa evasiva, superficial. O homem vai, desavisado, e quando chega lá, está preparada a cena do “Mercador de Veneza” na qual Shylock, o judeu malvado, irá cobrar uma libra de carne do peito de Antônio. Após proferir todo o texto da seqüência na qual Shylock se prepara para esbifar Antonio, Lionheart muda a peça, e comete a ousadia (como diz um dos críticos) de “reescrever Shakespeare”. Na peça original Antonio é salvo no ultimo minuto. Mas em um filme inglês tosco dos anos 70 feito depois de Laranja Mecânica é evidente que isso não poderia acontecer! Em uma cena totalmente gore os dementes assistentes bêbados de Edward Lionheart imobilizam o malvado critico, e nosso querido Vincent remove o coração do fulano a sangue frio, em uma cena totalmente gore.

As seqüências irão se repetir, e não é necessário conhecer as peças do Shakespeare para divertir-se com os assassinatos, mas ajuda a dar mais risada. O fato é que você quer cada vez mais adivinhar QUAL vai ser a próxima peça utilizada e QUAL cena de assassinato/morte dela.

O filme tem aquele típico visual do cinema inglês setentista. Uma imagem meio suja, granulada, muitas tomadas feitas com câmera na mão, uso extensivo de locações e quase nada de estúdio, e muitos, muitos movimentos de câmera sem steadicam (que ainda não existia como hoje) que me lembraram Laranja Mecânica o tempo todo.

Claro que a trama toda remete ao Dr. Phibes, outro filme inglês com Vincent Price, no qual ele se vinga dos médicos que não conseguiram salvar/mataram a sua esposa. Mas é tão, tão MELHOR, MAIS ENGRAÇADO E DIFERENTE QUE VALE A PENA! A equipe estava absolutamente inspirada, Vincent Price está muito bem, e as cenas dele lidando com sua trupe de mendigos terroristas são geniais. Anárquicas, cômicas, screwball pastelônicas. E cada morte é mais divertida do que a outra. A polícia tentando impedir o grupo de matar os críticos então, é genial. O mais bacana de tudo é que você torce PELO Lionheart, para que ele complete sua obra, para que ele encene todas as obras de Shakespeare apagando e apresuntando um por um seus desafetos. E a cada nova apresentação Price nos brinda com interpretações de Shakespeare de fazer Laurence Olivier aplaudir.

O filme também conta com a presença agradável da Diana Riggs, atriz que fez o papel que Uma Thurman reprisou no filme baseado na série THE AVENGERS. Ou seja, ela era a atriz original da série, no papel de Emma sei lá o que. Como o filme foi feito em 73, ela ainda estava muito bonita, e vale a pena vê-la. Riggs faz o papel da filha de Edward.

Outro momento cativante é quando Lionheart se fantasia como o “cabelereiro Butch”, com uma peruca afro, o cabelo dos deuses, de fazer inveja a cotonete, o presidente de um dos fã clubes do Corinthians. Mais uma vez Price demonstra como é um ator versátil e bem humorado (sabiam que ele era cozinheiro e tem livros de receita publicados? Acabei de lembrar disso) fazendo papel de um cabeleireiro bicha louca, uma coisa Clodovil/Clovis Bornay/Leão Lobesca mesmo.

O filme então é uma espécie de thriller policial separado em quadros nos quais críticos são assassinados em reencenações de Shakespeare. É ou não uma grande idéia? Se alguém te falasse isso, você não falaria “Vai dar um puta roteiro bacana?” E se você filmar com mendigos hippies nos anos 70, usando câmera na mão, vai ficar melhor ainda amiguinho! Ah bons tempos! As mortes são deliberadamente engraçadas e contrastam com a interpretação sóbria, séria e profunda de Vincent Price proferindo suas (muito bem decoradas) linhas de Shakespeare enquanto corta, mutila, afoga e sufoca críticos cretinos.

Aliás, esse é o filme perfeito para cineastas, que devem ter se sentido vindicados ao fazer uma película sobre a possibilidade de se mutilar e matar críticos pretensiosos e idiotas, dentro de um contexto artístico.

Um pouco de informação para deixar vocês felizes:

Cerca de seis galões de sangue falso foram usados para a encenação dos assassinatos.

Diálogo genial entre um crítico pedindo clemência e Lionheart

“Críticos fazem erros, Lionheart, nos somos apenas... humanos!”

Lionheart: “Uma opinião da qual eu não consigo partilhar”

E quando Lionheart faz uma diatribe pró atores, em nome do trabalho dessa nobre classe:

“Quantos você já destruiu como destruiu a mim? Quantas vidas talentosas foram arruinadas por seus ataques? O que você sabe da dedicação e do trabalho duro dos homens e mulheres que fazem a arte mais nobre da terra? NADA! Você não tem a inteligência ou a habilidade para julgar, você apenas destrói os esforços dos outros por que lhe falta a habilidade de criar. Não Devlin, não, eu não matei Larding (um dos críticos) e os outros. PUNI-OS meu rapaz, eu os puni. Assim como você deverá ser punido!”


Apenas um roteirista que sabe o que é ser julgado por um idiota sem consideração seria capaz de escrever um parágrafo tão grandioso sobre a maldade intrínseca a profissão de “critico”, profissão de validade dúbia, já que quem é quem para me indicar o que eu devo gostar hein rapazes?

Curiosamente, o roteirista do filme, Anthony Greville-Bell escreveu apenas mais dois filmes, sumindo do cenário cinematográfico. Posso apenas imaginar o que ele teria feito de divertido caso tivesse dedicado-se seriamente a fazer uma carreira como escritor de histórias de humor negro.

Enfim, “Theatre of Blood” é um filme excelente, deve ser assistido por todos aqueles de bom gosto, que queiram ver um pout pourri dos momentos mais gores de Shakespeare, tudo em um cenário setentista inglês de certa forma psicodélico, e com um puta humor negro de primeira linha. Aguardar cada novo assassinato é deliciosamente cruel e mantém o interesse do espectador todo o tempo. O que mais podemos querer de um filme de terror? Vocês acham que eu vou perder meu tempo indo ver uma merda de um filme esloveno sobre uma menina tosca que perdeu uma sandália na porra da mostra de cinema se eu tenho “Theatre of Blood” em DVD a venda pela WORKS por dez reais?

terça-feira, 3 de abril de 2007

São Paulo
























Ok, vamos lá moçada. Primeira postagem!

De volta a SP depois de mais de um ano.

Impressões sobre esse mimo de cidade.

Seguem clichês.

Todo mundo que já foi pra SP notou isso. Mas não custa repetir esse óbvio e anunciar o caos e a barbárie, um dos meus esportes preferidos.

Coloquem um disco do Doom ou do Extreme Noise Terror. Ou VICTIMS OF A BOMB RAID em repeat.

Colocaram? Ok.

Essa cidade é deprimente. Funciona aos pedaços, montada de remendos. TUDO aqui, do sistema de saúde as ruas, da porra da cara das pessoas o que elas estão sentindo, ao semáforo, funciona de maneira arremendada, colada de improviso, provisória, temporária. É um horror. Nada funciona direito, nada é real. Nada é durável, é tudo feito no desespero e na pressa, na urgência, na falta famélica de opção, na falta de preparo. MILHÕES de pessoas deprimidas, desesperadas, andando no asfalto de um lado pro outro, cada um querendo algo, e principalmente querendo GRANA, vagando pelas ruas entupidas que nem veias com colesterol sujo dessa puta dessa cidade faminta.

Bactérias fluindo pelos braços de um paciente contaminado por alguma infecção terminal. Vocês devem entender exatamente o que eu tô falando.

“Escutem o que eu lhes digo”, disse o profeta do apocalipse, a figura da Cassandra mal vista e maldita, o velho ranzinza horroroso da colina, o xamã apedrejado pra fora da vila: Isso aqui vai implodir. Esse lance do PCC fazendo 3 dias de ataques terroristas é um dos primeiros sintomas. Outros vem há tempos, como o aumentos de assaltos, desorganização geral, trânsito caótico e completa falência do estado. Pra falar de maneira genérica, que eu não estou afim de enumerar casos. Isso aqui VAI implodir. Pode demorar 5 meses, 5 anos, talvez 10, 15 anos. Mas vai vir.

Algo grande vai vir.

E enquanto a onda grande não vem, a cidade vai continuar funcionando nesse improviso, com o governo e a população "estancando" os sangramentos e vazamentos com esparadrapos e bandeides velhos. Mas essa merda vai estourar. Quando cair o último barraco na periferia desse pesadelo que acha que tem dignidade o suficiente pra ser chamado de cidade, quando morrer mais um último alí naquela vala lotada de gente morta no Capão Redondo, quando estourar a vigésima quinta rebelião em um presídio X, a quadragésima terceira fuga da Febem, mais um incêndio em algum lugar...

Não sei qual vai ser o evento que vai determinar o estopim, mas o dominó vai cair.... e estourar. E a merda vai estar tão grande que todo mundo que, nos anos 50 vivia numa metrópole relativamente pacata, com galeria metrópole, com bonde, com gente comprando tecido italiano na ‘Modas Diamante’ achando que estava na Europa, e se enganando bem, e hoje em dia tá acostumado com esse pânico, por que foi se acostumando devagarinho, devagarinho, com cinco anos piores, e mais cinco anos piores e foi indo até estar o que é hoje.... eles vão estar acostumados também, com vida de merda, e quando estourar nem vai ser tanta surpresa.

Todas as cidades grandes, metrópoles gordas e fedidas como Londres, NY, etc, tem isso, essa tensão, essa desorganização. Mas SP está na frente em relação a epidemia do caos. Talvez a cidade do México seja uma merda igual. Ou Bogotá. Eu não sei, não conheço. Eu duvido que não esteja certo sobre isso. Enquanto a elite de merda daqui puder pagar seguranças e manter esse país como o número um em carros blindados no mundo, a coisa vai indo. Provisóriamente, com gente fingindo que não é assaltada, com gente fingindo que o trânsito não consome a vida de todo mundo (em todos os sentidos), com gente fingindo que não tem miseráveis morrendo de fome no meio do largo do Arouche, com sol a pino fritando o mendigo moribundo.

Foda-se: eles tem helicóptero, vivem em vilas fechadas/presídios/condomínios de luxo e fingem que estão em Paris, comendo no restaurante do Alex Atala e pagando 50 reais no tal café com dadinho que ele serve, respirando ar condicionado e fazendo teatro da vida real, interpretando, tentando esquecer que estão no Brasil.

Mas o povo fodido vai estourar, os 99% desse país, essa gente miserável e fodida no cu, que nasce que nem um aborto ainda vivo gritando rasgando a placenta de fome que jamais vai ser saciada, fome de um tipo de vida que não seja rastejar nos ladrilhos da São João pedindo dinheiro, vai, nem que eles mesmos não queiram fazer isso, estourar em cima deles.

E não vai ser uma revolução social bonita de filme comunista de merda não, não vai ser uma revolução filmada pelo Eisenstein, poetisada em filme por Debord ou planejada pelo Lenin. Não vai ser revolução nenhuma, vai ser uma erupção de violência desorganizada e predatória. Vai ser o caos dos remendos do dique rompendo e da água espalhando por todos os lados e afogando todo mundo, de maneira irrestrita. Não vai ter nada de poético, nada de revolucionário, nada de dadaísmo artístico pra ser interpretado por que não tem nada para se interpretar em um monte de gafanhotos devorando um campo . Nada do povo sofrido tomando lugar da elite maldosa, essa coisa infantil e maniqueista de achar que "existe um grupo de gente ruim" e "existe um grupo de gente bondosa" divididas por contas bancárias, como se as complexidades da existência e da maneira como os seres humanos se organizam fossem o equivalente de o esqueleto tomando o castelo de Greyskull e subvertendo a ordem em Eternia.

Vai ser a natureza humana se expressando na sua forma mais vil, selvagem e egoísta, numa corrida predatória pela sobrevivência onde ninguém vai respeitar ninguém, e a mais desgraçada faceta da natureza humana, egoísta, destrutiva e competitiva, vai aflorar. O sistema não vai se aguentar nem físicamente o concreto vai rachar! Em todos os sentidos dessa frase.

“Ui ui, tá nervosinho você hein? Quer provocar medinho nos outros? Fazer com que eles pensem em como você está certo? Em como ser negativo e destrutivo sempre faz você parecer correto? Profético? É fácil escrever assim, não é? Diz que vai ficar tudo ruim e fica olhando enquanto todo mundo assente com a cabeça”.

Acabou de dizer uma vozinha, dentro da minha cabeça. No lado esquerdo.

“Ui! Sou malvado! Fiz previsões apocalípticas! Quer aplausos? Quer prê....”

Com um soco, fiz ela calar a boca. O canto da boca sangra, lentamente, e ela respira pesado, com medo. Seu olho esquerdo fechado, inchando com o impacto do soco... lentamente.

Acabou esse lado do disco do Doom.