segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Inglorious Basterds





Pois é meus queridos, foi aqui no ODEON de Canada Water que eu assisti a essa última peraltice ANIMADÉRRIMA do Tarantino.

Fui com grandes expectativas pois já tinha lido muito sobre o filme, e sabia que não seria pouca coisa.

Muitos anos atrás, em uma galáxia distante, comprei alguma revista de cinema americana (que ainda tenho) no qual Tarantino citava como uma referencia sua o fodoso "Where Eagles Dare". Dizia: "Sempre quis fazer um guys in a mission movie! Where eagles dare é um dos melhores filmes do mundo!". Na epoca a única platarforma tecnológica para reprodução caseira e em massa de imagens audiovisuais que existia era o VHS, e aluguei tudo que pude da lista dele. Foi logo depois de Pulp Fiction sair. Lembro que essa lista me revelou "Rolling Thunder", que me entreteu bastante lá por 93 ou 94.








Inglorious Basterds é, provavelmente, o melhor filme que o Tarantino já fez. Só não é melhor do que Pulp Fiction por que este é importante demais, históricamente.

Pulp Fiction deu cara a uma geração específica dos anos 90 e marcou o mundo de posers estilosos, hipsters e frequentadores da galeria ouro-fino. Esse povo que deveria ser executado na MINHA revolução cultural. Deu luz a fãs de citações, cineminha cult, intertextualidade, surf music e poseragem heroin chic. Todo um movimento pré-internet de pessoas que passeiam pelo mundo sendo indiferentes a tudo e apegadas a índices de cultura popular que "impressionam" encontrou significado nesse filme. Ele fez deu voz ao Cool. É um marco, já entrou para a história do cinema como fundador do cinema poser, cheiro de referencinhas, meio anos 70, mas ainda no seu tempo, boca suja, violentinho, babaquinha, todo mundo blasê, inafetado por sangue. Os personagens são, afinal, descolados e seguros demais para se importarem com alguém morrendo.

Celebra valores panacas, mas marcou... Não podemos negar, não podemos negar, meninos! E criou uma geração de seguidores, estes que fazem filmes medíocres com gangsters supostamente fodões que fazem piadas e depois mergulham em violência e cenas chocantes. Como por exemplo o ex-Madonna, guy Ritchie; essencialmente um Tarantino inglês de segunda categoria.

Acima de tudo, seu cinema não é um cinema sobre a vida ou relações humanas, mas sim sobre o próprio Cinema, coisas que o Tarantino assistiu quando era um adolescente (periodo que nunca abandonou, aliás). É um Cinema para cinéfilos, repleto de cenas derivadas, violência e choque barato. Mas extremamente divertido. Tudo que liga as situações-citações de Tarantino é um dos mais primais acontecimentos testemunhados pelo homem: os eventos tomados por violência, que irão submeter seu espectador a excitação e prazer, mas raramente a empatia.

Ou seja, Tarantino, de maneira geral, celebra valores de gente egoísta e excessivamente preocupada com estetica. Filhos da puta, basicamente. Trata-se de um cinema essencialmente pós moderno; consumista, niilista, hedonista, individualista, criado por signos, onde não se é o que se é, mas sim o que se parece, o que se veste e o que se representa, o que se tenta parecer. Acima de tudo, Tarantino faz um cinema de status.

Estritamente ele é efemero e anti-intelectual, seu cinema é eminentemente voltado para a estetização e a emoção, a superficialidade. Ele não desenvolve algo genial sobre os temas que explora e não investiga os personagens que retrata e suas trajetórias com causas e consequências, qualquer que seja o tema que está explorando: a vida no crime, ser um policial, testemunhar a guerra. Nada disso importa, desde que seja pano de fundo para violência estilizada. Seus personagens não tem valores além da auto-preservação. Entropia, a destruição de valores e a confusão deles, predomina numa mistura de citações de cultura popular.

Apesar de Tarantino estar lidando com Nazistas, isso é uma mera escolha estética baseada na herança cinematográfica que ele teve como criança, assistindo filmes sobre o tema. Como ícone pós-moderno que ele é, seu cinema é eminentemente despolitizado; sua preocupação não é com a origem do Nazismo, seus efeitos, causas, consequências. Sua narrativa não se preocupa em tentar entender a mente do oficial Aldo Landa ou o trauma de Shosanna . Os Nazistas são inimigos herdados por sua infância assistindo filmes da Segunda Guerra. Sua preocupação está em explorar cenas de ação e conflito com fortes momentos emocionais e forte estilização estética. Convenientemente o Nazismo é a encarnação do mal puro no inconsciente (e no consciente) coletivo do ocidente contemporâneo, o que permite a Tarantino se dar ao luxo de alegremente torturar soldados Alemães na tela, completamente livre de qualquer sentimento de culpa, tanto para ele como artista como para o espectador. Justificado pelas atrocidades cometidas pela Alemanha Nazista, Tarantino tem sinal verde para trucidar pessoas na tela com requintes de crueldade e ódio adolescente. Seu cinema é anti-humanista, sem preocupação nenhuma com questões morais.

A escolha tampouco é patriota ou, como nos filmes de Segunda Guerra originais, voltada para a excitação da ação, da batalha. A glória de se lutar pelo país, tão bem representada por séries como "Combate" ou atores como John Wayne, não interessa a Tarantino. Estes valores se encontram abaixo de algo maior, que é a nostalgia do diretor por suas referencias cinematograficas e de uma guerra que permitia, com algum senso de justiça, crueldade com o inimigo. Seu cinema é um cinema de CENAS. Cenas que devem se tornar memoráveis, marcar a memória do espectador como sequências estéticamente bem acabadas. Pequenas momentos que importam mais do que a premissa como um todo.

É um cinema sem valores, hedonista. Não há nada importante sendo discutido, há a procura do prazer estético e da criação de cenas violentas. É um cinema narcisista, preocupado eminentemente com estilo, estilização e aparências.

De qualquer forma, Tarantino resolveu botar a cabeça pra funcionar, e superou o mediocre Kill Bill. Não que o filme escape de seus cacoetes, mas algo mudou. Filmes de caras numa missão tem uma tendência ao fodismo. Basicamente IB é uma campanha de RPG, na qual os jogadores são os Basterds e a missão deles é matar porradas de nazistas, com bonus points se eles pegarem nazis do alto escalão, claro.

Aliás, QUALQUER campanha de RPG que eu já tenha jogado é melhor do que 90%, empiricamente, dos filmes de ação que eu assistí.

A premissa já ajuda o filme a ser bom. Filme que se passa nos anos 40. Não vai dar, tanto assim, para o Tarantino fazer citações grosseiras, encher o saco com referencias a obscuros filmes asiaticos idiotas.... Tem até uma cena na qual um nazista apaga um cigarro num crepe, ou torta. E se isso nao é ser cool, desencanado e estiloso, eu nao sei o que é. Claro que ele deve inspirar dezenas de adolescentes cretinos a se comportar dessa forma, coitado dos pais deles.

Ele meio que esgotou esse lance de parodiar cinema dos outros nos Kill Bill, que são sim bons, mas convenhamos, olhem pro seus corações, examinem suas almas; são eles melhores do que assitir LOST? Não, não são. São muito melhores do que alguns episódios de Dexter? Também não. Não são nem melhores do que episódios antigos de Além da Imaginação. Com certeza não são melhor do que NADA que esta passando agora no canal Playboy.

E quando voce faz um filme-citação violentinho que é divertido, mas não é melhor do que episódios de Star Trek, você tem problemas, meus amigos. Voce esta em apuros. Mesmo que você seja um sucesso. Não quero saber. Só não percebem isso os deslumbrados. Filme do Bruce Lee e alguns animes que eu já vi são melhores, mais divertidos, corpulentos e vitaminados do que Kill Bill. Por exemplo, "Vampire Hunter D" ou "Ninja Scrool". E isso é um problema, por que eles não foram tão celebrados quanto, e mereciam muito mais.

O que nao faz um investimento em MARKETING, nao é mesmo?



Tenho um VHS do "Inglorious BASTARDS" original, "O Maldito Trem Blindado", e trata-se de um filme de ação do gênero foda, com cenas gigantescas e épicas, no qual um grupo de soldados Norte-Americanos tem que explodir um trem... Maldito. Bom filme, um "Dirty Dozen" espaguete, com baixo orçamento e bastante ação. Não tem NADA a ver com esse. Ou seja, ele comprou os direitos para ter o nome, já que nao é uma refilmagem.

O filme ja se inicia com uma cena foda, numa fazenda francesa, onde o malvado Nazi HANS LANDA interroga de forma inteligente e genial um fazendeiro leiteiro e suas filhas sensacionais. Nesse momento Tarantino faz valer sua fama de fazer diálogos fodões e a coisa atinge um clímax/conflito que irá levar de forma épica a próxima cena. Chega as raias da genialidade no CRESCENDO das falas. O diálogo é uma inquisição satânica do NONCHALANTE Landa imputada sobre o bondoso fazendeiro, com uma maldosa parabola sobre ratos e Judeus, tudo ocorrendo enquanto uma familia Judia está escondida debaixo do chão de madeira. ISSO, meus amigos, é saber fazer CONFLITO no cinema. Me mostrem cinco filmes nacionais dos últimos 30 anos que tenham uma cena assim. Não há.

Em outra LONGUÍSSIMA cena, de 20 minutos, ele faz um inocente jogo de bêbados virar uma disputa por informações e percepções sutis em um diálogo em ALEMÃO que se torna uma algo impressionante. Ele leva, leva e leva a tensão com o diálogo e finalmente ESTOURA tudo em uma erupção catartica de tiros e sangue que precisa ser vista para ser compreendida em sua totalidade total.



E depois desse clímax, OUTRO.

Em uma nota, o diretor do que (dizem, nunca vi) é o porcaria HOSTEL, Eli Roth, faz um judeu forte com taco de baseball, que passeia cometendo atrocidades. Diz a lenda que ele ganhou uns 13 kg de músculo para fazer o papel, e deve ser verdade.



Simplesmente sen-sa-cio-nal a atriz Diane Kruger que faz a Alemãnazi Bridget Von Hammersmark. E a Shosanna Dreyfuss tambem nao fica atrás. Proprietaria de uma beleza meio Natassja Kinsky, faz uma DONA DE UM CINEMA, vejam só. E é obrigada a exibir um filme Nazi da época, um filme dentro do filme, que ficou SENSACIONAL, sobre um franco atirador alemão que mandou desta para melhor umas duas centenas de aliados, em uma liberdade criativa do Tarantino que convence, entretem e enriquece tudo. Um dos Basterds inclusive é um teórico de cinema! Vive disso! Como eu! Me senti CÚMPLICE desse personagem! Eu seria ele na campanha de Basterds D20.


Michael Fassbender como o crítico de cinema Archie Hicox.


Mélanie Laurent é Shosanna Dreyfuss.

De qualquer forma, o Atirador Alemão é ao menos parcialmente inspirado no ator Audie Murphy, que, diz a lenda, mandou dessa para melhor dezenas de soldados Alemães e virou herói nacional na década de 40. Vi em DVD o filme que ele fez sobre si mesmo, "To Hell and Back", e a fita tem o mesmo principio do filme dentro do filme do Basterds. Murphy foi o soldado Norte Americano mais condecorado eczistente. Outro bom (e curto) filme com ele é "A Glória de um covarde", tambem baseado nas confissões, no caso literárias, de um soldado, desta vez um veterano da Guerra da Secessão. Vejam, saiam das trevas, deixem de ser tapados, tenho que fazer tudo? Ensinar tudo? Tem em DVD.

Audie Murphy e suas medalhas.


To Hell and Back - A maior bilheteria da história da Universal até "Tubarão" de Steven Spielber ser lançado, em 1975.

Portanto, o filme é uma campanha de RPG com você e seus amigos torturando Nazistas pela Europa, e paralelamente a historia de Shosanna e seu admiranazi, que cola nela como fungo em quiabo, exigindo que ela faça a premiére de seu filme em Paris. Belas cenas de Paris, ah, Paris... Sob ocupação Nacional-Socialista.

Percebe-se, aliás, que Tarantino escreveu e reescreveu o roteiro. Existem várias tangentes narrativas que ele poderia ter seguido para a história, os cortes foram, de certa forma, meio aleatórios, e duvido, na verdade, que o clímax do filme fosse originalmente onde é. Todos os personagens tem uma sólida historia anterior, mas ele teve que se conter, ou faria uma minissérie. TODAVIA, toda essa informação dá envergadura ao roteiro e aos personagens. Você mal vê alguns dos Basterds, mas sabe que eles tem todo um passado que poderia perfeitamente ser explorado em uma série de TV. O cinema Alemão tambem é explorado, em amplas citacões. Muito nerdismo e fanboyzismo, nesse sentido, para agradar pessoas mais informadas do que vocês.

Como eu, por exemplo.

Sempre me esqueco como Tarantino despreza qualquer morte. Nenhum dos personagens se importa com gente morrendo em seus filmes, colegas massacrados e moscas são a mesma coisa, cenas de violência extrema entram e saem como se nada tivesse acontecido, e isso é irreal, imaturo, inseguro e desrespeitoso com o tema (violência). Apesar da violenssa gratuita e do poserismo de fanboy alucinadinho, apesar de tudo isso, o filme tem guys in a fucking mission na Segunda Guerra Mundial, objetivo claro, mulheres bonitas, Nazistas sendo escalpelados, final APOCALÍPTICO com gargalhadas fantasmagoricas e, finalmente, adentrando a filmografia de Tarantino, uma cena de morte bonita e LÍRICA, emocionante, épica! Com trilha do Ennio Morriconne!

Tarantino mostra que não é apenas um californiano cínico, comedor de cheetos, que ficou vendo filme de kung fu em locadora. Mostra que tem um coração! E que entende amor, dor, traição e perdão. Ou, ao menos, consegue fazer um simulacro do que viu destes temas em outros filmes.

Excelente cena de morte. Assistam, são 3 horas que passam rápido. É uma mistura de "Where Eagles Dare" com filme do Ettore Scola e pinceladas de "Cinema Paradiso". O clímax é glorioso, épico, e é a coisa mais anti-alemã que ja vi na vida.

Preencheu minhas expectativas, e me supreendeu. Sejam fanboys e vejam.

sábado, 29 de agosto de 2009

FLIP 2008


FLIP 2008

Com grande atraso, mais de um ano, venho comentar a FLIP de 2008. Encontrei alguns papéis que usei para anotar coisas que vi naqueles três dias. Foram três excelentes dias, aliás. Paraty revelou-se um lugar muito agradável, e assim também foi quando retornei lá com meu amigo germânico Manuel Rickert, no final do mesmo mês de Julho. Aparentemente ele também gostou muito.

É revigorante estar entre pessoas que lêem, estando no Brasil. Clichê dizer isso, mas a FLIP é um evento bom para se conhecer pessoas e entrar-se em contato com idéias novas, boa diversidade de autores e as mesas sempre trazem idéias instigantes.

Em uma nota completamente não-relacionada com a FLIP, estava eu lendo uma crônica utilizada por amigos para a feitura de um curta metragem, aliás muito bem fotografado, quando comecei a pensar sobre o oficio de escritor. A crônica é do Luís Fernando Veríssimo, escritor por qual tenho grande admiração (apesar de ter lido pouco, as crônicas dele me parecem muito sinceras, simples, diretas) e versa sobre um escritor dizendo algo sobre escrever. Diz ele que o verdadeiro escritor, quando já disse tudo o que tinha para dizer, se mata. Se não, não escrevia. Escreve para expurgar os livros de dentro de si. No final, ele decide não terminar a carta de suicídio/texto que estava escrevendo pois afinal, isso implicaria em que ele tivesse que cometer suicídio. Sensacional essa hein? Vocês não viram ela chegando!

Outra imagem do que é o centro histórico dessa sensacional cidade, meus amigos. Paraty!

Essa coisa de querer colocar algo gênial para os outros lerem é uma característica da literatura. "Tenho que passar uma mensagem, tenho que ser sofisticado". Um bocado chato e pedante isso, no final das contas. O Veríssimo é bom ok, tá, o cara é demais. Mas essa idéia de que "o verdadeiro escritor se mata depois de terminada a sua obras" e frases (ou idéias) de efeito do tipo são chatas e pseudo-profundas. Isso simplesmente não é verdade. Você pode achar que é verdade se tem uma profundidade emocional/intelectual televisiva, novelesca, da vida.

Está claro que em nada se equipara a complexidade de, digamos, Hardware do Richard Stanley, aí sim, uma verdadeira meditação sobre a vida.

Aqui está um trailer não oficial deste filme:



De qualquer forma, outras variações da arte, como a música, não se tornam obcecadas em querer explicar para os outros como viver a vida, apesar de poderem conter grande sofisticação. Música é assim.

Tenho ouvido muito ARISE e BENEATH THE REMAINS do Sepultura, que é uma banda óbvia, por várias razões; é uma banda Brasileira, é uma banda famosa, mas esses discos são realmente geniais e acima da média. São, em termos de música, outro tipo de manifestação artística, claro, que demanda outro tipo de leitura e tem outro tipo de resultado, mas que de qualquer forma é de uma profundidade e de uma complexidade muito maior do que Veríssimo e sua meditação sobre uma suposta carta de suicídio que ao mesmo tempo nos explica o que é a literatura e o que são os escritores, (Nada contra o Veríssimo. Sem choro, amigos) e eu lembro de ler uma entrevista com os membros da banda, Andreas Kisser e Igor Cavalera, onde um dizia que o melhor livro que ele já havia lido era "Pet Cemetery" do Stephen King (aliás, um autor soberbo, acima de Veríssimo, Machado de Assis, Guimarães Rosa e o que mais o que você enfileirar aqui) e o outro, Igor, citava "Cebolinha".

http://1.bp.blogspot.com/_e3KfbR5s63E/SEbDfh4eShI/AAAAAAAAABM/KHDEQ2Nx4ec/s320/Sepultura%2B-%2BBeneath%2Bthe%2BRemains.jpg
Vocês sabem quando eu vou escutar A-lex quando tenho Beneath the Remains? Nunca.

São pessoas que não lêem porra nenhuma, mas criaram arte com grande complexidade.

Uma coisa é uma coisa, amigos. Outra coisa, é outra coisa.


Retomando, Paraty é um lugar absolutamente agradável. Um pouco caro, e suponho que essa virada nos preços tenha se dado nos últimos 10 ou 15 anos, mas com restaurantes agradáveis, praias bonitas, gente interessante, de maneira geral um clima muito inspirador e prazeroso.

Com certeza é um dos meus lugares preferidos no Brasil (não são muitos). Tento pensar em algo que vá descrever algo mais específico mas não saio da obviedade... Suponho que toda atmosfera do local me tenha sido boa, ou me feito particularmente bem naquele momento. Existir lá é bom, e a interação social com pessoas de todos os tipos, procedencias e idades, é frequente. As noites são perfumadas pelo mar, o céu é escuro, as ruas são de pedras irregulares e as casas são bonitas.

É um bom lugar para se estar.


Começarei pelo dia 03 de Julho de 2008.

A mesa se chamava "Sexo, mentiras e videotape", em alusão, acredito, ao filme de Steven Soderbergh. Presentes estavam Inês Pedrosa, que já foi editora da Marie Claire Portuguesa, Zoe Heller, escritora Inglesa que fez "Anotações sobre um escândalo", filme que se tornou "Notas sobre um escândalo", com a atriz Judi Dench. Filme que eu não vi e suponho que, em relação a mim, continuará nessa situação. Ou não. Recentemente ouvir falar muito bem do filme, através de fontes confiáveis, e a terceira presença era a escritora Cíntia Moscovich, que escreveu "Por que sou gorda, mamãe?" um livro, aparentemente (segundo ela mesma) inspirado em "Carta ao Pai", que é um belo exercício de exorcismo (quantos ex) sobre má paternidade do Kafka. O título do livro de Moscovich, de acordo com meus preconceitos, apontaria para algo um tanto quanto auto-indulgente, mas ela leu um bom trecho de seu livro, e disse algumas das coisas que achei das mais interessantes na mesa.

Gosto muito do livro "Carta ao pai". Lí avidamenta alguns anos atrás e fez todo sentido para mim. Uma das funções (ou capacidades) da arte, afinal, e estabelecer essa empatia e essa conexão de experiências entre as pessoas. Isso nos faz criar amor a arte, mas também nos faz confundir-mo-nos com o autor (está certo isso? Espero que sim). Frequentemente entro em contato com pessoas que acreditam que, por que compreendem e captam algo de uma obra de arte, são "parte"dela ou são, de alguma forma "como"o artísta. Isso é uma grande mentira. Ser espectador, receptor de arte é uma coisa. Ser artista é outra, e muitas, muitas pessoas se confundem com essa linha, acreditando que perceber a genialidade de um artista equivale a tornar-se um gênio, ou de alguma forma estar perto desse artista. O trabalho criativo de um artista é muito diferente do processo de recepção que o espectador exerce, que é passivo e de decodificação e compreensão. Em suma, ser fã não é ser artista, são procedimentos muito diferentes que exigem trabalhos muito diferentes.

Zoë Heller, supostamente xavecada por Neil Gaiman durante a FLIP.

De uma forma um pouco melancólica, Cíntia definiu as pessoas como "um abismo", cada um de nós seria um, e completou de forma excelente: "O drama da existência não é tão vasto como queremos", e não é mesmo. Criamos tanta análise, tanta conjectura, tantas idéias confusas e profusas sobre estar vivo que sinto que, muitas vezes, sequer lembramos mais qual é a pergunta original. Acima de tudo raramente chegamos a algo realmente de interessante dessa fecundidade de estudos de possibilidades e de respostas para estas possibilidades. Tanta filosofia produzida sobre a vida, e no final das contas, o drama humano é o mesmo, insolúvel e irremediável, há milênios.

Nós não somos tão complexos quanto queriamos ser e estar vivo não é tão complicado. Comer, dormir, procriar, tentar manter-se vivo. Pode ser doloroso e dificil, mas toda essa montanha de arte e especulação psicológica, religiosa e cultural que criamos é muito mais desespero do que um estudo real eficiente (ou uma maneira realmente produtiva) de lidar com a dor humana, infrequentemente resulta em algo que vá apresentar resultados palpáveis.

E esse é meu desenvolvimento das idéias apresentadas pela Cíntia Moscovich, e não o que ela disse.

Ela desenvolve, dizendo que não existe nada de muito exótico em se escrever, é a soliedariedade com o leitor que faz tudo. Escrever é compaixão. Partilha pela paixão dos outros.

Há uma breve e divertida discussão sobre o que é "literatura feminina". Algo muito interessante que Heller diz é que mais ou menos qualquer coisa é visto como "Literatura Feminina" quando é escrito pelo ponto de vista de uma mulher, enquanto que quando é escrito por um homem é apenas "Literatura". Acredito que ela esteja certa e que o mesmo seja válido para outras literaturas; diremos que tal assunto é visto através da "visão homossexual" se for escrito por um gay (a despeito do assunto abordado ter uma relação direta com homossexualismo ou não). Triste isso, classificamos qualquer interesse de "minorias" de acordo com condições delas que não se relacionam necessariamente com a questão exposta.

04/07/2008

David Sedaris e Matthew Shirts.

Sedaris é um Norte-Americano, e se comporta falando de forma muito Americana. Trabalhava como um Elfo numa joja da Sears (ou Macy's, como dizem outras fontes). O quão começo-de-uma-comédia-no-HBO é isso? É gay, e me passa a impressão de ser um pouco melancólico. Sua comédia é triste, suas piadas, desencantadas com o mundo. Bom momento se dá quando ele fala que costumava viajar de carona pelos EUA, que ele pegou este último momento no qual isso ainda poderia ser feito nos EUA, antes de se tornar algo muito, muito perigoso, e recontou como foi o último dia no qual fez isso. Após pegar carona com um casal, o homem que está dirigindo virou-se para ele e disse "How would you like to eat my wife's pussy?", para o que ele, apavorado, replicou "I.. I'm GAY!".

Acredito que esse período de caronas tenha acabado no início da década de 80. Á partir daí, disse ele, as pessoas apenas lhe davam carona se pudesse conseguir algo em troca, algo de você, normalmente arranjar drogas ou sexo. E querer algo de você também é algo tipicamente Norte Americano. Por mais que isso pareça um julgamento caricato, eles são sim, viciados em consumo e muitos vêem as pessoas como oportunidades. Existe um espírito lá que exerce isso como modo de vida.

Ele diz que as vezes não gosta muito de viver. "Como assim?", é perguntado, e ele explica que não é que ele odeie a vida, exatamente, mas as vezes, durante um vôo, não se importaria se seu avião caísse.

David Sedaris
Diz que sente que não quer morrer por que perderia a oportunidade de ler livros novos de seus autores preferidos. Alguns deles: Tobias Wolff, Lorrie Moore, Alan Bennet. Vive na França mas mora metade do ano em Londres.

Fala mal (e de forma engraçada) sobre Gregos. Humor Americano, faz quase um esteriótipo do que descreve, talvez pela necessidade de alguns Americanos de rapidamente resumirem as coisas. Me impressiona como ele passa tristeza. Me lembro vagamente dele ter mencionado que sofre de depressão, talvez? E que se medicava ha anos? Não tenho certeza. Na verdade acho que sim. E finaliza "I am not a huge fan of my own writing", e todos riem. Como será que ele e sente pensando sobre isso, sozinho, depois? Deve ser uma pessoa interessante de se conversar com.

04/07/2008


Nathan Englander.

Bom o Englander. Nunca havia ouvido falar dele. Um Judeu novaiorquino, indignado e decepcionado com o mundo no qual vivemos. Jovem (38 anos) ele demonstrou ser muito sincero, disposto e triste, realmente parecia estar "procurando uma saída" para o que ele observa no mundo. Senti grande empatia com ele, provavelmente por ele ser jovem e se preocupar com a condição do lugar e do "ser" em que vivemos. Fez colocações aplaudidas sobre o governo Bush e sobre a surpresa estúpida com a crise do petróleo e o fato de que teremos problemas de energia sim nos próximos 30, 40 anos. E me pergunto como serão esses anos. Darker Days Ahead, como já dizia o finado Jesse Pintado.

http://www.worldentertainmentinc.com/images/Jesse%20Pintado.jpg
Jesse Pintado que, uma vez, bêbado, tentou brigar comigo por que derrubei cerveja nele. Pelo menos você não verá a HORRENDA crise energética que tomará conta do mundo daqui uns 40 anos, não é mesmo? RIP Jesse, sem ressentimentos.

Não surpreendentemente em Setembro estourou a crise econômica mundial, causada, básicamente, pela utilização irresponsável de "crédito" que não existe.

Assim como Englander, tenho a nítida sensação de que o mundo está piorando e irá piorar. Ele cita a antiga verdade sobre a sensação que temos diante de instituições; nos sentimos impotentes diante de forças políticas que parecem muito maiores do que nós. Tão trivial e repetido, mas tão importante. Isso me lembra algum professor que tive na USP, não me lembro agora quem exatamente, talvez o Modesto Florenzano, lembro-me dele falando sobre quando nos referimos a oscilações na economia que o "mercado" quer e o "mercado" deixa de querer, personificando-o quase como uma entidade metafísica, monstruosa, uma espécie de Deus, afinal. Pode parecer óbvio, mas o ponto mais interessante que ele trouxe à tona nesse dia foi de que o "mercado" é feito por pessoas, e não é um monstro sem rosto, ingovernável, que nos leva a apatia e a sensação de impotencia. São pessoas, pessoas que acordam de manhã e vão tomar decisões, decisões essas que afetarão milhares de vidas, e é especificamente a isso que Englander se referiu, demonstrando grande tristeza.

"A população é muito maior do que o Estado", ele diz, assim como pregava o slogan da adaptação cinematografica de "V de Vingança", de Alan Moore; "As pessoas não deveriam temer seus governos. Governos deveriam temer as pessoas". Englander continua explanando sua crise "O mundo está acabando e eu saio em uma tour para promover meu livro". Esse tipo de culpa e sensação contraditória é algo que não nos escapa.

Quando eu era criança, sempre pensei que ser adulto era ter mais certezas e poder aproveitar elas, mas isso, evidentemente, não é verdade. É uma típica visão infantil, e que justamente faz falta a quem atinge a maturidade. Mesmo que tenhamos ganho outras coisas com a sabedoria dos anos, que também são muito preciosas.

Na verdade, não sei se a troca é boa.

05/07/2008

Tom Stoppard e Luis Fernando Veríssimo.

A apresentação de Veríssimo é feita com uma leitura de texto. Acho isso chato, aborrecido. Pra que? Que mania de Brasileiro de querer ser formal. A apresentação de Roberto Schwartz também foi assim (abrindo a Flip, falando sobre Dom Casmurro), lendo um enorme artigo/dissertação/texto que havia produzido, imagino, para a ocasião. O texto era, claro, muito bom, mas ele leu com uma régua, passando o texto lentamente, coisa canhestra. Consigo imaginar poucas coisas mais chatas do que simplesmente ouvir alguém lendo um texto que produziu de forma repetitiva e monocórdica. Acho que é coisa de Brasileiro isso, medo de errar ao improvisar um pouco. Se o Versíssimo tivesse apenas lido o verbete da Wikipedia 3 horas antes, (em inglês, o em Português deve ser pobre) sobre o Stoppard, já estaria preparado para fazer essa introdução.

Também não entendo direito por que escolheram ele. Marcelo Tas era mediador do Neil Gaiman sem saber quase nada sobre ele. Nada contra o Tas, que foi divertido e fez bem seu papel, mas não seria melhor colocar alguém que já leu Sandman, Deuses Americanos, Anansy Boys, Neverwhere, Stardust, etc para mediar esse encontro? Parece que socaram ele lá por que ele é uma celebridade moderna e prafrentex que vai se encaixar bem com esses escritores igualmente atuais e muito loucos que são Gaiman e Richard Price! Vai funcionar!

E funciona, mas me parece uma coisa um pouco "subdesenvolvida" e eternamente deslumbrada, de a elite, qualquer que ela seja aqui (com afinidades ou não com o que vem de fora, sempre mais interessante) de querer se associar com esses exóticos e superiores escritores internacionais.

E além disso, Veríssimo abre a apresentação dizendo "O mágico, Tom Stoppard", um pouco deslumbrado demais.

Mas divago. Apesar de que o que são essas memórias a não ser uma grande sessão de divagações?

Boa discussão, Stoppard fica de pé e faz uma apresentação como uma palestra ou aula. Começa falando que evidentemente não é muito conhecido no Brasil por ser dramaturgo, e lentamente tenta definir o que é "escrever bem". Segundo Stoppard, a essa questão podemos imputar duas variações; na primeira variação (e segundo ele, na mais comum) falamos de manipular linguagem com experiência para formular um pensamento impactante em uma sequência arquiteturalmente/intelectualmente elegante de palavras.

Concordo, mas na verdade a seqüência de palavras sequer precisa ser muito elegante, o que realmente importa é ter um pensamento impactante dentro delas. Trazer a "seqüencia elegante" tem cada vez mais tornado-se um opcional. Muitos escritores, o meu frequentemente citado Stephen King, por exemplo, não é famoso por fazer tantos "pensamentos impactantes" em frases de efeito arquitetônicas. King é excelente em criar atmosferas e narrativas bem acabadas, com continuidade rigorosa e supreendentemente lógica. Imagino que ele tenha criado notas e mais notas sobre tudo que colocou em "The Dark Tower" para dar conta da continuídade (trata-se de um livro de quase 4000 páginas escrito ao longo de mais de 20 anos, e a continuidade está preservada. Evidentemente ele tomou notas e fez tabelas para poder se orientar diante da quantidade de coisas que estava criando).

Ele é um excelente escritor e suas qualidades não estão em fazer frases de efeito que condensam idéias particularmene pungentes, impactantes e reflexivas. O que Stoppard está definindo como "boa escrita" aqui é o Oscar Wilde sendo engraçadinho ou o George Bernard Shawn sendo irônico e fazendo alguma observação sobre a hipocrisia. Um pouco limitado, mas vamos lá.

A segunda variação de "escrever bem" que Stoppard relata é a utilização de palavras simples e à principio óbvias na situação perfeita. E isso é muito mais dificil de se fazer. Palavras-comuns chavões, que, colocados em um momento em particular atingem um brilho especial e elevam toda a "cena", dando um brilho emocionante a narrativa em questão.

Os exemplos que ele usa são de diálogos/ação em ficção, e não sua utilização em colocações filosóficas, debates intelectuais, considerações abstratas e afins. Logo, essa é "boa escrita" para ficção.

E então ele se refere a uma cena de "O Terceiro Homem" onde exatamente uma frase de efeito do primeiro tipo de "boa escrita", impactante, com efeito, inteligente, é utilizada. O roteiro original é de Graham Greene, mas a frase aparentemente foi cunhada por Welles no set, ela não depende em NADA da narrativa e poderia estar em qualquer lugar de praticamente qualquer filme, e por isso mesmo não se prende a melhorar a narrativa, e diz o seguinte: "NA ITÁLIA, por 30 anos, sob os Bórgias, tiveram guerra, terror, homicídio, sangue e produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, tiveram amor fraterno, 500 anos de democracia e paz e o que produziram...? O relógio-cuco."

Também é dito que Welles credita a frase (ou a idéia da frase) a uma "velha peça Húngara". Quem sabe? Não importa.

O que Stoppard quer explorar não são estas inteligentes e intelectualmente impactantes frases de efeito, e sim as palavras-comuns colocadas em situações especiais. Ele nota, muito bem, que a construção dessa frase é feita através de aplicação, de referencias literárias, e que quem realmente lê e se dedica, se tiver o intelecto suficiente para tanto, pode acabar sim também produzindo uma frase tão boa quanto essa. Nesse sentido, ela é menos interessante do que o uso de uma frase absolutamente ordinária em uma situação perfeita, que traz a cena poesia, impacto e principalmente reverberação emocional muito grandes.

Uma observação excelente que ele faz é notar que o filme realmente precisa parar para que essa frase seja proferida pelo personagem de Welles. Ela não leva a história para frente, não a faz progredir, e portanto, e termos de diálogos cinematográficos, não é a melhor frase do mundo. É uma pausa quase exibicionista do intelecto de Welles e o quão incisivo ele pode ser.

Stoppard então lembra-se de uma boa cena de "O Fugitivo", com Harrisson Ford como homem acusado de ter matado sua esposa fugindo da polícia, tentando provar sua inocência enquanto alega que foi vítima de um "homem de um braço só".

Na cena, Harrisson está armado, mas encurralado por Jones em uma rede de túneis de água que levam a um precipício. Com o poder em mãos, Ford, apontando a arma para Jones, defende-se com a única coisa que pode dizer: "Eu não matei minha esposa", usando sua inocência, o cerne do conflito do filme, como valor de troca com o policial.

O que Ford precisa fazer, como protagonista, é persuadir seus antagonistas, deixar claro a eles, que ELE É inocente. A verdade é seu único trunfo, seu único valor, e é com essa moeda, a mais pura que ele tem, que Ford aborda Jones, estando em uma situação de superioridade e controle momentaneos, já que Ford está armado.

E então Jones retruca, com os braços rendidos: "Eu não me importo", deixando claro que o que está em logo alí não é a inocência de Ford, e sim o fato de que ele deve ser preso.

Todo o filme é levado por conceitos abstratos de lei e ordem, de certo e errado, de justiça e injustiça que criam uma sociedade civíl. E quando Tommy Lee Jones diz que não se importa se Ford é inocente ou não, todos estes valores vão por àgua abaixo e tudo o que temos é a perseguição de Ford pela pura perseguição, em um movimento mecânico e cego.

O mesmo se dá, de certa forma, com o personagem Popey Doyle, o violento e racista policial interpretado por Gene Hackman em "Operação França", quando, no final deste excelente filme do diretor William Friedkin, que depois de fazer "Operação" e "O Exorcista" jamais conseguiu realmente brilhar (apesar de eu gostar muito de um filme dos anos 80 dele chamado RAMPAGE, sobre um serial killer, mas isso não vem ao caso no momento), Doyle acaba matando um inocente, completamente obcecado por sua cruzada contra os traficantes franceses.



Em quatro palavras, "Eu não me importo", Tommy Lee Jones deixa claro que o filme se trata de uma perseguição pela própria perseguição, e nada mais. Stoppard diz que isso é um momento de perfeição, já que com uma pequena frase todos os valores da narrativa são invertidos.

Ele valoriza uma boa cena de "Indiana Jones e a última cruzada", na qual o persnagem central, após despenhar de um penhasco em uma seqüencia de perseguição com tanques nazistas, consegue subir escalando uma montanha. Seu pai e um amigo ficam observando o desfiladeiro, lamentando a morte de Indiana, enquanto com grande dificuldade ele chega a eles. Depois de se reconciliarem, uma lufada de vento trás o inconfundível chapéu de Indiana. Segundo Stoppard, essa cena é tomada por poesia e ele gostaria de ter escrito ela. E ela realmente é, fazer o chapéu voar de volta para Indiana foi uma maneira quase mítica de dar ao "man with the hat" de volta algo que lhe é simbólico como personagem e permitir a continuidade da ação.

Ele quase pede desculpas por citar Indiana Jones, aliás, o que é um pouco bobo. O público da FLIP com certeza seria preconceituoso com Steven Spielberg e citações de Indiana Jones pegariam mal, e ele sabe disso. Mas para que se desculpar, no final das contas? Stoppard faz questão de frisar que "Spielberg não é um intelectual, mas isso foi genial, pois ele transformou o problema (a ausência do chapéu) em um momento sublime", ou seja, ele consertou a narrativa com um momento de poesia imagética.

E levando a coisa mais adiante e sendo ainda mais minimalista; ele cita uma cena de Chinatown na qual temos uma "establishing shot" de uma casa, depois, longas tomadas interiores, sem que acão alguma ocorra. Subitamente; fumaça de cigarro aparece na tela, vindo de um dos cantos. E assim sabemos que o personagem de Jack Nicholson está na cena.

Todavia, depois de notar isso, Stoppard re-assistiu ao filme, com colegas, avisando antes "Ok, esperem pela cena do cigarro" e quando chega a seqüencia.... A fumaça não está lá. Portanto, nesse sentido, o sutil trabalho de se colocar um pequeno elemento que irá trazer todo um significado a cena foi feito PELO espectador, assim, a fórmula, segundo Stoppard, atinge uma espécie de ápice; o espectador é forçado a fazer uma espécie de metonímia. E isso, meus amigos, é uma espécie de MAGIA.

Pelo menos segundo o Stoppard.

Eu diria que você precisa de um público bastante perspicaz e criativo que consiga fazer isso para começo de conversa, o que é um certo desafio, mas é uma observação inteligente sobre a escrita e sobre como perceber arte e não posso desconsidera-la.

Bom o Stoppard ao vivo. Ele obviamente planejou toda a apresentação, inclusive as partes que tirariam risadas do público (como quando revela que ELE criou a fumaça de cigarro em Chinatown). Evidentemente ele leciona ou já lecionou pois sabe atingir todos os pontos de virada que criam uma narrativa de uma boa apresentação.

Artificialmente, e de forma muito bem colocada (não vejo o fato de que ele planejou cada exemplo e cada momento como algo ruim, absolutamente) ele descreve uma encenação que viu de A TEMPESTADE de Shakespeare, na qual a produção foi feita por um grupo que ele definiu como amador (mas que provavelmente no Brasil seria considerada uma produção profissional, tal a descrição).

Com o intuito de fechar sua apresentação, Stoppard fala "Muitas das coisas que lembramos de peças são coisas que não foram escritas", e que isso é muito importante, reforçando o trabalho do espectador. Elementos da encenação que não estavam no roteiro e que se prendem exclusivamente a aquela apresentação fazem muita diferença. Na encenação Shakesperiana em questão, no final da peça, o personagem de Ariel corria por um gramado ao ar livre, com o sol se pondo, finalmente atingindo um lago onde uma ponte submersa de madeira havia sido colocada, para que o ator corresse sobre a àgua. Tudo que se ouvia eram seus passos aquàticos ecoando sobre o lìquido, até que a figura desapareceu na escuridão. E então, ao fundo, um estouro de fogos de artifício se fez no ar, e escreveu-se "Ariel EXITS", finalizando tudo. E assim Stoppard finalizou seu monólogo de forma poética e impressionante, gerando aplausos e apreciação geral.

E tudo isso acima ficou muito mais uma descrição do que uma análise do que aconteceu.


Uma boa frase, muito verdadeira e pouco acatada por estudantes de Cinema e cineastas em geral desse nosso Brasil Varonil, dita por ele foi "Eu prefiro um grande western a um filme de arte medíocre", o que é a verdade absoluta da arte, mesmo por que é muito mais fácil fazer um filme "de arte" pedante, pseudo-enigmático e entediante do que um western clássico bem acabado. "A criação é auto suficiente, o que é necessário é você, papel e caneta" ele diz, e isso ilustra bem a oposição entre Cinema como uma forma de arte e a literatura.

Os obstáculos, entraves, burocracia e desgraças entre a concepção de algo para o Cinema e seu resultado final, são enormes, e o mesmo não é verdade na literatura. A criação para o Cinema exige a construção laborosa e burocrática de um universo a ser colocado diante das câmeras. Qualquer idéia ou emoção que o artista (ou cineasta) queira transmitir deve ser transmitida minuciosamente através de todo trabalho, feito primordialmente por obstáculos físicos, que são fazer Cinema, uma disciplina extremamente dependente da matéria. A literatura e mesmo a pintura, escultura, música e outras formas de arte dependem muito menos da técnica do que o Cinema, e por isso a chegada em resultados mais rápidos.

Por outro lado, o poder impactante e imersivo do Cinema provavelmente é inigualável, desde que o espectador esteja disposto a realmente submerger nas imagens e sons.

Stoppard é claro e sincero, diz que escreveu sua última peça a quatro anos (será essa Rock and Roll? Não vou parar para pesquisar agora). Ele é, ou tenta ser, complexo, profundo e grandioso, o que gosto. Frisa que ter uma opinião é não é ter uma narrativa, e muitas vezes vejo pessoas com idéias vagas que realmente não são por si histórias, apenas conceitos. A maioria das coisas que inspiram escritores vem de idéias abstratas, sem personagens, narrativas, nada. Cabe ao escritor criar uma narrativa para ilustrar pontos interessantes e conceitos a serem discutidos, e isso é muito mais dificil de se fazer do que se observar coisas curiosas sobre a vida, o universo e tudo mais.

E, para escrever, ele usa uma fountain pen e lined paper.

É acho que é isso. Não consigo pensar em nada mais para relatar ou refletir sobre a FLIP do ano passado.
Joaquim EXITS!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Hoje eu me apaixonei por seis minutos

22/11/2007

Estava eu caminhando em um poético e bonito pôr-do-sol alaranjado de fim de tarde quando atingi meu destino: a prosaica festa de livros da USP.

Os pores-do-sol da USP são bonitos. Lá o terreno é mais plano do que na maior parte de São Paulo, e dá para ver o horizonte. Algo que sempre me emociona e me espanta quando saio dessa cidade, onde quase sempre vivi.

Solitário, começo a ver os livros. Aquela coisa sensacional, milhares deles, tudo, tudo tão interessante que dá vontade de ler pra sempre.

Estava me amaldiçoando por não ter pego uma blusa (já que tenho sentido cada vez mais frio ultimamente; eu era bem resistente quando criança e adolescente) já que a brisa de fim de tarde arrepiava meus braços, quando adentrei aquele enorme vão do saudoso prédio da História e da Geografia, lugar de profunda sabedoria e conhecimento! Ah sim! Muito! Lugar onde, afinal, passei quatro anos e meio da minha vida.

Lugar que me deu o diploma que ostento orgulhosamente no escuro da minha gaveta de escrivaninha, lugar onde assinei um documento me comprometendo apenas fazer pesquisa histórica em nome da justiça e do progresso humano! Um lugar cheio de curvas, sombras e memórias que jamais irão fugir de minha mente de de meu coração! Lugar onde aprendi, amei, chorei, transei e ri.

Quase uma novela.

Solitário, começo a ver os livros. Aquela coisa sensacional, milhares deles, tudo, tudo tão interessante que dá vontade de ler pra sempre.

Também sou possuído por uma vontade de fazer uma magia que fizesse com que aquela montanha de gente desaparecesse para que eu possa alcançar os livros com maior facilidade.

Ao mesmo tempo ondas nostálgicas de ter ido em todas as festas do livro, desde a primeira, no ano em que entrei na USP, e de tudo que vivi naquele prédio, se apossam de mim.

São muitas emoções, gente!

Caminhando entre estudantes hippies, um gordo metaleiro com uma camiseta do DIO e professores, vou direto ao stand da Conrad, onde preciso pegar alguns volumes para completar coleções de livros e quadrinhos.

Ah! GordecamisetadoDio! Membros dessa espécie, normalmente jogadores de RPG, são comunmente vistos na USP e são espéciemes belos da fauna da Universidade. Devem ser preservados. Habitualmente virgens, são bons de papo e entendem de mitologias Européias e sabem muito sobre torrents pornôs em evidência.

Uma senhora pergunta a um vendedor: "O senhor tem livros de arte?" e ele responde: "É que aqui nós consideramos quadrinhos arte". Ela diz "Ah, tá" e vai embora.

O vendedor tem tatuagens de símbolos que eu vejo em academias de Yoga nos dois antebraços.

Que prazer tenho ao ver a figura de Conan estampada na capa das edições dos volumes I e II das sagas do cimério que, eu não sabia, foram lançadas aqui!

Acredito que o perfil de toda minha fonte de prazer na vida determinou-se até meus 15, 16 anos.
Ou seja, sou um nerd infantil.

Mas isso não vem ao caso.

O que vem ao caso é que....

Estou lá, desavisado, com os olhos passando por imagens de Mangás, desenhos de Robert Crumb e figuras do Sandman... Quando vejo a loirinha.

A loirinha é "inha" na medida em que esse diminutivo proporciona as mais delicadas qualidades a moça. É meio brega, beirando o babaca falar isso. Mas ela não era uma loira.

Ela era uma loirinha.

A primeira coisa que sinto é vontade de abraçar e proteger ela.

Estava usando um moleton azul marinho antigo e puído, calça jeans e tênis All Star. O cabelo estava preso pra trás com fivelas bonitas e escuras, mas escorria pelos ombros, em ondas de amarelo e castanho claro. Seu olho é de um castanho muito claro.

Ela está folheando o livro do Lester Bangs, "Reações Psicóticas".

Me apaixonei.

Durou uns seis minutos.

Decidi que deveria dilatar aquele momento o máximo possível, e fiquei folheando um livro de ficção científica ao lado dela, bebendo sua beleza com os meus olhos. Sua beleza intimidadora nunca escapando de minha visão periférica.

Quando ela se decidiu, parou de ler.

Fechou o livro, colocou a mão na bolsa e de dentro dela tirou uma carteirinha de plástico transparente, antiga,, com dinheiro; umas poucas notas visíveis através do plástico translúcido.

Fiquei imaginando onde ela arranjou aquela carteirinha, se ela ganhou de uma amiga, se comprou numa loja de 1,99, e há quanto tempo tinha ela.

Imaginei onde ela deixa a carteira quando chega em casa. Talvez em cima da mesa? Do lado da cama? Pensei que queria estar com ela quando ela escolheu comprar a carteira.

A carteira era um pedacinho de plástico que parecia frágil e pequenininho, assim como ela é loirinha. Não era uma carteira grande da Louis Vuitton, um objeto arrogante, ostentador, deselegante, inseguro, vulgar.

Era um saquinho de plástico que combinava com ela ser loirinha e gostar de algo simples.
Desejei que a mente dela fosse transparente como o plástico da carteira, para que eu pudesse saber de tudo que ela gosta e fazer pra ela.

De relance, olhei o lado do seu rosto, ela estava olhando para algo a direita e com parte da nuca virada pra mim, seu rosto fazia uma curva bonita escondendo seu nariz, enfim, eu via só sua bochecha. Era macia e fofinha. Dava para ver os pelinhos no rosto dela, transparentes. Como a carteira.

E tinha uma pintinha pequena, clara.

Ela esticou a mão para a esquerda e pegou outro livro, algo sobre um fumador de ópio, mas não era o do DeQuincey, que vejo pra vender em bancas, em edição da L&PM.

Com uma voz muito, muito baixinha, ela perguntou o preço dos livros ao vendedor. Ele consultou uma tabela e disse, e ao invés de responder, ela apenas assentiu com a cabeça e deu os livro a ele. Começou a separar o dinheiro.

As unhas dela eram pequenas e curtinhas, sem pintura, transparentes como a carteira. Os dedos eram finos e delicados, como de uma criança.

Eu deveria ter chegado junto, e na melhor tradição do xaveco instantâneo falado: "O Bangs falando sobre Van Morrisson nesse livro é demais"

Ou ainda, dito: "Adorei sua carteirinha de plástico, seu moletom antigo e seu All Star, você é tão simples e bonita quanto uma flor, dá vontade de te abraçar e sentir seu aroma e beijar sua bochecha. Posso?"

Mas decidi não fazer nada.

Ela pagou, deu as costas a mim saiu pela saída ao lado da antiga biblioteca, sendo consumida pelas sombras do fim-da-tarde. O sol não estava mais lá.

Vi seu All Star e sua calça jeans - no tamanho exato para o corpo dela - desaparecendo e fiquei triste.

Para ela, foi só mais um dia, mas para mim, ela está imortalizada aqui.

Provavelmente ela é, e sempre vai ser, muito mais bonita na minha memória do que na verdade.

Mas é assim que eu quero que seja.


domingo, 3 de maio de 2009

Virada Cultural

http://radiated5.files.wordpress.com/2009/02/3065night-of-the-living-dead-posters.jpg http://www.uttertrash.net/dayofthedead.jpg
Hoje fui ao centro prestigiar a Virada Cultural, evento anual já bem sedimentado no calendário de São Paulo, onde o centro da cidade fecha e dezenas (centenas?) de atividades culturais tomam conta das ruas. Alguém teve o bom-gosto de programar uma sessão de 24hs de exibições de filmes com mortos vivos e zumbis, no cine Dom José. Agradeço ao prefeito Kassab por ter apoiado e endossado essa proposta.

Fui no cinema com uma amiga e vi de uma vez só Noite, Manhã e Dia dos Mortos, a trilogia completa do George A. Romero sobre mortos vivos, que iniciou a avalanche de filmes sobre esse tema na história do cinema. Estes filmes simplesmente criaram um novo gênero dentro do horror e são clássicos absolutos. Assistimos tudo na sequência, com apenas pequenos intervalos entre um filme e outro. Como estava muito cansado, dormi um pouco durante Manhã e Dia.

Foi incrível, e fazia tempo que não via uma sessão de cinema assim. Sala totalmente lotada, não via isso há anos; pessoas sentadas no chão, e todos aplaudindo tanto a cada zumbi morto como a cada personagem protagonista que morria também, com o público indeciso, aparentemente, sobre quem gostaria de apoiar, ou simplesmente feliz demais em ver cenas de violência que não podem ser levadas à sério, todos embebidos na bruma intoxicante da Jornada Cultural, onde as ruas não tem carros e estão tomadas por pessoas... Muito como uma cidade tomada por mortos-vivos, aliás!

A primeira sessão, de Noite, começou as duas da manhã, com barulho absoluto do público. Algumas pessoas tentaram pedir silêncio, mas foi impossível. Toda sessão foi comentada e discutida pela platéia, permeada por gargalhadas, risadas, assovios e gritos. Enquanto a personagem Barbara fugia entre as lápides do cemiterio, e seu irmão caçoa de seu medo falando "Barbara eles estão vindo pega-la", pessoas na sala sugeriam a Barbara alternativas e saídas, em voz alta, conversando com o personagem, convidando Barbara a desde agredir o irmão a praticar atos libidinosos com ele. "Foge Barbara", "Soca esse palhaço Barbara", "Tu é babaca, Barbara", foram apenas alguns das dezenas de comentários que escutei.

Quando acabou Manhã saímos e fui na lanchonete da frente comprar um suco de Melancia.

Estava de dia já, céu azulado frio de manhã entrecortando os prédios antigos do centro, da rua Dom José de Barros, e já vi que para Dia dos Mortos havia uma fila gigantesca de pessoas, começava no meio da Dom José e ia até a Avenida São João, muita gente.

Re-entramos na fila, cercados de góticos, punks, bêbados e metaleiros e assistimos o Dia.

http://morb.files.wordpress.com/2007/12/dawn_of_the_dead_1978.jpg

O filme é tomado por cenas claustrofóbicas, com um grupo de pessoas preso dentro de um abrigo militar, submetidos as ordens ditatoriais do Capitão Rhodes, que gradualmente tortura mais e mais, tanto fisicamente quanto psicológicamente, as pessoas que o cercam, levando o filme e os protagonistas a novos níveis de tensão e desespero confinado...

Cochilei.

Acordei com o cinema inteiro entrando em erupção de aplausos quando Rhodes (interpretado com excelente canastrice por Joseph Pilato) é despedaçado por Zumbis, tem suas entranhas e membros arrancados por um exército de mortos vivos, que se alimentam de sua carne em cenas que embalaram a geração GORE oitentista, a qual pertenço, e que ilustrou tantas edições da revista Fangoria.

Essa sequência é uma verdadeira pausa na narrativa para que os Zumbis façam seu lanche antropofágico. Ao nosso redor, gente gritando, assobiando e correndo pelos corredores em celebração gore-nefasta-profana.

Toda a projeção parecia com gente assistindo as famosas sessões do cult Rocky Horror Picture Show em Nova Iorque nos anos 70 e 80; pessoas comentando o a trama, dialogando com os personagens, tirando uma porrada de fotos dentro do cinema. Os flashes não paravam de embranquecer a tela, e teria sido proveitoso se tivessemos uma câmera para poder ilustrar melhor essa postagem. Quando o personagem do Duane Jones dava um golpe em algum zumbi, durante Noite, ouvi um grito: "Olha o Obama distribuindo sopapo!".



Uma cena de pessoas participando de Rocky Horror Picture Show.

Obama? OBAMA?

Outro momento no qual o cinema emergiu em gritos, apitos e aplausos foi quando, em Noite, Barbara (Judith O'Dea, aliás, muito bonita e recentemente de volta as telas em filmes depois de muitos e muitos anos sem fazer nada) está dando chilique e Jones da um tapa na cara dela para que ela se controle. O machista Brasileiro não se conteve e o Cinema inteiro virou um show de rock, com assobios, risadas, apitos e gritos histéricos.

É curioso como os filmes são diferentes: Noite é claramente um filme B, feito com poucos recursos, alguns "jump cuts" que quebram continuidade, cenários relativamente pobres, efeitos simples. Mesmo assim, é um filme visceral e extremamente atmosférico, que jamais perde tensão e sempre apresenta novos conflitos. Extremamente violento para a época na qual foi feito, ele deixa muito clara a arquitetura que seria utilizada dalí em diante para centenas de filmes com mortos vivos que o copiam até hoje.

Romero criou na verdade um formato muito simples que provou poder ser super utilizado, a perspectiva básica é: "um grupo de pessoas cercados por mortos vivos canibais". E isso funciona para tantos filmes há tanto tempo que transformou-se em um subgênero. Essa prova apenas endossa minha teoria de que formatos simples se prestam para se explorar, com criatividade, qualquer tema, desde que você respeite as regras básicas do que está fazendo.

Manhã é um filme melancólico e mais pausado. Muito diferente da refilmagem de Zack Snyder, que, me parece, só apreveitou mesmo a premissa de um grupo de pessoas confinado num shopping center cercados de zumbis. Toda a dinâmica entre os personagens é alterada aqui. É um filme sem esperança e sem conclusão, que tenta entender a solidão e o horror dos personagens. Gostei particularmente do final, não via esse filme há muitos e muitos anos, e não me lembrava que ele ia, em seu clímax, de um niilismo total para um rastro de esperança, em um bem colocado ponto de virada. Funciona muito bem, e a tomada final chega a ser poética.

Em termos estéticos, o que pior envelheceu foi Dia dos Mortos. A trilha sonora é feita de um eletrônico cafona oitentista que tira um pouco atenção da trama, e prejudica a "suspensão da descrença", hoje em dia. Tive o mesmo problema com Expresso para o Inferno, que revi recentemente, devido também a sua trilha. É um filme um pouco histérico (os personagens gritam desesperados uns com os outros o tempo todo, suponho, para manter a tensão da trama) e possivelmente pessimista. Temos os personagens mais odiosos da trilogia original nesse filme. Egoísmo, maldade e traição são os temas explorados, enquanto um grupo de militares tenta sobreviver em uma espécie de bunker subterrâneo. Também é o mais violento dos três filmes da trilogia, e de certa forma o mais arrastado. Explora boas idéias em relação a como o cientista, uma figura que não aparece nos outros dois (a voz da ciência) se relaciona com e vê os zumbis, que acabam tendo seu comporamento alterado por essa relação.


O público se emocionou de forma tocante com esta cena de singular poesia e sensibilidade, na qual o Capitão Rhodes (Joe Pilato) tem a si apresentada uma nova perspectiva de sua existência.

Queria ficar pra ver mais, mas não aguentava. A sessão de filmes de zumbi corria 24hs, até as 18 de hoje, com a exibição do filme Extermínio de Danny Boyle, aliás ganhador do último Oscar de melhor filme com seu Quem quer ser um milionário?, que ainda não vi. Saímos da sala as oito da manhã, uma sensação estranha sair do cinema, novamente, de manhã, e tomei mais um suco. Olhei pra nova fila que se formava para ver A volta dos mortos vivos – Parte 2 (um filme em nada relacionado com Romero, apenas com o conceito de mortos vivos) e comentei "pô, bem que diminuiu".

Daí percebi que dessa vez a fila descia para a 24 de Maio, fazia a curva lá embaixo e continuava indo pra galeria.

Esse povo não tem o que fazer?

http://www.scene-stealers.com/wp-content/uploads/2008/10/10onst6504.jpg

Foi muito legal, não ia numa sessão de cinema tão legal desde o começo dos anos 90.

Parabéns aos organizadores da virada cultural e aos donos do Cine Dom José, que cederam o espaço para o evento. Aliás andei lendo sobre o Dom José é trata-se de uma sala antiga (com um belo balcão superior, fechado atualmente) fundada no anos 50 sob a alcunha de "Cine Jussara". Parece que foi o primeiro cinema a passar filmes da Nouvelle Vague em São Paulo, justamente trazendo a vanguarda Francesa para São Paulo.

Em matérias on line vi que os próprietarios do cinema consideraram a noite de Sábado um sucesso, e gostariam muito de trazer para a sala novos eventos parecidos. Seria muito proveitoso. A sala é bonita, antiga e lembra a São Paulo de velhos tempos, e ter um cinema voltado para ciclos específicos no centro seria algo muito bem vindo ao mapa da cidade.