terça-feira, 27 de novembro de 2012

Hipster metal



A MALDIÇÃO DO HIPSTER METAL - UM ESTUDO EM PROFUNDIDADE


 Um hipster/deathcore boy com um corte de cabelo horrendo, alargadores igualmente horrendos que mereciam ser pescados com uma vara e puxados, e uma camiseta do Mayhem, posicionando-se de forma irônica, eclética e faceira sobre o gênero mais malvado do metal, o black metal. Tá aí um cidadão que merecia apanhar. Muito. 

Vou começar dizendo um clichê. Jamais imaginei que... Jamais imaginei que o metal extremo fosse virar algo hipster e descoladinho, sinônimo de uma espécie de intelectualidade, com um verniz obscuro e ameaçador. Mas quando as coisas chegam ao ponto do Thurston Moore entrar numa banda de black metal (coisa que ele não faria em 1992 nem sob ordem judicial), dele sequer se interessar por isso, significa que esse dia chegou. O metal extremo está sendo não só aceito, como também admirado, e produzido, por um grupo de posers.

Acabou. Fechem a loja.

Algo tem se abatido sobre o gênero músical número um de gente não sofisticada e ogra, que curte rock.
Finalmente, os hipsters descobriram o heavy metal. E se apossaram dele.

Tentando entender esse fenômeno, escrevi esse LIVRO sobre o assunto. Só entendendo algo em profundidade chegaremos a seu complicamento completo e complexo. E assim me divirto também. Começo procurando contextualizar o que é o que. O texto é longo. Mas e daí? Você está ocupado? Não, você está na INTERNET, e ninguém que está na internet está ocupado. Portanto engula o choro e leia essa porra. Acompanhem-me os fortes.

Façamos então breve definições do que é o metal, e o que é o hipster, para subsequentemente desabrochar esse RELEVANTE debate. 

Heavy metal é sobre cavalgar no cavalo da vida, seguindo, ceifando inimigos e fazendo seu próprio destino, decepando cabeças, conquistando problemas e mulheres (dois elementos que tem muito em comum, aliás). Enfim, o heavy metal é sobre viver e ser, sendo foda.

Hipsterismo é sobre ser descolado, blasê, intelectual e irônico. Entretendo sua turma com comentários e referencias sobre cultura pop. Tendo um visual style.

Estas definições estão breves. Vamos tentar dar profundidade a idéia de o que é um hipster: pessoas envolvidas em atividades culturais de "vanguarda", que procuram aquilo que é novo, e se definem através disso. O hipster também é um provocador, na verdade, um provocateur, já que alguns deles vivem na île-de-france, como veremos abaixo, e um diletante, sempre divertindo-se com aquilo que gosta, ou a o que se dedica, levando a coisa com um ar de ironia.

Essas características implicam na presença de dois elementos: nas manifestações artísticas hipsters há sempre uma procura pelo experimental, pelo exótico, pelo novo. O que é algo positivo, pois pode levar a expansão da arte. Por outro lado, há uma "inconsistencia generalizada", já que muito da produção hipster é baseada em modas, uma conduta temporaria que apenas tráz uma imagem ao grupo. Hipsters gostam que você olhe para eles e pense "Olha só, galera artistê, cheia de artimanhas, lokos! Devem ter uma sensibilidade diferentchi".

Já o heavy metal é um meio reacionário e conservador, onde palavras de ordem e a aliança a tradições tem grande efeito emocional sobre os fãs. Cabeludos tatuados fazem juras de amor a bandas, estilos musicais, modos de se vestir, gêneros, e assim por diante. Mudanças são vistas como perigosas e ameaçadoras. Quando bandas se arriscam e lançam material inesperado, perdem fãs e sofrem retaliação virulenta de seguidores indignados, que se sentem pessoalmente atacados. Vamô pega o Wagnão por que ele colocou bateria eletrônica no Sarcófago. Procurem ele pelo LATTES que lá tem o endereço profissional do cara! VANDALISMO no escritório do professor doutor Lamounier!

Diante dos "headbangers", portanto, os hipsters são verdadeiros inimigos.

Vamos procurar entender como toda essa palhaçada se deu. A história é a mãe de todos entendimentos.

Consultemos essa dama.

Histórico.

Pesquisas genealógicas, geológicas e gastrointestinologicas indicam que tudo se deu quando o rock alternativo/barulhento que hipsters estavam escutando acabou evoluindo, e se ampliando em direções que se sobrepunham a o que o metal estava fazendo, até que esse processo chegou em um ponto em que, de certa forma, ambos os gêneros ficaram indistintos. Como se deu esse processo? Através de diversas TANGENTES. Um dos pioneiros foi o saxofonista John Zorn, que, obcecado com hardcore durante os anos 80, descobriu os britânicos do Napalm Death e, após um show da banda no Japão deu um pedaço de papel com seu telefone para o baterista do Napalm, Mick Harris.

Este ato resultou numa banda que, surgisse hoje em dia, seria quintessencialmente hipster, o Painkiller. Harris na bateria, Zorn no saxofone, um dos baixistas mais profícuos e flexíveis do jazz e do avant-garde, Bill Laswell, e um dos ícones do hipster metal nas guitarras do primeiro disco: Justin Broadrick. 

John Zorn
Painkiller
Por acaso, o Painkiller acabou não durando o suficiente para ser adorado pelas hordas de hipsters atuais (sempre há uma chance para um revival) e a banda acabou, ainda nos anos 90. Um show deles em 2012 seria, certamente, insuportável em termos de público.

Em retrospecto, a banda foi aproveitada e escutada justamente por fãs de som extremo; grindcore da gravadora Earache e alguns fãs de jazz de vanguarda. Influenciado por Napalm e toda a cena hardcore, Zorn fez sua própria banda, o Naked City, e mantém sua associação com músicos do gênero até hoje, tendo gravado discos com Kevin Sharp (Brutal Truth) e Dave Lombardo (Slayer), entre outros.

Outra parte do público que absorvia esse tipo de música durante os anos 90 eram fãs de Mr. Bungle, e devotos de Faith No More/Mike Patton em geral. Mais bandas que flertavam com o barulho e agressividade e/ou usavam referencias metálicas - mas ainda operando no mundo independente - eram Einsturzende Neubauten, Butthole Surfers, Jane's Addiction e os Suiços doYoung Gods.

Já nestes tempos neolíticos, os hipsters que se aproximavam do mundo extremo causavam incomodo. Numa letra perspicaz, o finado filósofo, filólogo, pensador, autor, bon-vivant, músico, agitador cultural, intelectual e fumante de pedra-sabão Seth Putnam fazia uma contendente crítica a esse grupo, de forma muito articulada:

I'm Glad Jazz Faggots Don't Like Us Anymore

we just wanted to sound like shit
but you thought we were avant garde
you thought we went to art school
but we worked at gas stations

you thought we were cool
but you didn't know we hate you
you thought we were cool
fuck off all you fucking faggots

you didn't know we were a bunch of assholes
you thought we were liberal and arty
you tried to act weird and pretend you were violent
when I whipped chairs at you, you can off and cried

Esta letra é do EP "Defenders of Hate" de 2001. Vejam a precocidade visionária de Putnam.

Observando essa trajetória, é possível alegar que a aproximação mais recente de hipsters com o metal extremo se deu através de grupos de "noise rock", tais quais como Lightning Bolt, Arab on Radar e Wolf Eyes. É de se supor que o sucesso destes entre a escória hipster tenha-os levado a investigar outras variedades de som pesado, e isso fatalmente os levou ao metal extremo, um conjunto de gêneros que essas pessoas antes odiavam e ridicularizavam. Sob essa perspectiva o hipster metal é o resultado da ponte entre hipsters que gostavam da no-wave, do noise, do free jazz e do pós-punk, e o metal.


Wolf Eyes mandando um cover do Sarcófago, moçada! Quem poderia esperar?

Durante os anos 90, época negra para o heavy metal, mesmo o Ministry era uma banda não vista puramente como metal, mas sim como uma mistura de experimentalismo de vanguarda eletrônico com industrial, e era amplamente aprovada pelo público indie e criticos de rock Brasileiros índios, como Fábio Massari e a turma do programa Garagem. Outra banda que caia nesta mesma categoria era o Helmet. Mas essas sementes germinantes ainda passam longe do que o hipster metal dos anos 2000 se tornaria. Aparentemente as cenas de indie e art-rock, que eram tão ativas nos anos 80 e 90, morreram, ou tornaram-se significativamente menos interessantes. Quem escuta indie rock hoje em dia, meus amigos, à sério? CADÊ O SEU DEUS AGORA, FÃ DE PIXIES?

Por outro lado os fãs de heavy metal são leais, e o gênero sempre sobreviveu as intempéries, aos altos e baixos dos últimos 40 anos, muito devido ao radicalismo de seus fãs e músicos. O metal tornou-se um monolito eterno no cenário pop-pós-moderno, pronto para ser abraçado por hipsters. Devido a passagem do tempo, entretanto, o ridículo do metal levou uma repaginada, e agora é visto com distancia irônica. Judas Priest não é mais algo engraçado, é uma foto interessante e retrô dos anos oitenta. O metal se tornou "vintage". O que era kitsch se tornou SHARMOSO.


Judas Priest, provalvemente por volta de 1986. Quem me dera ter a HOMBRIDADE de usar um desses coletes.

Diferente do banger dedicado, entretanto, o hipster tem um  certo desapego. Enquanto o fã headbanger declara seu amor e fidelidade ao metal a qualquer custo, e intensamente, o hipster metal está acima destas manifestações emocionais exageradas.

Nos anos 90 o heavy metal atingiu seu ponto mais baixo em termos de credibilidade. O gênero era identificado com estupidez, adolescência, hedonismo e vulgaridade (o que, verdade seja dita, representa muito do que ele é). Como em todas as tribos urbanas adolescentes, trata-se de um meio feito para jovens partilharem de algo, socializarem, encontrarem identidade e entrarem em contato com algumas idéias sobre arte e música. É predominantemente voltado para o prazer, e visto como indicador de uma espécie de sentido de vida devido a profundidade da identificação que o ouvinte tem com a música. "Gentz, gosto tanto disso! Quer saber? Minha vida é o rock".

O público do heavy metal era visto pelos fãs de outros tipos de rock como estúpido, bugre e não-sofisticado. Os gêneros de metal extremo, com letras sobre o capiroto, demônios e fantasias, morte e sangue, encarados como especialmente infantis, escapistas, diante das letras angustiadas e existenciais, irônicas, auto-referentes e pós-modernas, do grunge e do afetado rock alternativo. O vocal gutural, considerado uma patética tentativa de se soar como um monstro de filme de terror.


Watain, uma banda "segura" dentro do Black Metal. Mais do que isso, uma banda que traz uma atmosféra "mística", considerada séria e de alguma forma importante pelos amantes dessa coisa igualmente séria e importante que é a invenção do Chuck Berry o rock, somado a letras ridículas sobre criaturas que não existem, resultando no rock encapetado. 

O rockapeta é algo que realmente precisa ser estudado em profundidade, e vivido intensamente. É aí que entra o Watain. Temos que respeitar essas vítimas do rock and roll. O estilo de vida deles é maior sério, cara. Os caras tem ideologia e lidam com macumba negra. Maior sérião! Se sujar de sangue de porco e fazer barulho ininteligível enquanto se versa sobre criaturas inexistentes é algo que inspira muito respeito, realmente.

Hipsters x Metal. Profundidade e superfície.

Portanto podemos concluir que o heavy metal é um gênero misógeno, estúpido, intoxicado, associado a alcoolização, a alienação (aborda temas imaturos e fantásticos; demônios, ficção científica, letras sobre Tolkien) ao hedonismo superficial e egoísta (mulheres, cerveja, carros). É um gênero machista, tomado por fãs masculinos e de certa forma, militarista. Nenhuma destas características atrai os intelectualizados hipsters.

O distanciamento deve então ser feito em termos líricos e estéticos, e a música, reapropriada e reempacotada.

A nova geração de hipster metal não acontece por acaso. São pessoas que cresceram nos anos 90, escutando as bandas citadas acima e ouvindo, além delas, bandas de indie rock E de metal. Assistindo MTV e ouvindo Nirvana. Esse ecletismo levou a formação de uma geração de músicos de metal muito diferente da geração dos anos 80, os criadores do thrash e do death metal, gente que escutava quase que exclusivamente Judas Priest, Iron Maiden, Sabbath, algumas bandas de rock setentista e um pouco de hardcore (devido a energia e rapidez). Focavam-se intensamente no evento do thrash metal, que surgia com toda força. A geração que precede os protagonistas do hipster metal é obcecada com a adrenalina e os aspectos da força e rapidez do metal, e por isso mesmo essas bandas são tão rígidas em suas composições. O espaço para a experimentação, depois da formatação do thrash metal, é mínimo. Não é a toa que o gênero simplesmente morreu no começo dos anos 90.

O metal extremo também se diferencia por ser um gênero, assim como o avant-garde, de difícil apreciação. Não se trata de música pop que fornece prazer instantâneo, mas sim um grupo de categorias e sub-gêneros que confrontam, agridem, dão tapa na cara, soco na orelha, barrigada na nádega, pescotapa, peteleco no lóbulo, rabo de arraia, soco na tiróide, bisteca no ouvido, joelhada na vértebra, enfim, desafiam o ouvinte. Não é por acaso que muitas bandas de metal extremo escrevem letras que consideram profundas, filosóficas, tentando se referir a temas fundamentais a vida. Mulheres, carros e cerveja estão fora do menu. Se o Motley Crüe escreve sobre mulheres e carros, bandas como Morbid Angel, Death e o hipster metal do Isis abordam desde o profano, o oculto, a morte e o intangível até chegar a questões fundamentais da vida, como viver, o que é questionar a existência e qual significado de toda essa merda para a humanidade.

Por permitir essa "profundidade", o metal extremo irá atrair os hipsters. Que encontrarão "complexidade filosófica" inclusive no satanismo bugre, rasteiro, mongolóide e adolescente de bandas vitimadas pelo estado do bem-estar social como Watain, Mayhem, Burzum e Gorgoroth.

Conforme tenho insistido, quando o rock é suas cenas de cultura jovem são levados a sério, encarados como estilo de vida e algo minimamente relevante para os andamentos da humanidade, fodeu. Temos um eterno adolescente preso em um corpo humano. Coitado do eterno moleque. E o mundo está cheio desses.

Voltemos ao tópico, entretanto.

Acima de tudo, hipsters querem se parecer com algo. A música fica em segundo plano, e se torna muito mais um símbolo, um distintivo.

Procurando uma imagem diferenciada, entretanto, o hipsterismo traz reais mudanças para o metal. "Estranheza" é uma palavra chave aqui. Muitas vezes o quão mais estranho a banda soar, mais interessante ela é, em alguns casos não dependendo muito de qual é a "estranheza" que está se sobrepondo ao metal tradicional.  Alguma estranheza estética também é interessante. Um visual inusitado, óculos-fundo de garrafa, uma tatuagem no pescoço ou coisa do tipo. Mas este é outro assunto. É um povo fenfível; tomam chá verde, comem biscoitos sortidos, fazem origami, bebem caipirinha com adoçante, e meditam muito antes de dormir. 

Por outro lado, outra maneira de se assegurar uma boa impressão é o oposto do "ser estranho", é se prender a estilos, estéticas e gêneros já seguramente aprovados, para usa-los como ponto de partida. Nesse sentido o stoner rock, o sludge, o psicodélico surgem como essenciais.

Hipsters gostam de intelectualizar coisas. O heavy metal, como todo rock, é um gênero agressivo, emocional, passional, pouco dado a análises feitas pelos seus próprios protagonistas. Porém, quando hipsters conseguem analizar e tecer um discurso sobre a agressividade na música - tcha nam! - isso torna o gênero intelectualizado.




Quando uma banda como Liturgy se denomina "black metal transcendental", e o líder da banda escreve um texto semi ou pseudo acadêmico sobre o assunto, o que eles estão fazendo é uma versão intelectualizada do que o metaleiro-padrão faz ao bater cabeça. Ou seja, justificando a coisa, tentando ser inteligente. Afinal, quem quer parecer um imbecil? Não importa muito se você é um, desde que você tenha uma teoria explicando por que o seu rock and roll diabólico na real é uma manifestação de arte cabulosa que deveria estar no MoMa.

As bandas hipsters, afinal de contas, principalmente em seu extremo pretensioso, como no caso de bandas como Sunn OOOOOOO))))) e afins, podem não passar de um heavy metal pro leitor da revista Wire, apesar de sua dita "ousadia" sonora. É necessário ir mais longe, e criar um discurso intelectual para justificar a coisa.

O hipsterismo procura se associar com algo interessante. Os hipsters se aproximam de determinados tipos de música devido ao status que aquilo dá, e a imagem que transmite. Você não precisa "acreditar" na coisa, apenas querer parecer com ela. Em contrapartida os metaleiros, os headbangers, acreditam no heavy metal, e são cheios de palavras de ordem para o meio. Ser um "traidor", deixar de gostar de uma banda, ou mudar do gênero que se gosta, por exemplo, não é algo bem visto. A moçada não está para brincadeira. Use uma camiseta do Venom no lugar errado e se prepare para ouvir FALA O NOME DOS PLAY, BOY! E prepare-se pra perder a peita.

Esse procedimento socializador de matilha, muito vigente até uns 15 anos atrás, parece felizmente ter caído em desuso. Acho que só ocorre em lugares TRUE mesmo. Se bem que outro dia fui num show da banda WARHAMMER e eu era o único usando bermuda, num mar de bangers de preto, mais feios do que banguela gritando gol.  Feias inclusive eram as bangerettes. Me senti oprimido. Tanto por ser o único mostrando as canelas como por estar cercado de quimeras e dragões.

Dissecando o hipsterismo.

Concluímos portanto que hipsters querem aplicar valores externos a música, tentando intelectualiza-la. Desejam que a música seja "importante", significativa. E para isso eles precisam teoriza-la de forma pretensiosa. 

No sentido de nos garantir que ele é  sofisticado, Stephen O'Malley, lider do SUNNNNN OOOOO))))))))))))))) informa seus leitores de que ele mora em Paris (ou melhor que isso, que ele mora na "île-de-France"), o que é muito adequado para quem quer passar a imagem de um artista sofisticado, que se radica na Europa (tem que ser Paris) para flanar, viver e criar.

De certa forma, alguns artistas do hipster metal tentam se projetar como homens renascentistas; O'Malley escreve, é designer/pintor, e, claro, faz música. O mesmo é verdade de Aaron Turner, que fez diversas capas de discos e é dono do selo Hydra Head, famoso por usar a amigavel frase "Don't like it? Don't buy it!" para garantir que percebemos que ele não se importa com o que os outros acham da sua música, pois é um artista irônico, superior e seguro de si. Valores hipsters.

Curiosamente, antes do advento do hipster metal, muitas bandas já abordavam assuntos "inteligentes" em suas letras. Eram, e são ainda, exceção no meio, mas existiam. Algumas bandas que abordaram temas filosóficos, políticos  sociais e até mesmo existenciais foram o Death (a partir do album Human), Carcass, Cynic, Gorguts, Enslaved e Ministry. Essas bandas, e muitas outras, também procuraram experimentar com seu som, expandindo os limites dos gêneros nos quais operam. Porém, tudo foi feito sem a afetação intelectual, o pedantismo, a ironia e o distanciamento estético que as bandas de hipster metal usam para se situar como jovens gênios e artísticos  Elas ainda trabalharam dentro do heavy metal, muitas vezes exibindo com orgulho juvenil sua ligação com o gênero (o Death era famoso por usar constantemente a frase Let the metal flow em seus comunicados com fãs).

Durante os malogrados anos 90 o heavy metal, e especialmente o metal extremo, passou por um momento muito interessante. As bandas subentendiam que não deveriam se repetir, e houve uma saudável disputa para que cada álbum lançado fosse bastante diferente do precedente. Isso é notável em diversas bandas, das mais famosas, que lidavam com os limites do thrash que elas mesmas tinham inventado (Metallica, Megadeth, Anthrax e Slayer com Black Album, Countdown to Extinction, Sounds of White Noise e Diabolus in Musica, respectivamente) ao underground extremo, onde bandas como Kreator (uma banda do segungo escalão thrash) Entombed, Death, Cynic, Morgoth, Gorguts, Carcass, Napalm Death, Godflesh, Morbid Angel e outras ampliaram seu som, lançando álbuns extremamente distintos, flertando com gêneros como o gótico, o industial e o "death and roll", dentre outros.








 

Evidentemente, estes experimentos não foram todos bem sucedidos. Seria difícil dizer que Same Difference, do Entombed é um bom álbum. Trata-se de um disco sofrível, perdido, sem saber onde ir após o grunge e o new metal. Porém, discos muito ricos e muito criativos foram feitos, já que as bandas realmente procuravam deliberadamente expandir seu som.

Agora passamos por uma época de segmentação absoluta. Gêneros e subgêneros já estão solidificados e cimentados dentro do underground. A ideia é segui-los de forma diligente. A exceção criativa vem dentro da fórmula hipster. Paradoxalmente, conforme citado, ficar repetindo-se dentro de um gênero aceito, previsível, seguro, que transmita a imagem correta, também é um valor hipster. Daí o sucesso das bandas de revival, que são vistas como mantenedoras de valores, e recicladoras de uma estética que com o tempo se tornou um must, chique e dentro do que é aceito nos meios cool e kvlt.

Um bom exemplo deste processo é a banda norte-americana Black Breath. Tocando um eficiente, divertido e bem-feito death metal, eles se moldam nota-a-nota no som Sueco inventado por Entombed, Dismember e afins. Não há espaço para criatividade, apenas para a repetição da fetichização estética. O estilo está acima da qualidade da música, e a banda se concentra em alguns aspectos que já foram sedimentadas pelos criadores originais do som, e pela passagem do tempo. Passagem que deu a todo movimento de death metal Sueco um verniz de credibilidade vintage, além de charme.

Black Breath
O Black Breath irá sempre lançar discos de death metal Sueco relativamente medíocres. Talvez sejam aqui e alí um pouco melhores, um pouco piores, mas a certeza é de que a banda sempre fará a mesma coisa. É uma banda que jamais irá se arriscar. Jamais lançara um Same Difference, pois já nasceu para preencher um nicho estilístico.

Colocado dentro do sistema de "revivals", o thrash metal, e outras variações oitentistas do metal pesado como speed e o citado death metal funcionam estritamente como repetições do passado. Nada mais pode, ou deve, ser criado dentro de suas fronteiras. De vanguardas do som extremo, em constante mutação ao longo das décadas de 80 e 90, época em que as bandas se esforçavam para mudar o som de um disco para o outro, agora as bandas operam exclusivamente dentro de conceitos já bem-formatados, que devem ser obedecidos à risca, cumprindo assim uma série de preceitos. As referencias retroativas e a busca por "inspiração" no passado apenas repetem o que foi feito, e não usam mais, como faziam as bandas originais, a música como ponto de partida para criação. O que importa é fazer a repetição

As bandas de neo-thrash observam de forma vigilante os limites que impõe para si mesmas, impedindo-se de realizar qualquer progressão musical. A tentativa é de se entrar numa cápsula do tempo e repetir-se uma época. Há um processo de nostalgia, feito por pessoas que sequer viveram a época da qual sentem saudade, época que procuram recriar em suas músicas, vestimentas e eventos socializadores - os shows.

Assim opera o hipsterismo. A fetichização estilística  seja dentro dos revivals - a repetição retroativa - seja no que diz respeito a suposta inovação, permeia tudo. Essa fetichização coloca-se acima do resultado na música, na criatividade, na execução. Dentro do hipster, a criação artística é um desfile de moda, onde imagem é tudo, e ela serve ao conteúdo, e não o contrário.

"Eu sou metal, sou obscuro, mas ao mesmo tempo sou artistê, tenho uma sensibilidade obscura, sou surreal e ligado a coisas alquímicas e transcendentais e mutcholokas. Estou ligado nessa onda de representar o mundo através de símbolos primitivos. Alguém me segura, que tô impossível". Esse é o objetivo de uma boa parcela do hipster metal.

Muito deste fenômeno se deve ao efeito Isis. Isis e Sunn são duas bandas que trouxeram muitos hipsters para o heavy metal. E junto deles a ideia de metal extremo como vanguarda artística.

Oh deus. E eu que tinha escolhido usar camiseta de caveira justamente para me opor isso.

Rock, algo essencialmente imbecil e anti-intelectual, criado pela indústria musical para vender discos e roupas para jovens, agora é alçado a condição de significado da vida e canal transcendental de comunicação com questões centrais a alma humana. É meio demais isso. Onde que Watain é mais profundo do que Elvis Presley cantando "Blue suede shoes"?

Pois é, migos, não é.

Sunn O. Grandes pioneiros na ideia de se fundir vagos elementos de música de vanguarda com elementos do metal extremo, agregando assim muitos asseclas do "designer metal"; webmasters, webmakers a operadores de photoshop, gente que entende de CSS, html, java e corel draw, e que compõe grande parte de seu público. O hipster metal consegue fazer a velha equação de colocar estilo sobre substância, fingindo indicar substância.

 Os robes estão aí para fazer você acreditar que eles tem uma dimensão espiritual profunda e mística, uma relação com o ALÉM, atingida através de sua música transcendental. Pra mim eles parecem mais com atores da "Noite do Terror" do Playcenter, passistas da escola de samba da vila Dalva, ou extras de algum quadro sobre macumbeiros da Vila dos Remédios, no Trapalhões. Ao ver essa foto, fico esperando aparecer o sargento Pincel pra dar um cacete nos dois. 

Onde será que eles conseguiram essas vestes místicas? Em um ritual de magia profunda? Terão estes vestes profanas lhes sido fornecida por Shub-Niggurath num ritual macabro? Ou foi a tia Elisângela que costurou?



 Tia Elisângela, que entende de rock pretenso e tem máquina de costurar.

Me lembro nitidamente de um show do Isis em 2006, em Londres, de testemunhar um jovem incauto e pueril, ao meu lado, com os olhos fechados, "sentindo" a música profundamente. Música essa que provavelmente estava entrando em seu corpo pelo seu intestino dengoso. Este tipo de "apreciação" pedante é profundamente irritante. Senti que deveria ter dado um ROBUSTO SOCO na nuca do rapaz, para fazer ele entrar em contato com algum aspecto da realidade. Mas, benevolente, me privei de lhe fornecer esse toque. Outro imberbe que já li comentando o Isis dizia ao vocalista: "obrigado pela sua música, ela me faz me sentir mais humano". Algo completamente deslumbrado e ridículo em diversos níveis e camadas de compreensão. Uma coisa emo-intelectual. Completamente nojento e indutor ao vômito.

Agora com essas provas empíricas e coleta de dados científica, fica bastante claro que há algo de podre nessas bandas. Por que? Por que apesar de quaisquer argumentos fica patente que elas atraem gente cretina, pretensiosa e pedante com sua sensibilidade afetada e imbecil. Não se trata de um mero acaso.

Acasos não existem, meus amigos. Existem apenas FATOS. E contra fatos não há argumentos.

Essas mesmas pessoas parecem adorar toda e qualquer gravação feita por Stephen O'Malley, ou lançada pela gravadora Southern Lord, dois grandes baluartes e centros de produção de hipster metal.

Pessoalmente, nada tenho contra esses selos, ou as pessoas por trás deles.

Porém, fatos são fatos - e eles são muito mais calcados na imagem, na mística, e no status cult, definidos pela estetização e estilização que são elevadas acima de conteúdo, coerência temática, ou qualquer significado - do que são na música. A "música" do Sunn - não vou ficar escrevendo aqueles ridículos parenteses depois do O - importa muito menos do que seus encartes gatefold, o valor teatral das suas roupas ou a mística alcançada por estes elementos somados a ideia da banda como um experimento de ondas sonoras, o que por si só já soa como um conceito inteligente a ser cultuado por um nicho seleto de pessoas. Amantes de arte de vanguarda que entendem de pesquisa sonora e são (supostamente) humanos particularmente criativos, inventivos e visionários. Sunn O também é status!

Nem todo hipster metal está ligado a conceitos herméticos. Mas ele sempre está ligado a uma estetização e uma estilização acima de tudo. Estas são as palavras-chave. Trata-se de um pretensioso desfile de moda pseudo-intelectual e cerebral, somada a uma atitude anti-status quo que parece proibida, subterrânea e perigosa.

Grupos jovens agem excluindo-se da sociedade, para que possam estabelecer uma identidade em relação a aquilo que excluem. E o hipster metal excluí-se colocando-se acima dos outros.

Neste meio existem 3 processos que ocorrem, em maior ou menor grau, com todas as bandas e aspectos artísticos delas.

1. Ha uma tentativa de se intelectualizar o heavy metal, através de algum tipo de discurso ou contextualização que justifca o hipster-gênio em questão ter se associado ao gênero.

2. Há uma obsessiva tentativa de se estetizar a música, criando-se um posicionamento poético e "profundo" baseado no "estilo" do músico. Esse "estilo" é composto de roupas, maneirismos, direção de arte da banda, capas iradinhas, tatuagens, e assim por diante.

3. São feitas referencias retroativas ao próprio gênero heavy metal, com pinçamento de elementos que envelheceram de forma a serem apreciados em um novo contexto. Uma coisa meio Tarantino.

Algumas vezes (mas nem sempre) o terceiro elemento se dá como reapropriação irônica. O ridículo do elemento já foi dissolvido no caldeirão inafetado dos hipsters, e a imagem em questão atinge uma condição "cult", sendo utilizada então de forma aceitável. Um bom exemplo disso é a banda Goblin Cock. O metal visto com ironia:







O Cult of Luna, uma das maiores bandas Europeias de hipster metal. Passar uma imagem sofisticada é necessário para ser levado a sério como um músico vanguardista, que está fazendo algo de real e profundo significado para a humanidade. Cabelos compridos, jaquetas de couro e jeans são deixados de lado em troca de roupas sérias, que caibam na imagem de artistas jovens e ousados. Vejam aquele de coletinho no fundo. Poderiam ser poetas, escritores, pintores ou compositores de música concreta. 

Mas não, trata-se de uma banda de metal extremo. 

Notem o descalço. Pronto pra levar reguada na sola do pé.

O hipster metal procura por alto intangível, profundo, habitante do abismo da alma humana, abstrato e surreal, e por isso mesmo incrivelmente vago e indefinido. Dessa forma, as referencias a o que é discutido podem ser superficiais e genéricas, desde que sejam evocativas e poéticas. As variações sonoras trazidas são calcadas em estruturas musicais mais "complexas" do que as do metal tradicional; no shoegaze, na tentativa de se atingir uma atmosfera intrincada e meditativa, ou nos poliritmos do math rock, entre outros. Elas não criam uma nova maneira de se compor, como fez o death e o black metal. Maneiras que efetivamente levaram a novos gêneros.

Mesmo por que isso é difícil pra caralho de se fazer.

Em sua obsessão estética, o hipster metal cria, de maneira geral, uma variação tangencial com elementos que se emparelham e não se fundem, uma variação dos estilos de rock cujas características superficiais usa para angariar os elementos estilizadores que quer transmitir.

É curioso acreditarem que algum aspecto profundo da filosofia humana está sendo explorado dessa forma, e que qualquer descoberta feita dentro disso vá alterar de alguma forma alguma visão da humanidade sobre si mesma - se é que eles realmente se pretendem a isso. Estas ousadas possibilidades devem ser levadas em conta já que, como, veremos abaixo, parece que alguns pretendem. A realidade, entretanto, demonstra que o resultado prático de todo esse circo continua sendo predominantemente o escapismo juvenil, e afirmação visual. Tratam-se de desenvolvimentos do heavy metal que são profundamente auto-conscientes de seus papéis dentro das castas do deste universo, enquanto que as bandas dos anos 70, 80 e 90 eram construídas de forma muito mais espontânea, inconsciente, experimental, desprovida de regras e livre.

Reis, deuses e imperadores do hipster metal, no caso no  sub-nicho caracterizado como "post-metal", o Isis encarna a ideia da procura desesperada para se intelectualizar o rock pesado. A foto em sépia, o olhar lacônico e distante de seus membros, a luz poética entrando pela janela, as roupas casuais e sóbrias, o posicionamento indiferente e plácido. Tudo nos comunica que eles são artistas profundos, preocupados com questões pertinentes ao âmago humano. Notem pela parede que carece de um reboco que eles estão em algum ambiente boêmio e artístico. Pegar pincel e limpar a casa ninguém quer, não é? Passam o dia no photoshop, fazendo encarte com papel brilhante. Depois não sabem por que faliram.

A banda chegou ao ponto de dizer que seu último disco tem letras inspiradas em conceitos de Carl Jung, fez um disco inspirado em Foucault e cita em seu encarte Alex Steffan. Estes são discutidos na profunda plataforma de letras de rock, onde podem, suponho, tomar forma mais complexa. 

Vai ser difícil bater esses reis, esses campeões, esses verdadeiros dínamos da pretensão absurda dentro do metal pedante e pernóstico. A coisa aqui atinge níveis estratosféricos. 

Pra que almejar pouco se você pode ir longe, não é mesmo? Em termos práticos, no mundo real, o resultado é um metal que quer ser o Neurosis, só que mais repetitivo e consequentemente chato depois de uns seis minutos.


Pierre Henry, um dos fundadores da musique concrete. Um verdadeiro músico de vanguarda, Henry vem da tradição da preocupação com a música em si, e não com uma obsessão estética ou com o estilo de vida colocado ao redor dela. Fora do pacote da cultura jovem, sua arte não se utiliza de golpes como roupas curiosas, robes, camisetas com logotipos corretos e afins para se validar. Na foto ele usa uma imponente blusa vermelha, vejam só. Seus discos também não tentam compensar a ausência de uma criação musical mais profunda com capas de arte bela ou encartes com letras prateadas. No caso de Henry o trabalho artístico é realmente maduro e de vanguarda, todo resto é periférico, e não há necessidade de distrair ou enganar o ouvinte com pirotecnias estilísticas.



Karlheinz Stockhausen. Assim como Henry, um verdadeiro pesquisador musical, distante de poses e afetações preocupadas com as castas dentro de movimentos juvenis. Sua obra, baseada em estudos sérios e maduros feitos com o som, independe dos vernizes e adereços maneiristas e estetizados das pseudo vanguardas sonoras hipsters, elementos que na verdade são o cerne do hipster metal e sem os quais a música, superficial, não se sustenta.

Univers Zero. Uma banda verdadeiramente experimental, criativa, vanguardista e revolucionária, utilizando-se do formato do rock para fazer música meditativa e evocativa, realmente transcendental. Bandas como Sunn O, Isis e outros baluartes do hipster metal "forma-sobre-conteúdo" jamais conseguirão atingir esse nível de criatividade e sofisticação em suas pretensas aventuras musicais, onde vinil colorido e encartes luminosos se sobrepõe a qualquer conquista feita pela sua música. 

A faixa acima, Jack The Ripper, é mais obscura, negra, pesada, brutal e densa do que qualquer metal jamais criado. De 1979.



Se o Sunn O fizesse música para adultos, talvez conseguissem fazer o que Jan Garbarek e Terje Rypdal fazem na faixa acima, que efetivamente cria uma ambiência soturna. Gravado em 1971.

Terje Rypdal. Sem robes. Sem tatuagens estilosas. Sem pose. Sem afetação. A música fala por si.

Os Franceses progessivos do Shub-Niggurath. Som cadavérico e necropútrido, feito por adultos, e não posers pseudo-intelectuais de cena rockista teen. O nível de sofisticação musical e criação dentro de uma perspectiva sombria, experimental e obscura aqui é outro. Em particular é efetiva a transição do canto profano entre 2.30m e 2.50m. Simplesmente sensacional.

Quando o hispter acerta - as boas bandas de hipster metal.

Por ESSA VOCÊS NÃO ESPERAVAM!

Mudando meu viés crítico e impiedoso, sendo benevolente e generoso, vejo o que de bom o hipsterismo trouxe ao metal. Vamos agora ver o lado bom de tudo isso. 

Deve ser destacado que, apesar de minhas incisivas críticas, muitas das bandas do hipster metal são excelentes. Por exemplo, um dos melhores lugares para se encontrar novas bandas no metal extremo atual é o tumblr http://fuckyeahhipsterblackmetal.tumblr.com

Agora pensemos: por que diante de um ambiente tão cheio de afetação e falsidade, a qualidade também emerge? Existem algumas razões. Muitas dessas bandas querem justamente romper conceitos e padrões dentro das propostas musicais do heavy metal. A disposição para ser criativo está lá, isso é importante e levará a, ao menos, algum tipo de tentativa de criatividade. E é através de tentativas que algo melhora. Mastodon, Kylesa, Liturgy, Baroness e até mesmo o poseríssimo e asqueroso Cult of Luna entre outras bandas de metal introspectivo, "inteligente" e cabeçudo fizeram grandes, excelentes músicas, e ótimos discos. Levaram o rock pesado para frente. Tiveram a coragem e a visão de combinar diferentes elementos, de pós-punk, rock psicodélico, o progressivo, o stoner, death metal e hardcore em sua música. 

Tradicionalmente o metal e seus gêneros são tomados por conservadorismo musical/estético. O hipsterismo abriu os portões para que elementos que são bem-vistos por um grupo de pessoas pudessem se combinar. Como esta ideia abre diversas possibilidades, fica evidente que a fusão pode ser feliz.

Gosto em particular do Mastodon. Outra boa banda é o Kylesa. Como não admirar uma banda com Laura Pleasants, jovem que usa camisetas do Joy Division, G-Anx (sim, G-Anx, banda obscura de grind experimental Suéco) Amebix, Bolt Thrower, Black Flag e outros? 



A banda Kylesa tem características que a colocam firmemente no cenário hipster metal. Seguindo a linha do som feito por bandas como Mastodon e Baroness, o Kylesa se utiliza de riffs de stoner rock, sludge e doom, passagens intricadas, guitarras dissonantes, alguns momentos progressivos, somados a alternância entre vocais limpos e gritados. Todas características colocadas em alta conta pelas bandas de hipsters, transmitindo muito estilo, utilização adequada de referencias e influências, e a atitude correta. Barbas e um visual de classe trabalhadora descolado completam o pacote.

 O Kylesa, entretando, consegue excelentes resultados. Sua música leva o heavy metal para frente, e contribui para o gênero com composições criativas, que expandem o novo metal progressivo liderado por eles, Mastodon e Baroness. Estas três bandas, inseridas no contexto hipster, conseguem focar-se na música, e leva-la a outro nível, trazendo composições e referencias extremamente criativas no seu trabalho. Nestes casos a preocupação com a expansão musical deu resultados muito frutíferos. Nem tudo é um vale de lágrimas no mundo hipster. A qualidade emerge!

A formatação no hipster metal, assim como no heavy metal tradicional, é incrivelmente forte. O que pode e não pode ser feito esteticamente é fortemente patrulhado (e isso inclui maneiras de se compor, já que existem sons estilisticamente aprovados e sons condenados, vide as características do new-metal, absolutamente inaceitáveis em uma banda de hipster metal, que rejeita toda idéia de "groove" em suas composições). Conforme dito, o heavy metal é característico por cobrar "fidelidade" aos conceitos que cria. A penalidade a quebra destas regras é o banimento. Wimps and posers, leave the hall! Já dizia o Manowar. Daí a idéia de se prender a determinados valores, riffs, tipos de composição, vestimentas e tipos de arte. Este posicionamento permeia, claro, o hipster metal, mas atinge seu ápice, provavelmente, nas bandas de Black Metal, que devem ser sempre "Trve" e "Kvlt".

GRANDE Cazuza já era hipster muito antes de você. Quero ver todo mundo com banda de post-metal da nossa terra tropical/tupinambá/Guaraní-Kaiowa fazendo cover de Barão.

No hipster metal e suas variantes as artes das bandas incluem referencias a abstração, fractais, vanguardas artísticas pós-modernas ou elementos de belas artes e arte bem-acabada, como do art-noveau. Eles são finos, bem educados, e jamais tolerariam capas com mutantes de histórias em quadrinhos ou horror B. Este tipo de arte, direta e espontânea, foi o que acompanhou as bandas originais de heavy e thrash metal. Hoje aparecem apenas em discos de revival ou pastiches repetitivos destes mesmos gêneros, onde a criação cessou por absoluto. Como a espontaneidade deste tipo de expressão não é levada mais à sério, seu exercício se da dentro de um gueto. O thrash metal se tornou um rockabilly; uma subcultura que apenas repete um período muito curto e específico de tempo.

Capa do disco do Morbid Saint, de 1988, onde o horror mal-executado era utilizado para enojar e assustar. Hoje esta arte é vista como kitsch, e é valorizada em um contexto retroativo, no qual seu impacto não é mais de repugnância e medo, mas de objeto histórico, caricato, retrato de um subgrupo.


O mesmo tipo de arte utilizada já nos anos 2000, dentro de uma estética de revival, com conhecimento dos limites desta arte e de seu impacto caricato,

 A mesma tentativa de choque e repulsa procurada pelas bandas de heavy metal dos anos 80 e 90 no traço do artista ultra-cult Justin Bartlett, não por acaso também conhecido pela adequada alcunha de "Vberkvlt". Na imagem, a procura pelo choque se da pela combinação de imagens monstruosas com animais peçonhentos, repulsivos ou conectados ao blasfemo e a magia, indicada por simbolismos profanos. Tudo feito em um traço detalhado, mas que ao mesmo tempo remete a uma certa primitividade infantil, o que aumenta a carga de choque das imagens. A arte aqui se diferencia do horror mal-desenhado e imaturo das artes anteriores por se prestar a parecer uma mistura de alta arte com símbolos realmente ligados a o que poderia ser algum estudo real do oculto, remetendo a arte medieval, arte alquímica, grimoarios satânicos, etc. 

Ou seja não estamos mais falando de caveiras rabiscadas em cadernos, mas possivelmente uma arte conectada ao VERDADEIRO  lado negro do inconsciente coletivo, em uma referencia profana, antiga e quem sabe "estudada" de relações com o próprio capiroto!


"Nephicide" da banda Jogger. Aqui a estética black metal é citada em termos de pastiche, paródia, ironia e possível memória nostalgica.


Uma das melhores bandas de hipster metal, o Baroness, utiliza-se de refinada arte em suas capas, com o intuito qualificar sua música com um brilho de legitimidade e de qualidade. A música mistura elementos agressivos com melodias progressivas.


A banda Mastodon utiliza-se de elementos progressivos em sua música, ousando com álbuns temáticos e letras abstratas e espirituais. Suas capas sempre contém arte intrincada e "inteligente", com referencias e apropriações de arte de qualidade. Há uma profusão de referencias a art-noveau nos discos de hipster metal. Alphonse Mucha rola na tumba em velocidade de blast-beat.

Muito da estetização hipster atinge um novo sub-nicho nas bandas de stoner e doom metal. Um modismo intenso tem surgido dentro deste gênero, estritamente retroativo, com grande apelo e aceitação nas cenas Europeias  particularmente na Inglaterra. A cena que apoia este revival tem um fascínio com a estética setentista, e por consequência com o uso contínuo, degradante e desregrado de drogas.O que tem de junkie idiota nessa cena não está escrito. O glamour de ser um imbecil bêbado, cheirador e tomador de qualquer substancia sintetizada num porão que um traficante jogue na sua mão está de volta. Espero que as SAUDOSAS overdoses que dominaram os anos 70 também voltem para fazer uma limpa nesse povo que se orgulha de ser podre. Os elementos tirados dos anos 70 tem forte apelo, ancorando-se em uma suposta fidelidade "orgânica" que se pretende intensa e profunda.

Contraditoriamente, o que essas bandas fazem é a procura de algo humano e analógico dentro do meio de cultura de massa ultra-reproduzido, que é o universo do rock. A aceleração da disseminação de informação pela internet ajuda na padronização destes estilos, e leva a uma rápida absorção dos adereços, fontes, tipos de arte, cortes de cabelo, roupas e posicionamentos divulgados pelos profetas dos sub-gêneros. O acesso, antes limitado por fotos em livros, discos, revistas e material de divulgação hoje  é amplamente suprido digitalmente; e de graça. A possibilidade para apropriação e cópia é enorme. Nova razão para a originalidade ir pro ralo.


Electric Wizard. Uma das maiores - e melhores - bandas de stoner metal. Notem o cachecol de seda do vocalista Jus Oborn, fundador da banda. O adereço reafirma a referencia retrô aos anos 70, assim como traz a ele um aspecto artístico e "sofisticado", opondo-se aos simplistas uniformes de jeans rasgados e jaquetas de motoqueiros utilizadas no metal oitentista.



Candlemass, inventores do stoner/doom metal praticado pelo Electric Wizard, em imagem registrada durante os anos 80. Notório é o uniforme tipicamente "heavy metal" utilizado pelos membros da banda, sem intenções intelectuais. Roupas de classe trabalhadora que transmitem a ideia de ausência de intelectualidade, diplomas, leituras ou qualquer inclinação neste sentido. Notem as jubas em profusão, livres e selvagens.


Aaron Turner, da banda Isis, dono do selo Hydrahead. Um dos maiores lordes e autoridades do planeta hipster metal, Turner encarna todas as características do meio: "atitude" descolada e não-afetada, indiferente, mas ao mesmo tempo levemente arrogante. Ar sério, de artista compenetrado, barba que lhe confere tentativa de passar autenticidade, e ao mesmo tempo, semblante de artista excêntrico. Tatuagens com formas geométricas, camiseta com arte naif. Na desesperada e incessante procura por credibilidade e demonstração de maturidade artistica, Turner cita frequentemente em seu blog playlists e "reading lists" de artistas de vanguarda; o quão mais modernos, novos e variados, melhor. Nomes como Kathy Acker, Alleypisser e Mario Diaz de Leon são trazidos incessantemente, definidos por Turner de forma descolada como seu "intake", ou "suprimentos vitais", enfim, uma espécie de "dieta mental" com a qual ele, profundo artista, está se nutrindo em um estado de êxtase e contemplação criativa. 

Modelando a si como personalidade e celebridade, suas bandas e principalmente a direção de arte de seu selo num todo que o torna um verdadeiro super-ícone hipster, Turner é adorado, seguido e obedecido, visto como um deus pelos devotos do hipster metal. 

Só que a Hyrdrahead faliu. Hihihi. Coitado. Maldade.

A arte de Turner, pós-moderna em todos seus aspectos, procura contrariar a arte chocante e infantil de monstros, criaturas e cenários fantásticos, padrão do heavy metal. As imagens são abstratas, sugestivas e surreais, tudo com o objetivo de dar a entender que o artista se refere a algo profundo, complexo, misterioso e relacionado ao âmago das experiencias e percepções humanas. Quanto mistério!

Em seu blog, Turner prova que é um ser humano sofisticado e sensível. Tal qual um ser feito de luz, poeta do sentimento, artista da alma, andarilho da emossaum, ser silente, ele relata de forma anedotal suas aventuras pelo mundo como poeta da vida.

De seu blog:


"Parede de madeira perto de uma construção em Munique, Alemanha. Novamente eu estava procurando um lugar agradável para andar e respirar, longe do ambiente dos clubes. Eu andei por um bom tempo pela cidade, passei por algum tipo de feira gigantesca, comi um bom jantar Tailandês sozinho, voltei para o centro da cidade antes de ter que me virar, e consegui pegar essa parede conforme o sol se punha e a luz era dourada."

Um passeio para esse homem não é uma mera caminhada, como para nós mortais. Não, ele é mais do que isso. Ele é um flâneur. Uma caminhada para esse homem renascentista é uma experiência poética, sublime, na qual ele se nutre de comida oriental, e, sensível que é, tem uma epifania ao encontrar um pôr-do-sol dourado refletindo na textura evocativa de uma parede de madeira. Detalhes de uma beleza prosaica e cotidiana, que escapariam ao coração de um observador menos bem-acabado. Apenas um verdadeiro artista tem essa sensibilidade.

Nos anos 80 e 90 o punk e o heavy metal declaravam ser gêneros bastardos com orgulho. Lemmy e o Motorhead sempre cercado de cervejas e histórias de excessos. Kiss e a saga de Gene Simmons e Paul Stanley com centenas (milhares?) de mulheres. Metallica se auto-intitulando Alcoholica, as bandas punks proclamando anarquia, hedonismo e niilismo.

Como se pode ver, os caras acima não são exatamente intelectuais. Só que eles ajudaram a inventar todo um gênero musical, o thrash metal. O Isis ajudou a inventar gente pedante de olho fechado em show. Cada um deixa no mundo o legado que pode.

O hipster metal, ou designer metal, é obcecado com "street-cred". Enquanto o heavy metal nasceu e se desenvolveu como gênero feito por e para desajustados, nerds, feios e ignorados, o heavy metal pseudo-intelectual eleva estilo acima de tudo, e tráz o cool (kvlt) a um meio que era determinado por ser o lugar dos ostracisados. A procura desesperada do hipster metal é por atingir algum tipo de profundidade humana através do rock pesado.

Tudo dentro do designer metal é um pouco pseudo-poético, irônico, laconico e ao mesmo tempo intelectual, misterioso, vanguardista e simbólico. Nada é apenas a música. Trata-se de um pacote completo, de significados pantanosos, que remetem ao âmago humano.

Reis do hipster black metal, o "Wolves in the Throne Room". Letras sobre a conexão do homem com a natureza, vida ligada a agricultura orgânica, fotos situando os membros como pessoas de uma origem folk-grass roots, som com elementos "ambientes" e "atmosfericos", considerações sobre sua música ser "meditativa" e a citação de bandas de kraut-rock como influência garantem a estética intelectualizada e complexa, supostamente compondo uma espécie de refinada aura, que a banda quer transmitir. 

O que deve ter de filho da puta ouvindo essa banda no apartamento a luz de vela, "meditando", não está escrito. Depois a mãe bate na porta e manda o moleque ir jantar logo e estraga todo climão dark. Nos shows eles exigem que "não sejam tiradas fotos com flash", para que eles fiquem na penumbra hipster. Vontade de virar uma porra de um holofote, ligar um strobo eterno tocando "it´s raining men" na cara desses black metal pseudo-caipiras/Al Gore.


Rob Halford do Judas Priest, uma das bandas que formatou o gênero heavy metal. Durante os anos 90, quando teve a banda eletrônica Two, Halford, vivendo dentro do "Zeitgeist" que não suportava o ridículo do heavy metal, declarou o gênero como morto. 

Tempos depois, quando o heavy metal tradicional foi revitalizado por seu valor kitsch, e passou a ser visto como expressão legítima de um ímpeto épico, adquirindo um distanciamento "vintage", Halford reconciliou-se com o subgrupo, ligando-se novamente a sua herança, e retomou sua atividade como vocalista de rock pesado.

  A marca de roupas Weird Clothing representa, e atinge, um dos auges do conceito de hipster metal. Utilizando-se de elementos que transmitem uma idéia de estilo de vida que é (começam os adjetivos)  descolado, inafetado, alternativo, artistico, boêmio, iconoclasta, desafiador, intoxicado, irreverente, sardônico e, claro, atento ao mundo extremo, a marca é o uniforme dos hipsters alternativos Brasileiros. 

A utilização de imagens anti-cristãs e de serial killers, misturadas a simbolismos grotescos dão a tônica, tudo feito dentro do universo do fashion e da moda, algo que jamais seria imaginado por headbangers de jaqueta de napa com arrebite colado com bonder e tênis vagabundo Pony dos anos 80. Os artistas ligados a Weird são talentosos, vanguardistas, pertencem ao mundo do surf, das tatuagens e da arte polêmica. É tudo muito luxo pra alguém como eu, que comprava fita podre gravada do Death em 1991 do QUINHA, na Tok e Entre, antes dele passar um período de férias forçadas. Saudosa Tok e Entre, aliás.



Os verdadeiros fãs de heavy metal, no documentario "Heavy Metal Parking Lot", de 1986. Muito longe do estilo e atitude fashions da Weird, usando camisetas da Budweiser ou com os profundos dizeres "Fuck Off".


Conclusões.

O hipster metal procura criar o novo dentro do heavy metal. Porém,  exceção feita a bandas como Kylesa e Mastodon, entre poucas outras, o faz através de valores estéticos e pouca (ou pseudo) pesquisa musical. A atitude, a estetização e a implicação de uma espécie de posicionamento ideológico e estético que pareça ser de alguma forma poético, vanguardista e profundo se sobrepõe a música. A arte funciona como um canal para a manifestação da imagem que o artista quer passar sobre si, seu estilo de vida e inclinações artisticas, e não para o desenvolvimento do trabalho final.

Romper os limites das possibilidades de criação feita com guitarra - contrabaixo - vocais e bateria se torna cada vez mais difícil, já que todo tipo de experimento já foi feito dentro deste formato. O hipster metal substitui a criação com sugestões vagas de vanguardismo (utilizando de se termos e idéias como drone, ambient, atmosferico, meditativo, sugestivo, asbtrato, etéreo, textural), direção de arte sofisticada em seus álbuns, verbalização conceitual elaborada e a utilização de muitos posicionamentos, declarações e imagens superficialmente filosóficas de seus membros.

Nos anos 80 tinhamos no palco junkies bêbados e semi-analfabetos, vociferando clichês de esquerda e/ou baboseiras sobre sangue e gore anti-sistema. No público? Crianças advindas de lares disfuncionais, se empurrando e se batendo, em rodas de pancada. Suas maiores aspirações eram encher a cara o máximo possível após o evento de socialização uga-buga subcultural.

Hoje em dia temos pretensos pseudo-intelectuais de óculos, tocando riffs dissonantes e cantando letras abstratas sobre Jung e Foucault, ou tocando uma nota com suas guitarras e seus backlines de 30 amplificadores Orange, deixando essa merda soar por meia hora enquanto usam roupão aveludado. No público? Membros da classe média deslumbrados, designers, webmakers (todos tem um "projeto" ou "uma banda" ou estão fazendo "um curta"), artistas de TRÊS DÊ, twittando loucamente, gravando tudo com seus iPhones, usando calça mais justa que a misericórdia divina e posando de forma insana com cortes de cabelo constrangedores.

Se empurrando e se batendo.

Ao menos isso ainda é constante.

E assim caminha a humanidade. Chega. Próximo tópico!


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Death Fan Club


Na metade dos anos 90,  94, acho, comecei a escrever para a banda Death. Não tinha acesso a internet, seu uso não era lugar comum, como todos aí sabem. A paisagem online ainda era dominada por BBSs e conexões discadas. Portanto, enviei uma carta para eles na Flórida, explicando minha apreciação da banda, e rapidamente fui aceito no seu fã-clube.

O presidente era um tal de "Dan Robinson", pessoa que, depois me informou a internet, era o próprio Chuck. Como dizia o editorial do primeiro número do Zine deles, o "Metal Crusade":

ALL letters are passed onto Chuck Schuldiner, who spends time each week reading Fan Mail. The METAL CRUSADE office is based in Chuck's home town so he receives your letters immidiately. 

Como podemos ver, o Chuck mesmo lia tudo. Grande atitude do músico. Uma vez ele respondeu uma carta que meu amigo Denis Pereira mandou. Endereçou-a diretamente ao Denis. Ele, que como eu, tinha uns 17 anos na ocasião, contava para Chuck que jogava muito futebol. Chuck foi simpático e me lembro que sua carta manuscrita falava para Denis "keep up the killer soccer playing!". Palavras positivas e de um estimulo FOFO a nós, jovens ingênuos e cretinos, feitas com sinceridade por um músico que até hoje eu admiro muito. Aliás, confesso que chorei como uma menina que perdeu a sandália em um filme Iraniano quando ele morreu em 2001. O Death foi uma banda que realmente mudou minha visão de música.

 Chuck, praticando a arte de ser fofo em plenos anos 90, quando, dentro do death metal, ou você era malvado... Ou você era malvado. Na verdade você poderia ser épico e ridículo e tocar no Savatage também. Acho. Tinha Savatage nos anos 90? Como alguém pode levar Running Wild e Grave Digger à sério? Sinceramente. E falo da música mesmo. Completamente horrível. Me sinto imbecil escutando essas bandas.

Enfim, tirei umas fotos do fanzine que ele mandava para nós, o Metal Crusade. O zine tinha diversas (e divertidas) palavras de ordem sobre o Heavy Metal (Support music, not rumours!) receitas de comida que o Chuck fazia, desenhos bacanas, e, claro, novidades sobre a banda. Também vendia camisetas (comprei uma do Individual, que depois dei para alguém, não sei quem) e canecas, além de uma espécie de espuma para não deixar a cerveja esfriar (ganhei uma dessas do Chuck, de gratis, mas um cachorro comeu). 

Ainda tenho os adesivos do fã clube, e eles mandavam fotos autografadas dos membros, o que era muito bacana e estimulante para nós, fãs deslumbrados adolescentes. Relendo esses zines, fico feliz de ver como o Chuck tentava transmitir a imagem de alguém positivo e produtivo, em contraste com o metal extremo da época, que parecia se dividir cada vez mais entre o death metal brutal que surgia (capitaneado por bandas como Deeds of Flesh, Disgorge e afins) e o black metal que tomava a Europa através das igrejas queimadas por Euronymous, Varg e outros fofos cavaleiros negros, todos vindos do estado de bem-estar e da social-democracia, esse sistema que tira problemas das vidas das pessoas, e os substitui por tédio e equivocos juvenis.

Os Norugueses merecem um aparte: Incrível como morar no lugar com o melhor IDH do planeta, e eleito o "país mais pacífico do mundo" pelo Índice Global da Paz leva as pessoas a precisarem aquecer toda essa frieza do coração negro botando fogo em igreja. Deve ser uma dureza grande viver numa terra com taxa de homicído de 0.72 a cada 100.000 pessoas (taxa do Brasil: 25), ganhando seguro desemprego e plena assistência social.

Na verdade, essas coisas por si não querem dizer muito, e acredito que muito do clichê de que o frio, o tédio e a falta de uma razão para se viver levam esses jovens lokos a procurar na violência e na arte agressiva um sentido para suas vidas. Fazer rock pesado não tem necessariamente nada a ver com você estar ou não fodido financeiramente. Pode-se perfeitamente criar-se arte necrochorúmica sendo-se um nobre, um burguês, um milionário. Shakespeare não era nada pobre e escreveu Titus Andronicus, que tem cenas de assassinato de arrepiar a rapeize. Jacques Callot desenhou monstros horrendos no século XVII, Rubens fez Saturno devorando seu filho, Grunewald fez a tentação de Santo Antônio em 1515, e ele definitivamente não era mendigo. O rock nasceu, floresceu e acontece de verdade em países ricos. Logo, a associação de que "você tem que ser um fodido na vida para expressar algo sobre o lado negro" é babaquice, possivelmente herança do Marxismo Cultural a qual estamos submetidos.


A tentação de Santo Antônio - Grunewald

O grande problema está em cretinos tentando procurar "ideologia" em algo tão superficial quanto rock. O rock é uma criação da indústria cultural feita para vender discos, roupas, cortes de cabelo e um posicionamento "rebelde" feito para se opor ao status quo. Nos sessenta mirins anos da invenção dessa variação musical feita para mancebos, não surgiu e não surgirá NADA em encartes de discos e discursos de jovens cabeludos/desgrenhados que irá mudar qualquer questão humana significativamente. É lamentável e patético ver gente procurando o sentido da vida na "ideologia" do Varg Vikernes, um METALEIRO Norueguês cuja profunda formação intelectual está em crescer jogando RPG de horror e escutando Bathory. Pensadores, filófosos, cientistas sociais e acadêmicos vem estudando como organizar a vida humana e como encarar a existência desde que o homem é homem, com variados graus de sucesso.

 Atenção moçada, vou lhes dar uma dica: NÃO VAI SER um metaleiro da Noruega que vai indicar nada de interessante sobre o ser humano, em NENHUM aspecto dele. Não existe "ideologia" no rock. Existem letras superficiais com palavras de ordem e declarações bombásticas feitas para impressionar mentes incautas e novatas. A coisa sempre se resumiu, e sempre se resumirá a isso, e ponto final. A única coisa que realmente é desenvolvida nessa merda é a música. Não existe "ideologia" alguma em idiotas se matando ou matando uns aos outros por causa de letras estúpidas sobre Satã, cuja profundiade é a de um pires. Mesmo em termos de estudos herméticos e ocultos esses caras são extremamente superficais. A diferença do ocultismo praticado pelo Mayhem, pelo Dissection e pelo Alice Cooper é de cerca de 0.2%. Parem de viajar.

E para os idiotas que acham que o Vikernes é um puta gênio por que escreveu um livro sobre "Mitologia": Grandessísima merda de elefante equatoriano. Alunos de gradução escrevem trabalhos e mais trabalhos sobre qualquer assunto nas UNIESQUINAS da vida, isso faz deles gênios dessas dissertações? Coletar um monte de dados de livros por que se está de saco cheio na prisão e montar isso num livrinho, querendo atingir a alcunha de "ser pensante" ou "estudioso da mitologia" não prova nada. Wikipedia está aí pra provar que qualquer um faz isso. Os estudos dele sobre mitologia não são uma revolução acadêmica sobre o assunto, a visão política do mundo desse cara não quer dizer porra nenhuma, não passa de cusparadas superficiais vindas de pensadores fascistas e totalitários, e ele é basicamente um moleque da classe média de um país onde todo mundo tem danoninho pra comer cuja formação é ouvir rock pesado e picotar os outros com faca. O currículo dele é, assim como suas idéias, o de um ser humano que estabelece relações pobres entre dados.

Aqui está uma definição de ideologia:

Conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade.

Se alguém aí acha que letras do Venom, Bathory e Mayhem dão uma fundamentação FIRMEZA para se estabelecer "principios filosóficos, sociais e políticos" pelos quais se da pra viver de forma minimamente inteligente, eu TEMO pelo seu QI, jovem leitor. Rock é algo essencialmente imbecil cuja profundidade ideológica se reflete no tamanho das letras: cabem no encarte de um CD. Logo, aceitem que essa merda é visual, música e diversão e fim de papo. Se eu começar a falar como a visão "política" do Punk é algo acretinanencefalado aqui, essa postagem será um livro. Fica para outro dia.

Cá está o nível de ideologia que o rock deu ao mundo. Algo refinado, profundo, e de impacto definitivo no TECIDO da organização social:



Chega de besteira e idiotas, voltemos ao Death, cujo foco era, justamente, música.

É particularmente triste que o câncer tenha levado o Chuck. Ele era um músico talentoso, teve papel fundamental na criação do death metal (muitos dizem que o nome do gênero veio mesmo da demo Death by Metal lançada pelo Death nos anos 80), desenvolveu o gênero, expandindo-o cada vez mais com seus discos, e jamais se repetiu. Considero discos como Human, Individual Thought Patterns e Symbolic verdadeiras obras de arte. 


Chuck conseguiu crescer sem apelar a pretensa intelectualidade das bandas de hipster metal da atualidade (vide Isis e a maioria do catálogo da Southern Lord) mantendo-se absolutamente fiel ao gênero. E manteve-se sendo uma pessoa aparentemente humilde, sóbria e austera. O câncer poderia ter levado toda os membros do Graveland, mas não, aí estão eles, vivos e lançando um disco atrás do outro. Assim funciona o karma, e a ordem cósmica, levando os bons e deixando os idiotas poluindo a crosta terrestre.

É difícil conjecturar como ele lidaria com esses (para a música pesada) cínicos e pretensiosos anos em que vivemos. Nos anos 90 era ridículo ser heavy metal, mas Chuck passou bem por isso. Lembro-me dele dizendo que "Tenho que viver com cada álbum que faço, por isso só lanço o que acho realmente bom" ou coisa do tipo. E era possível ver que esse controle de qualidade existia realmente em seus discos. Hoje em dia o que era o ridículo death metal com letras sobre zumbis e "cabeça decepada chupando uma boceta, bebendo todo sangue de sua menstruação" (procurem a letra de Scream Bloody Gore, essa é a primeira frase da música) ou a sua descrição de "a morte de uma bicha, desgraça humana" (da música Mutilation) que ele escreveu nos anos 80 são cult, cheias de nostalgia e passam uma impressão interessante e estéticamente atraente, ligada ao underground pós-moderno de uma cultura de massa subterrânea.

Após mais de 20 anos elas são colocadas como uma memória, uma produção distante e re-contextualizada, uma reação kitsch ao "mainstream" que se justifica, e que é atraente. Não são mais ridículas, são bacanas como uma camiseta da família Monstro.

(Para onde vai o sangue que a cabeça decepada bebe é uma dúvida, já que uma cabeça decepada não tem um sistema digestivo).






É impressionante como as coisas mudam. Nos anos 90 usar uma camiseta com caveiras e cantar essas letras era motivo de vergonha. Bandas "de verdade" lidavam com temas sociais, políticos, abstratos ou pessoais. O Indie era o rock inteligente e sofisticado, de artistas, herdeiro da tradição do Velvet Underground, Joy Division e afins. A arte da capa de Scream Bloody Gore não mudou um traço, nem suas letras mudaram uma palavra, nem mesmo o ataque a homossexuais de Mutilation, mas, hoje, em um show do Sunn, usar uma camiseta do primeiro disco do Death tem todo um charme hipster, indica conhecimento "real" das raízes do som extremo, aliado a imagem que essas letras de horror passaram a ter, e uma certa idéia de que sua sensibilidade enquanto fã do Death é a de um veterano.


Bruxaria pelada exploitation setentista. De algo profano, proibido e assustador, literatura de seguidores do Charles Manson, a algo cult, seguro, engraçado e nostalgico. Um tema que passou pelo mesmo processo das antigas bandas de death e black metal.

Não só isso, demonstra que você sabe recontextualizar esse disco, sem se entregar ao kitsch real dele, mas reinterpretando-o e vendo-o como obra de vanguarda da sua época. Principamente por que você o faz num show de uma banda de pseudo-vanguarda. GRANDE Sunn. Aguardem minha postagem onde brutalizarei essa merda.

No final de sua vida, o Death passava por uma fase extremamenete melódica. The Sound of Perseverance, seu último álbum, é realmente seu último flerte com o death metal. Os elementos extremos estão lá, mas o disco transcende gêneros: é melódico, épico, grandioso e progressivo, tendo diversos toques de power metal. Chuck lidou com a ojeriza ao metal extremo procurando tornar-se cada vez mais técnico, lidando com temas existenciais e "humanistas" em suas letras, e progredindo de forma melódica com sua música. Infelizmente suspeito que ele sequer tinha um disco do Discharge em sua coleção. Paralelo ao Death ele fez um projeto de power metal, o Control Denied. Não escutei muito, mas achei excessivamente épico, quase caindo na auto-paródio, melódico de forma equivocada. É o Kitsch; algo que tenta ser sério e não consegue. Se ele tivesse um coração mais hardcore poderia ter equilibrado essa emoção épica toda com um pouco de porrada. Esta foi a fórmula que funcionou no Perseverance, afinal.

Acredito que hoje em dia ele iria procurar se re-aproximar do seu lado mais extremo, aproveitando-se da onda de aceitação que sons mais pesados tem tido dentro do próprio heavy metal e de nichos cult. E estaria absolutamente certo ao fazê-lo. Foi um dos fundadores do gênero e teria todo apoio, e apreciação da comunidade musical, para criar. Deveria utilizar-se dessa janela para fazer mais música.

Uma coisa da qual tenho certeza é de que ele continuaria assinando sua música como assinava as cartas que mandava para nós do fã clube: dizendo Let the metal flow.
Chuck é um músico que faz muita falta ao metal, e a música.

Todos os números do zine foram digitalizados e colocados online, podem ser lidos aqui: Metal Crusade.