segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Inglorious Basterds


Pois é meus queridos, foi aqui no ODEON de Canada Water que eu assisti a essa última peraltice ANIMADÉRRIMA do Tarantino. Fui com grandes expectativas pois já tinha lido muito sobre o filme, e sabia que não seria pouca coisa. Muitos anos atrás, em uma galáxia distante, comprei alguma revista de cinema americana (que ainda tenho) no qual Tarantino citava como uma referencia sua o grande "Where Eagles Dare". Dizia: "Sempre quis fazer um guys in a mission movie! Where eagles dare é um dos melhores filmes do mundo!". Na epoca a única platarforma tecnológica para reprodução caseira e em massa de imagens audiovisuais que existia era o VHS, e aluguei tudo que pude da lista dele. Foi logo depois de Pulp Fiction sair. Lembro que essa lista me revelou "Rolling Thunder", que me entreteu bastante lá por 93 ou 94.
Inglorious Basterds é, provavelmente, o melhor filme que o Tarantino já fez. Só não é melhor do que Pulp Fiction por que este é importante demais, históricamente. Pulp Fiction deu cara a uma geração específica dos anos 90 e marcou o mundo de posers estilosos, hipsters e frequentadores da galeria ouro-fino. Deu luz a fãs de citações, cineminha cult, intertextualidade, surf music e poseragem heroin chic. Todo um movimento pré-internet de pessoas que passeiam pelo mundo sendo indiferentes a tudo e apegadas a índices de cultura popular que "impressionam" encontrou significado nesse filme. Ele fez deu voz ao Cool. É um marco, já entrou para a história do cinema como fundador do cinema poser, cheiro de referencinhas, meio anos 70, mas ainda no seu tempo, boca suja, violentinho, todo mundo blasê, inafetado por sangue. Os personagens são, afinal, descolados e seguros demais para se importarem com alguém morrendo. Marcou... Não podemos negar, não podemos negar, meninos! E criou uma geração de seguidores, estes que fazem filmes medíocres com gangsters que fazem piadas e depois mergulham em violência e cenas chocantes. Como por exemplo o ex-Madonna, guy Ritchie; essencialmente um Tarantino inglês de segunda categoria.

Acima de tudo, seu cinema não é um cinema sobre a vida ou relações humanas, mas sim sobre o próprio Cinema, coisas que o Tarantino assistiu quando era um adolescente (periodo que nunca abandonou, aliás). É um Cinema para cinéfilos, repleto de cenas derivadas, violência e choque barato. Mas extremamente divertido. Tudo que liga as situações-citações de Tarantino é um dos mais primais acontecimentos testemunhados pelo homem: os eventos tomados por violência, que irão submeter seu espectador a excitação e prazer, mas raramente a empatia. Ou seja, Tarantino, de maneira geral, celebra valores egoístas e excessivamente preocupados com estetica. Trata-se de um cinema essencialmente pós moderno; consumista, niilista, hedonista, individualista, criado por signos, onde não se é o que se é, mas sim o que se parece, o que se veste e o que se representa, o que se tenta parecer. Acima de tudo, Tarantino faz um cinema de status. Estritamente ele é efemero e anti-intelectual, seu cinema é eminentemente voltado para a estetização e a emoção, a superficialidade. Ele não desenvolve algo genial sobre os temas que explora e não investiga os personagens que retrata e suas trajetórias com causas e consequências, qualquer que seja o tema que está explorando: a vida no crime, ser um policial, testemunhar a guerra. Nada disso importa, desde que seja pano de fundo para violência estilizada. Seus personagens não tem valores. Entropia, a destruição de valores e a confusão deles, predomina numa mistura de citações de cultura popular.

Apesar de Tarantino estar lidando com Nazistas, isso é uma mera escolha estética baseada na herança cinematográfica que ele teve como criança, assistindo filmes sobre o tema. Como ícone pós-moderno que ele é, seu cinema é eminentemente despolitizado; sua preocupação não é com a origem do Nazismo, seus efeitos, causas, consequências. Sua narrativa não se preocupa em tentar entender a mente do oficial Aldo Landa ou o trauma de Shosanna . Os Nazistas são inimigos herdados por sua infância assistindo filmes da Segunda Guerra. Sua preocupação está em explorar cenas de ação e conflito com fortes momentos emocionais e forte estilização estética. Convenientemente o Nazismo é a encarnação do mal puro no inconsciente (e no consciente) coletivo do ocidente contemporâneo, o que permite a Tarantino se dar ao luxo de alegremente torturar soldados Alemães na tela, completamente livre de qualquer sentimento de culpa, tanto para ele como artista como para o espectador.

Justificado pelas atrocidades cometidas pela Alemanha Nazista, Tarantino tem sinal verde para trucidar pessoas na tela com requintes de crueldade e ódio adolescente. Seu cinema é anti-humanista, sem preocupação nenhuma com questões morais. A escolha tampouco é patriota ou, como nos filmes de Segunda Guerra originais, voltada para a excitação da ação, da batalha. A glória de se lutar pelo país, tão bem representada por séries como "Combate" ou atores como John Wayne, não interessa a Tarantino. Estes valores se encontram abaixo de algo maior, que é a nostalgia do diretor por suas referencias cinematográficas e de uma guerra que permitia, com algum senso de justiça, crueldade com o inimigo. Seu cinema é um cinema de CENAS. Cenas que devem se tornar memoráveis, marcar a memória do espectador como sequências estéticamente bem acabadas. Pequenas momentos que importam mais do que a premissa como um todo. É um cinema sem valores, hedonista. Há a procura do prazer estético e da criação de cenas violentas. É um cinema narcisista, preocupado eminentemente com estilo, estilização e aparências.

 De qualquer forma, Tarantino resolveu botar a cabeça pra funcionar, e superou Kill Bill. Não que o filme escape de seus cacoetes, mas algo mudou. Filmes de caras numa missão tem uma tendência a apresentarem ao menos uma boa estrutura para uma aventura. Basicamente IB é uma aventura de RPG, na qual os jogadores são os Basterds e a missão deles é matar muitos nazistas, com bonus points se eles pegarem oficiais do alto escalão, claro. Aliás, QUALQUER campanha de RPG que eu já tenha jogado é melhor do que 90%, empiricamente, dos filmes de ação que eu assistí. 

A premissa já ajuda o filme a ser bom. Filme que se passa nos anos 40. Não vai dar, tanto assim, para o Tarantino fazer citações grosseiras, mergulhar em referencias a obscuros filmes asiaticos... Tem até uma cena na qual um nazista apaga um cigarro num crepe, ou torta. E se isso nao é ser cool, desencantado e estiloso, eu não sei o que é.

Ele, de certa forma, esgotou essa ideia de parodiar cinema dos outros nos Kill Bill, que são sim bons, mas convenhamos, olhem pro seus corações, examinem suas almas; são eles melhores do que assitir LOST? Não, não são. São muito melhores do que alguns episódios de Dexter? Também não. Não são nem melhores do que episódios antigos de Além da Imaginação. E quando voce faz um filme-citação que é divertido, mas não é melhor do que episódios de Star Trek, você tem problemas, meus amigos. Você esta em apuros. Mesmo que você seja um sucesso. Só não percebem isso os deslumbrados. Filme do Bruce Lee e alguns animes são melhores, mais divertidos, corpulentos e vitaminados do que Kill Bill. Por exemplo, "Vampire Hunter D" ou "Ninja Scrool". E isso é um problema, por que eles não foram tão celebrados quanto, e mereciam muito mais. O que nãoo faz um investimento em MARKETING, não é mesmo?




Tenho um VHS do "Inglorious BASTARDS" original, "O Maldito Trem Blindado", e trata-se de um filme de ação muito divertida, com cenas gigantescas e épicas, no qual um grupo de soldados Norte-Americanos tem que explodir um trem... Maldito. Bom filme, um "Dirty Dozen" espaguete, com baixo orçamento e bastante ação. Não tem NADA a ver com esse. Ou seja, ele comprou os direitos para ter o nome, já que não é uma refilmagem. 

Basterds já se inicia com uma cena muito bem montada; numa fazenda francesa, onde o malvado Nazi HANS LANDA interroga de forma inteligente e genial um fazendeiro leiteiro e suas filhas. Nesse momento Tarantino faz valer sua fama de fazer diálogos grandiosos, e a coisa atinge um clímax/conflito que irá levar de forma épica a próxima cena. Chega as raias da genialidade no crescendo das falas. O diálogo é uma inquisição perversa do NONCHALANTE Landa imputada sobre o bondoso fazendeiro, com uma maldosa parábola sobre ratos e Judeus, tudo ocorrendo enquanto uma família Judia está escondida debaixo do chão de madeira. Isso, meus amigos, é saber fazer conflito no cinema. Me mostrem cinco filmes nacionais dos últimos 30 anos que tenham uma cena assim. Não há. Em outra longuíssima cena, de 20 minutos, ele faz um inocente jogo de bêbados virar uma disputa por informações e percepções sutis em um diálogo em Alemão que se torna uma algo impressionante. Ele leva, leva e leva a tensão com o diálogo e finalmente ESTOURA tudo em uma erupção catártica de tiros e sangue que precisa ser vista para ser compreendida em sua totalidade total.


E depois desse clímax, OUTRO. Em uma nota, o diretor do que (dizem, nunca vi) é o filme HOSTEL, Eli Roth, faz um judeu forte com taco de baseball, que passeia cometendo atrocidades.


Simplesmente sen-sa-cio-nal a atriz Diane Kruger que faz a Alemã nazista Bridget Von Hammersmark. E a Shosanna Dreyfuss tambem nao fica atrás. Proprietaria de uma beleza meio Natassja Kinsky, faz uma dona de um cinema, vejam só. E é obrigada a exibir um filme Nazista da época, um filme dentro do filme, que ficou ótimo, sobre um franco atirador alemão que mandou desta para melhor umas duas centenas de aliados, em uma liberdade criativa do Tarantino que convence, entretem e enriquece tudo. Um dos Basterds inclusive é um teórico de cinema! Vive disso! Como eu! Me senti cúmplice desse personagem!

 
Michael Fassbender como o crítico de cinema Archie Hicox.

 
Mélanie Laurent é Shosanna Dreyfuss

De qualquer forma, o Atirador Alemão é ao menos parcialmente inspirado no ator Audie Murphy, que, diz a lenda, mandou dessa para melhor dezenas de soldados Alemães e virou herói nacional na década de 40. Vi em DVD o filme que ele fez sobre si mesmo, "To Hell and Back", e a fita tem o mesmo principio do filme dentro do filme do Basterds. Murphy foi o soldado Norte Americano mais condecorado existente. Outro bom (e curto) filme com ele é "A Glória de um covarde", também baseado nas confissões, no caso literárias, de um soldado, desta vez um veterano da Guerra da Secessão. Tem em DVD.

Audie Murphy e suas medalhas.  
To Hell and Back - A maior bilheteria da história da Universal até "Tubarão" de Steven Spielber ser lançado, em 1975. 

Portanto, o filme é uma campanha de RPG com você e seus amigos torturando Nazistas pela Europa, e paralelamente a historia de Shosanna e seu admirador nazista, exigindo que ela faça a premiére de seu filme em Paris. Belas cenas de Paris, sob ocupação Nacional-Socialista. 

Percebe-se, aliás, que Tarantino escreveu e reescreveu o roteiro. Existem várias tangentes narrativas que ele poderia ter seguido para a história, os cortes foram, de certa forma, meio aleatórios, e duvido, na verdade, que o clímax do filme fosse originalmente onde é. Todos os personagens tem uma sólida historia anterior, mas ele teve que se conter, ou faria uma minissérie. Todavia, toda essa informação dá envergadura ao roteiro e aos personagens. Você mal vê alguns dos Basterds, mas sabe que eles tem todo um passado que poderia perfeitamente ser explorado em uma série de TV. 

O cinema Alemão tambem é explorado, em amplas citacões. Muito nerdismo e fanboyzismo, nesse sentido, para agradar pessoas mais informadas do que vocês. Sempre me esqueço de como Tarantino despreza qualquer morte. Nenhum dos personagens se importa com gente morrendo em seus filmes, colegas massacrados e moscas são a mesma coisa, cenas de violência extrema entram e saem como se nada tivesse acontecido, e isso é irreal, imaturo, inseguro e desrespeitoso com o tema (violência). 

Apesar da violença gratuita e do poserismo de fanboy alucinadinho, apesar de tudo isso, o filme tem guys in a mission na Segunda Guerra Mundial, objetivo claro, Nazistas sendo escalpelados, final apocalíptico com gargalhadas fantasmagoricas e, finalmente, adentrando a filmografia de Tarantino, uma cena de morte bonita e LÍRICA, emocionante, épica! Com trilha do Ennio Morriconne! Tarantino mostra que não é apenas um californiano cínico, comedor de cheetos, que ficou vendo filme de kung fu em locadora. Mostra que tem um coração! E que entende amor, dor, traição e perdão. 

Ou, ao menos, consegue fazer um simulacro do que viu destes temas em outros filmes. Excelente cena de morte. 

Assistam, são 3 horas que passam rápido. É uma mistura de "Where Eagles Dare" com filme do Ettore Scola e pinceladas de "Cinema Paradiso". O clímax é glorioso, épico, e é a coisa mais anti-alemã que ja vi na vida. Preencheu minhas expectativas, e me surpreendeu. Sejam fanboys e vejam.

sábado, 29 de agosto de 2009

FLIP 2008


FLIP 2008

Com grande atraso, mais de um ano, venho comentar a FLIP de 2008. Encontrei alguns papéis que usei para anotar coisas que vi naqueles três dias. Foram três excelentes dias, aliás. Paraty revelou-se um lugar muito agradável, e assim também foi quando retornei lá com meu amigo germânico Manuel Rickert, no final do mesmo mês de Julho. Aparentemente ele também gostou muito.

É revigorante estar entre pessoas que lêem, estando no Brasil. Clichê dizer isso, mas a FLIP é um evento bom para se conhecer pessoas e entrar-se em contato com idéias novas, boa diversidade de autores e as mesas sempre trazem idéias instigantes.

Em uma nota completamente não-relacionada com a FLIP, estava eu lendo uma crônica utilizada por amigos para a feitura de um curta metragem, aliás muito bem fotografado, quando comecei a pensar sobre o oficio de escritor. A crônica é do Luís Fernando Veríssimo, escritor por qual tenho grande admiração (apesar de ter lido pouco, as crônicas dele me parecem muito sinceras, simples, diretas) e versa sobre um escritor dizendo algo sobre escrever. Diz ele que o verdadeiro escritor, quando já disse tudo o que tinha para dizer, se mata. Se não, não escrevia. Escreve para expurgar os livros de dentro de si. No final, ele decide não terminar a carta de suicídio/texto que estava escrevendo pois afinal, isso implicaria em que ele tivesse que cometer suicídio. Sensacional essa hein? Vocês não viram ela chegando!

Outra imagem do que é o centro histórico dessa sensacional cidade, meus amigos. Paraty!

Essa coisa de querer colocar algo gênial para os outros lerem é uma característica da literatura. "Tenho que passar uma mensagem, tenho que ser sofisticado". Um bocado chato e pedante isso, no final das contas. O Veríssimo é bom ok, tá, o cara é demais. Mas essa idéia de que "o verdadeiro escritor se mata depois de terminada a sua obras" e frases (ou idéias) de efeito do tipo são chatas e pseudo-profundas. Isso simplesmente não é verdade. Você pode achar que é verdade se tem uma profundidade emocional/intelectual televisiva, novelesca, da vida.

Está claro que em nada se equipara a complexidade de, digamos, Hardware do Richard Stanley, aí sim, uma verdadeira meditação sobre a vida.

Aqui está um trailer não oficial deste filme:



De qualquer forma, outras variações da arte, como a música, não se tornam obcecadas em querer explicar para os outros como viver a vida, apesar de poderem conter grande sofisticação. Música é assim.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Hoje eu me apaixonei por seis minutos

22/11/2007

Estava eu caminhando em um poético e bonito pôr-do-sol alaranjado de fim de tarde quando atingi meu destino: a prosaica festa de livros da USP.

Os pores-do-sol da USP são bonitos. Lá o terreno é mais plano do que na maior parte de São Paulo, e dá para ver o horizonte. Algo que sempre me emociona e me espanta quando saio dessa cidade, onde quase sempre vivi.

Solitário, começo a ver os livros. Aquela coisa sensacional, milhares deles, tudo, tudo tão interessante que dá vontade de ler pra sempre.

Estava me amaldiçoando por não ter pego uma blusa (já que tenho sentido cada vez mais frio ultimamente; eu era bem resistente quando criança e adolescente) já que a brisa de fim de tarde arrepiava meus braços, quando adentrei aquele enorme vão do saudoso prédio da História e da Geografia, lugar de profunda sabedoria e conhecimento! Ah sim! Muito! Lugar onde, afinal, passei quatro anos e meio da minha vida.

Lugar que me deu o diploma que ostento orgulhosamente no escuro da minha gaveta de escrivaninha, lugar onde assinei um documento me comprometendo apenas fazer pesquisa histórica em nome da justiça e do progresso humano! Um lugar cheio de curvas, sombras e memórias que jamais irão fugir de minha mente de de meu coração! Lugar onde aprendi, amei, chorei, transei e ri.

Quase uma novela.

Solitário, começo a ver os livros. Aquela coisa sensacional, milhares deles, tudo, tudo tão interessante que dá vontade de ler pra sempre.

Também sou possuído por uma vontade de fazer uma magia que fizesse com que aquela montanha de gente desaparecesse para que eu possa alcançar os livros com maior facilidade.

Ao mesmo tempo ondas nostálgicas de ter ido em todas as festas do livro, desde a primeira, no ano em que entrei na USP, e de tudo que vivi naquele prédio, se apossam de mim.

São muitas emoções, gente!

Caminhando entre estudantes hippies, um gordo metaleiro com uma camiseta do DIO e professores, vou direto ao stand da Conrad, onde preciso pegar alguns volumes para completar coleções de livros e quadrinhos.

Ah! GordecamisetadoDio! Membros dessa espécie, normalmente jogadores de RPG, são comunmente vistos na USP e são espéciemes belos da fauna da Universidade. Devem ser preservados. Habitualmente virgens, são bons de papo e entendem de mitologias Européias e sabem muito sobre torrents pornôs em evidência.

Uma senhora pergunta a um vendedor: "O senhor tem livros de arte?" e ele responde: "É que aqui nós consideramos quadrinhos arte". Ela diz "Ah, tá" e vai embora.

O vendedor tem tatuagens de símbolos que eu vejo em academias de Yoga nos dois antebraços.

Que prazer tenho ao ver a figura de Conan estampada na capa das edições dos volumes I e II das sagas do cimério que, eu não sabia, foram lançadas aqui!

Acredito que o perfil de toda minha fonte de prazer na vida determinou-se até meus 15, 16 anos.
Ou seja, sou um nerd infantil.

Mas isso não vem ao caso.

O que vem ao caso é que....

Estou lá, desavisado, com os olhos passando por imagens de Mangás, desenhos de Robert Crumb e figuras do Sandman... Quando vejo a loirinha.

A loirinha é "inha" na medida em que esse diminutivo proporciona as mais delicadas qualidades a moça. É meio brega, beirando o babaca falar isso. Mas ela não era uma loira.

Ela era uma loirinha.

A primeira coisa que sinto é vontade de abraçar e proteger ela.

Estava usando um moleton azul marinho antigo e puído, calça jeans e tênis All Star. O cabelo estava preso pra trás com fivelas bonitas e escuras, mas escorria pelos ombros, em ondas de amarelo e castanho claro. Seu olho é de um castanho muito claro.

Ela está folheando o livro do Lester Bangs, "Reações Psicóticas".

Me apaixonei.

Durou uns seis minutos.

Decidi que deveria dilatar aquele momento o máximo possível, e fiquei folheando um livro de ficção científica ao lado dela, bebendo sua beleza com os meus olhos. Sua beleza intimidadora nunca escapando de minha visão periférica.

Quando ela se decidiu, parou de ler.

Fechou o livro, colocou a mão na bolsa e de dentro dela tirou uma carteirinha de plástico transparente, antiga,, com dinheiro; umas poucas notas visíveis através do plástico translúcido.

Fiquei imaginando onde ela arranjou aquela carteirinha, se ela ganhou de uma amiga, se comprou numa loja de 1,99, e há quanto tempo tinha ela.

Imaginei onde ela deixa a carteira quando chega em casa. Talvez em cima da mesa? Do lado da cama? Pensei que queria estar com ela quando ela escolheu comprar a carteira.

A carteira era um pedacinho de plástico que parecia frágil e pequenininho, assim como ela é loirinha. Não era uma carteira grande da Louis Vuitton, um objeto arrogante, ostentador, deselegante, inseguro, vulgar.

Era um saquinho de plástico que combinava com ela ser loirinha e gostar de algo simples.
Desejei que a mente dela fosse transparente como o plástico da carteira, para que eu pudesse saber de tudo que ela gosta e fazer pra ela.

De relance, olhei o lado do seu rosto, ela estava olhando para algo a direita e com parte da nuca virada pra mim, seu rosto fazia uma curva bonita escondendo seu nariz, enfim, eu via só sua bochecha. Era macia e fofinha. Dava para ver os pelinhos no rosto dela, transparentes. Como a carteira.

E tinha uma pintinha pequena, clara.

Ela esticou a mão para a esquerda e pegou outro livro, algo sobre um fumador de ópio, mas não era o do DeQuincey, que vejo pra vender em bancas, em edição da L&PM.

Com uma voz muito, muito baixinha, ela perguntou o preço dos livros ao vendedor. Ele consultou uma tabela e disse, e ao invés de responder, ela apenas assentiu com a cabeça e deu os livro a ele. Começou a separar o dinheiro.

As unhas dela eram pequenas e curtinhas, sem pintura, transparentes como a carteira. Os dedos eram finos e delicados, como de uma criança.

Eu deveria ter chegado junto, e na melhor tradição do xaveco instantâneo falado: "O Bangs falando sobre Van Morrisson nesse livro é demais"

Ou ainda, dito: "Adorei sua carteirinha de plástico, seu moletom antigo e seu All Star, você é tão simples e bonita quanto uma flor, dá vontade de te abraçar e sentir seu aroma e beijar sua bochecha. Posso?"

Mas decidi não fazer nada.

Ela pagou, deu as costas a mim saiu pela saída ao lado da antiga biblioteca, sendo consumida pelas sombras do fim-da-tarde. O sol não estava mais lá.

Vi seu All Star e sua calça jeans - no tamanho exato para o corpo dela - desaparecendo e fiquei triste.

Para ela, foi só mais um dia, mas para mim, ela está imortalizada aqui.

Provavelmente ela é, e sempre vai ser, muito mais bonita na minha memória do que na verdade.

Mas é assim que eu quero que seja.


domingo, 3 de maio de 2009

Virada Cultural

http://radiated5.files.wordpress.com/2009/02/3065night-of-the-living-dead-posters.jpg  

Hoje fui ao centro prestigiar a Virada Cultural, evento anual já bem sedimentado no calendário de São Paulo, onde o centro da cidade fecha e dezenas (centenas?) de atividades culturais tomam conta das ruas. Alguém teve o bom-gosto de programar uma sessão de 24hs de exibições de filmes com mortos vivos e zumbis, no cine Dom José. Agradeço ao prefeito Kassab por ter apoiado e endossado essa proposta. Fui no cinema com uma amiga e vi de uma vez só Noite, Manhã e Dia dos Mortos, a trilogia completa do George A. Romero sobre mortos vivos, que iniciou a avalanche de filmes sobre esse tema na história do cinema. Estes filmes simplesmente criaram um novo gênero dentro do horror e são clássicos absolutos. Assistimos tudo na sequência, com apenas pequenos intervalos entre um filme e outro. Como estava muito cansado, dormi um pouco durante Manhã e Dia. Foi incrível, e fazia tempo que não via uma sessão de cinema assim. Sala totalmente lotada, não via isso há anos; pessoas sentadas no chão, e todos aplaudindo tanto a cada zumbi morto como a cada personagem protagonista que morria também, com o público indeciso, aparentemente, sobre quem gostaria de apoiar, ou simplesmente feliz demais em ver cenas de violência que não podem ser levadas à sério, todos embebidos na bruma intoxicante da Jornada Cultural, onde as ruas não tem carros e estão tomadas por pessoas... Muito como uma cidade tomada por mortos-vivos, aliás! A primeira sessão, de Noite, começou as duas da manhã, com barulho absoluto do público. Algumas pessoas tentaram pedir silêncio, mas foi impossível. Toda sessão foi comentada e discutida pela platéia, permeada por gargalhadas, risadas, assovios e gritos. Enquanto a personagem Barbara fugia entre as lápides do cemiterio, e seu irmão caçoa de seu medo falando "Barbara eles estão vindo pega-la", pessoas na sala sugeriam a Barbara alternativas e saídas, em voz alta, conversando com o personagem, convidando Barbara a desde agredir o irmão a praticar atos libidinosos com ele. "Foge Barbara", "Soca esse palhaço Barbara", "Tu é babaca, Barbara", foram apenas alguns das dezenas de comentários que escutei. Quando acabou Manhã saímos e fui na lanchonete da frente comprar um suco de Melancia. Estava de dia já, céu azulado frio de manhã entrecortando os prédios antigos do centro, da rua Dom José de Barros, e já vi que para Dia dos Mortos havia uma fila gigantesca de pessoas, começava no meio da Dom José e ia até a Avenida São João, muita gente. Re-entramos na fila, cercados de góticos, punks, bêbados e metaleiros e assistimos o Dia.

http://morb.files.wordpress.com/2007/12/dawn_of_the_dead_1978.jpg 

O filme é tomado por cenas claustrofóbicas, com um grupo de pessoas preso dentro de um abrigo militar, submetidos as ordens ditatoriais do Capitão Rhodes, que gradualmente tortura mais e mais, tanto fisicamente quanto psicológicamente, as pessoas que o cercam, levando o filme e os protagonistas a novos níveis de tensão e desespero confinado... Cochilei. Acordei com o cinema inteiro entrando em erupção de aplausos quando Rhodes (interpretado com excelente canastrice por Joseph Pilato) é despedaçado por Zumbis, tem suas entranhas e membros arrancados por um exército de mortos vivos, que se alimentam de sua carne em cenas que embalaram a geração GORE oitentista, a qual pertenço, e que ilustrou tantas edições da revista Fangoria. Essa sequência é uma verdadeira pausa na narrativa para que os Zumbis façam seu lanche antropofágico. Ao nosso redor, gente gritando, assobiando e correndo pelos corredores em celebração gore-nefasta-profana. Toda a projeção parecia com gente assistindo as famosas sessões do cult Rocky Horror Picture Show em Nova Iorque nos anos 70 e 80; pessoas comentando o a trama, dialogando com os personagens, tirando uma porrada de fotos dentro do cinema. Os flashes não paravam de embranquecer a tela, e teria sido proveitoso se tivessemos uma câmera para poder ilustrar melhor essa postagem. Quando o personagem do Duane Jones dava um golpe em algum zumbi, durante Noite, ouvi um grito: "Olha o Obama distribuindo sopapo!".

 
 Uma cena de pessoas participando de Rocky Horror Picture Show.

Obama? OBAMA? 

 Outro momento no qual o cinema emergiu em gritos, apitos e aplausos foi quando, em Noite, Barbara (Judith O'Dea, aliás, muito bonita e recentemente de volta as telas em filmes depois de muitos e muitos anos sem fazer nada) está dando chilique e Jones da um tapa na cara dela para que ela se controle. O machista Brasileiro não se conteve e o Cinema inteiro virou um show de rock, com assobios, risadas, apitos e gritos histéricos. É curioso como os filmes são diferentes: Noite é claramente um filme B, feito com poucos recursos, alguns "jump cuts" que quebram continuidade, cenários relativamente pobres, efeitos simples. Mesmo assim, é um filme visceral e extremamente atmosférico, que jamais perde tensão e sempre apresenta novos conflitos. Extremamente violento para a época na qual foi feito, ele deixa muito clara a arquitetura que seria utilizada dalí em diante para centenas de filmes com mortos vivos que o copiam até hoje. Romero criou na verdade um formato muito simples que provou poder ser super utilizado, a perspectiva básica é: "um grupo de pessoas cercados por mortos vivos canibais". E isso funciona para tantos filmes há tanto tempo que transformou-se em um subgênero. Essa prova apenas endossa minha teoria de que formatos simples se prestam para se explorar, com criatividade, qualquer tema, desde que você respeite as regras básicas do que está fazendo. Manhã é um filme melancólico e mais pausado. Muito diferente da refilmagem de Zack Snyder, que, me parece, só apreveitou mesmo a premissa de um grupo de pessoas confinado num shopping center cercados de zumbis. Toda a dinâmica entre os personagens é alterada aqui. É um filme sem esperança e sem conclusão, que tenta entender a solidão e o horror dos personagens. Gostei particularmente do final, não via esse filme há muitos e muitos anos, e não me lembrava que ele ia, em seu clímax, de um niilismo total para um rastro de esperança, em um bem colocado ponto de virada. Funciona muito bem, e a tomada final chega a ser poética. Em termos estéticos, o que pior envelheceu foi Dia dos Mortos. A trilha sonora é feita de um eletrônico cafona oitentista que tira um pouco atenção da trama, e prejudica a "suspensão da descrença", hoje em dia. Tive o mesmo problema com Expresso para o Inferno, que revi recentemente, devido também a sua trilha. É um filme um pouco histérico (os personagens gritam desesperados uns com os outros o tempo todo, suponho, para manter a tensão da trama) e possivelmente pessimista. Temos os personagens mais odiosos da trilogia original nesse filme. Egoísmo, maldade e traição são os temas explorados, enquanto um grupo de militares tenta sobreviver em uma espécie de bunker subterrâneo. Também é o mais violento dos três filmes da trilogia, e de certa forma o mais arrastado. Explora boas idéias em relação a como o cientista, uma figura que não aparece nos outros dois (a voz da ciência) se relaciona com e vê os zumbis, que acabam tendo seu comporamento alterado por essa relação.

 

O público se emocionou de forma tocante com esta cena de singular poesia e sensibilidade, na qual o Capitão Rhodes (Joe Pilato) tem a si apresentada uma nova perspectiva de sua existência. Queria ficar pra ver mais, mas não aguentava. A sessão de filmes de zumbi corria 24hs, até as 18 de hoje, com a exibição do filme Extermínio de Danny Boyle, aliás ganhador do último Oscar de melhor filme com seu Quem quer ser um milionário?, que ainda não vi. Saímos da sala as oito da manhã, uma sensação estranha sair do cinema, novamente, de manhã, e tomei mais um suco. Olhei pra nova fila que se formava para ver A volta dos mortos vivos – Parte 2 (um filme em nada relacionado com Romero, apenas com o conceito de mortos vivos) e comentei "pô, bem que diminuiu". Daí percebi que dessa vez a fila descia para a 24 de Maio, fazia a curva lá embaixo e continuava indo pra galeria. Esse povo não tem o que fazer? 

Foi muito legal, não ia numa sessão de cinema tão legal desde o começo dos anos 90. Parabéns aos organizadores da virada cultural e aos donos do Cine Dom José, que cederam o espaço para o evento. Aliás andei lendo sobre o Dom José é trata-se de uma sala antiga (com um belo balcão superior, fechado atualmente) fundada no anos 50 sob a alcunha de "Cine Jussara". Parece que foi o primeiro cinema a passar filmes da Nouvelle Vague em São Paulo, justamente trazendo a vanguarda Francesa para São Paulo. Em matérias on line vi que os proprietários do cinema consideraram a noite de Sábado um sucesso, e gostariam muito de trazer para a sala novos eventos parecidos. Seria muito proveitoso. A sala é bonita, antiga e lembra a São Paulo de velhos tempos, e ter um cinema voltado para ciclos específicos no centro seria algo muito bem vindo ao mapa da cidade.

sábado, 15 de novembro de 2008

A técnica cinematográfica de “O triunfo da vontade”


A técnica cinematográfica de “O triunfo da vontade”
Por Joaquim C. Ghirotti

O cinema alemão sempre foi pioneiro, tanto no que diz respeito ao desenvolvimento de técnicas de produção cinematográfica como nas áreas de criação de uma narrativa própria, estética e identidade visual. Todo o movimento Expressionista, iniciado no cinema alemão na primeira metade do século vinte, produziu uma gama enorme de trabalhos extremamente criativos e influentes. Autores como Murnau, Fritz Lang e Robert Wiene imprimiram sua marca na história do cinema através de suas obras, dessa forma influenciando a maneira como a arte se desenvolveu através dos anos. Com a ascensão do Nazismo, a indústria cinematográfica alemã é englobada pelos ideais e necessidades do partido. Toda a técnica desenvolvida pelo cinema germânico até então será utilizada na produção dos radicalmente diferentes filmes nazistas, filmes que se prestavam a realizar não uma revolução de cunho estético, mas sim de uma afirmação conservadora de caráter político e social, empregando em suas imagens a ostentação grandiosa exigida por um cinema que deseja criar a comoção nacional em massa.

Ciente de que o cinema, uma arte em expansão e constante aperfeiçoamento, é uma ferramenta extremamente eficaz, Goebbels, o ministro da propaganda, faz com que a sétima arte torne-se a vanguarda da propaganda nazista. Recursos, fundos e exigências não são poupados para que as idéias do Reich alemão se concretizem na tela. Leni Riefesntahl, a principal realizadora de filmes dentro do movimento cinematográfico Nazi, teve acesso a equipamentos de primeira ordem e recursos ilimitados para filmar “O Triunfo da vontade”, a obra máxima da propaganda nacional-socialista.

Todas as comitivas, assim como a organização impecável em que se encontra a disposição dos elementos de cena se dão de acordo com a câmera. O congresso, portanto, se articula diante das necessidades da câmera. A direção do filme contou com auxílio de Albert Speer, arquiteto célebre que organizou as tropas de acordo com a filmagem. O uso de caríssimos guindastes e gruas para criação de movimentos fluidos de fotografia é corrente. Leni se utilizou de um arsenal de dezenas de câmeras e operadores (trinta e seis), teve uma equipe com cerca de 150 pessoas, nove cinegrafistas apenas para a seqüência em que utilizaram um dirigível e um avião de combate. Seus recursos eram muito maiores do que o padrão para o cinema alemão, ou mesmo internacional, da época. A equipe filmava simultaneamente um mesmo evento, para poder captar um maior número de ângulos da mesma cena. Assim, durante a edição em Movieola (equipamento criado para que se realize a montagem de um filme a partir do primeiro copião positivo) ela teve uma infinidade de opções disponíveis para criar a narrativa. Dezenas de rolos de filme 35 milímetros, uma película de alta qualidade e extremamente cara, foram usados para que se fotografasse a mesma cena, simultaneamente, em alguns casos repetidas vezes. Rudolph Hess construiu elevadores capazes de levantar as câmeras por 30 metros de altura, a mesma medida de um pequeno prédio de apartamentos, para fotografar uma multidão de um milhão de pessoas. Toda a iluminação criada para os discursos dos membros do partido nazista é feita em função das câmeras. Em determinado momento, Speer arquitetou uma “catedral de luzes” com 130 holofotes anti-aéreos. O uso correto de estandartes, a ambientação e disposição das luzes e horários em que os discursos foram filmados foram feitos de maneira a fazer com que o melhor resultado possível pudesse ser atingido na tela de cinema. O objetivo era preencher a tela da forma mais eficiente possível. Quando disposta a luz do sol, Leni procura filmar os protagonistas a contra luz, criando assim longas sombras, captadas pelas sempre eficientes objetivas Alemãs. Leni utiliza predominantemente à objetiva “normal” de 50 milímetros. Assim mesmo estando submetida as intempéries características da produção de um documentário, sua imagem não perde o foco, ganhando sempre nitidez e realismo. A proporção dos corpos dispostos é mantida de forma a não despertar suspeitas de verossimilhança, pois o filme quer mostrar que o que ele fotografa É realidade.

Riefennstahl utiliza-se em muito, também, de primeiros planos e planos de detalhe. As mãos dos soldados tomam a tela por completo, tornam-se enormes, as feições, estáticas, monolíticas. A luz faz com que os rostos dos oficiais e soldados alemães sejam blocos de granito, lisos, polidos, intimidantes e sem falhas. Isso se deve, particularmente, a iluminação extremamente forte que Leni usa. Enormes refletores com milhares de watts de potência, voltados para a cena que se desenvolve em sua frente. Assim ela cria tomadas aonde o preto e branco, brilho e sombra, são usados em alto contraste, um recurso estilístico que marca muitas cenas do filme. O som é extremamente irregular. Leni faz uso de música de estúdio assim como capta o som direto, ou seja, o som do momento que se desenrola em sua frente, e manipula os volumes assim como a entrada dos mesmos de forma fluida e sincrônica durante a mixagem. O objetivo é fazer com que música, discurso e ruídos formem um amalgama que faça sentido em sua totalidade e que sejam encarados como realidade. Durante a narrativa, discursos do Fuher são interrompidos e iniciados dada a necessidade de se realizar aquele ou esse corte. O som incidental, o clamor do público, os ruídos de motores a movimentação humana, se dão de acordo com a atenção central da câmera. Novamente disposta de sofisticados equipamentos de captação sonora, Leni pode captar separadamente ruídos, o som da multidão, músicas e o próprio discurso de Hitler. A combinação destes elementos captados separadamente é criada quando todos são mixados e o resultado é adicionado, nos volumes corretos, sobre a imagem já montada. Assim música e aplausos, ovação e palavras de ordem são orquestradas de maneira a invadir a tela de forma aparentemente natural. O cenário audiovisual criado por Leni Hiefesntahl é completo quando os cortes de som e imagem são sobrepostos e atingem simetria total. Toda a movimentação e enquadramentos usados no filme também levam em consideração os cenários e locações utilizados ao longo do filme.


Segundo o próprio Fritz Lang, um dos principais cineastas europeus, que abandona a Alemanha logo após a ascensão do nazismo (mas deixa sua influência marcante no cinema germânico, tanto que o próprio Hitler o convidou a ser o cineasta oficial do Reich após assistir “Metropolis”, filme de ficção científica do consagrado diretor) a arte do cameraman implica em um híbrido de sensibilidade humanista e conhecimento lógico, prático e empírico. Em suas próprias palavras: “Ele se empenha na plástica do filme por intermédio da matemática”. Desprovidos de cores, os filmes do chamado “cinema nazista” trabalham exclusivamente com um jogo de luzes e sombras. As texturas conseguidas por Leni e sua imensa equipe de filmagem são resultado de fotometria calculada, de atenção total tomada em relação ao filme utilizado, as luzes disponíveis, ao ângulo e foco escolhidos, a distância do objeto sendo fotografado, a lente posta. A equipe de “O Triunfo da vontade” também inova no cinema alemão ao escolher novas posições de câmera para realizar os filmes. A diretora torna-se uma pioneira e especialista em realizar tomadas aéreas (a chegada clássica do Füher a cidade, literalmente vindo dos céus de avião, foi fotografada de maneira espetacular) e a utilizar locações. Até então a produção cinematográfica mundial, e em especial a alemã, usava predominantemente cenários e estúdios para realizar suas filmagens, recorrendo as locações apenas quando realmente necessário. A segurança dos estúdios e todo o arsenal de recursos (incluindo ai os cenários) que eles ofereciam eram o trunfo maior que o cinema tinha. A partir do momento que Riefenstahl tem de fotografar e retratar a “realidade” o seu campo é por excelência a locação, e ela usa isso em sua vantagem.

O cinema alemão estava tomado pelos ângulos obtusos, curiosos e inquietantes da escola expressionista. Os autores procuravam fugir da realidade e mergulhar no espaço onírico e fantástico do mundo de sombras e pesadelos proporcionado pela imaginação humana. O cine nazi vai diretamente contra essa tendência e procura a retratar o grandioso, o sublime, o perfeito, o organizado. Vão se os experimentalismos, consagra-se e sedimenta-se a imagem clássica, bem enquadrada, criando impacto subretudo emocional e não, como se dava nos filmes expressionistas, intelectual.


Com o advento do cinema nazista temos agora a câmera colocada de forma a captar eventos grandiosos, sua posição de “mergulho” e “contra mergulho” (com variações que podem ir, dentro do eixo vertical, de 0 a 180 graus), assim temos o engrandecimento das figuras. Multidões são orquestradas para serem vistas de cima para baixo, personalidades, de baixo para cima, tendo assim ampliadas a sua magnitude e potência. O cinema político nazista não vem para romper barreiras estéticas e narrativas, como toda propaganda, ele vem já calcado em o que é clássico, para reafirmar o que foi dito. As imagens colossais utilizadas nos filmes remetem a grandiosidade da arte greco-romana. Todo o ideal estético contido no imaginário alemão é reutilizado de forma a caber dentro de um padrão clássico facilmente reconhecível e absorvível. Ao dar voltas de 360 graus ao redor de Hitler durante um discurso Leni faz um uso pioneiro da câmera fixada em trilhos para criar a dinâmica de cena. A câmera retrata o ditador em sua potência máxima, sendo observado como uma figura articulada e em movimento. A ação não parte do objeto fotografado mas sim da própria máquina que o fotografa. Hitler é uma figura onipresente, captado em constante ação por todos os ângulos possíveis. A fluidez de movimento, foco e profundidade de campo, dadas as limitações técnicas impostas pela época, é impressionante. O fato é que Leni consegue criar uma estabilidade extraordinária, o que ressalta ainda mais aos olhos se levarmos em conta o aspecto documental do discurso, o evento histórico que se desenrolava em frente a equipe de produção sem permitir refilmagens.

Leni Riefenstahl é uma precursora do cinema grandioso, do cinema maniqueísta. Dessa forma, a mensagem moral que seus filmes passam se assemelha assustadoramente a utilizada e progressivamente sofisticada até os dias de hoje por Hollywood. Um dos maiores filmes de propaganda já feitos, “O triunfo da vontade” acaba sendo uma das marcas iniciais pela qual se consagra o épico, o perfeito, o sublime e o grandioso. Sua obra influência gerações, e seus extravagantes recursos técnicos são copiados e utilizados até hoje, para que se atinjam os mesmos efeitos visuais sobre os espectadores. Tão verdadeiro quanto assustador.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Irreversível


Algo que é notório e me chama à atenção é a apreciação do filme "Irreversível" por jovens. Em debates culturais é comum ouvir esse filme sendo colocado como um dos "favoritos" entre amantes de cinema contestador, contravensor e dito "ousado".

Todos os anos milhões de jovens entram na adolescência em nossa sociedade ocidental. Atualmente, eles se encontram viciados em uma droga que permeia todas nossas produções audiovisuais: o choque. Deslumbrados com seu poder, eles são o mercado perfeito para obras de arte que se ocupam em tentar "violentar" seu espectador.

A experiência cinematográfica não precisa ser positiva, nenhuma experiência precisa, e a arte não deve se ater a apenas discutir um tipo de experiência, e nesse sentido Irreversível cumpre bem o papel audio visual de trazer choque e desconforto. No que diz respeito a incomodar, desagradar e criar um ambiente insalubre e violento, o filme é muito bem feito e consegue fazer isso com grande eficácia.

Mas qual é, afinal, o interesse nisso?

Clique abaixo e descubra.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Enslaved - Vertebrae



Let's get to business: the tracks are made to represent what the word "majestic" was coined to do for, or maybe they made the tracks and then the word "majesty" and its variations came by, and it's just an illusion of ours that the word existed, at all, before this record was made.

I feel it's more mellow than the previous Enslaved albums. I pity the fool that say that Isa is a bad album (ok, alright, it's NOT as good as the three before that, specially before BELOW THE LIGHTS which is a god amongst albums). "As fire swept clean the earth" should be elected as the new national anthem of Norway, and we should use it's lyrics to reflect on the evil of the world and how it should be punished and vaporized before the powers of this Viking Metal act.

The distortion is not that brutal and the guitars are quite clean. The beautiful King Crimson like parts are there, it's basically a very good progressive album with brutal vocals. I am sure Jon Anderson, Chris Squire, the whole of ELOY and Robert Fripp could listen to and enjoy this music, although Fripp would boast about how he could play faster than the guitarists. Maybe he could do the solos faster, but not the (killer) metal riffs. I am sure that if someone gives REIGN IN BLOOD or VICTIMS OF A BOMB RAID to Fripp he won't be able to play it correctly.



I doubt this man can play one song from that record.

I know that non-versed-in-Enslaved mortals cringe when they see the words "progressive" and "metal" put together, that brings to their minds albums by pretentious bands with photos of band members who use Pantene Pro V shampoo and conditioning with leaf extracts on the inner sleeve of their records, and maybe covers with laughing jesters and a gigantic chessboard floating in space, which probably translates as "look, we are wild and experimental, we don't fear going into technical prowess show off territory!" and usually is about sub Dream Theater metal like bands, in other words, musical Camembert and Gorgonzola.

No, No, and once more, I will write it: No. This is not the case. Here we have a band that is as testosterone fulled as RAMBO IV. This album is beautiful and sweet, but also heavy and powerful. It is a homage to heterosexuality, but with sentiment, with love in it's dark, black heart.

The whole record can be summarized in the image of John Rambo pausing the slaughtering of hundreds of evil vietcongs, using his M60 General Purpose Machine gun to send the 'congs straight to Buddhas's lap, to pick up a beautiful flower in a southeast asian forest. A moment of bliss and poetic beauty amongst pure fucking carnageddon. I just love it when metal musicians combine both things. I remember some dork saying that Isis makes him feel "more human" in the comments of Isis's singer's blog.

Well, this record makes me feel like I am a galaxy at peace with the cosmos and at the same time I have a carving serrated knife and I will fucking rip to shreds posers who listen to Isis and try to intellectualize music that was created to worship Satan and drink beer to, and offer their dripping, warm guts to the members of Enslaved.

I think you get the picture. It's way better than Isa, also more melodic, loads of clean vocals and 70s progressive moments. Rides through the Andromeda in a horse made of fire with a sword in one hand and wine in the other are powerful images that come to my mind whilst listening to this modern classic.

Maybe a joint in one hand, or a jester puppet, or a chessboard instead of the sword, but I think you get the picture.

Overall, best metal record of the year (I haven't listened to any other metal records of this year, or of the last several years, I'm tired of any metal made in 00, except Genghis Tron, Vader and Enslaved and Morbid Angel, honestly) and best record of the year period.

Radiohead only wished they had the power of Enslaved to create music which is fucking devastating and takes over and shows who's the boss and who takes things forward. Listening to this album is better than reading "The Dark Tower", or than having lunch while watching "Everybody Hates Chris". Or than reading "The Dark Tower" while having lunch with "Everybody Hates Chris" playing on the background. Metallic textures and progressive black metal.

The best tracks are, in this order, TO THE COAST and REFLECTION. If you disagree you are wrong and doomed to be in the incorrect path for all eternity. I pity you, lost soul in a forest of darkness. Go listen to some old Riistetyt. It's the first step towards light.

Enslaved, I bow to thee.

domingo, 10 de agosto de 2008

This Blog Could be Your Life


The Ratos de Porão record of demo tapes and rarities. This is one of the oldest and longest standing Punk Hardcore bands in Brazil, and even in the world. They never broke up (notice the date of the recordings)

I came across this blog, Metal Inquisition, which deals with early 90s extreme metal, and by reading them I quickly realized that this was my life from 1990-95, with the exception that the guys at M.I. know very little about punk and hardcore (they can't tell the difference between Sore Throat and Intense Degree while listening to the Grindcrusher compilation) and they listen to, apparently, no other types of music.


The Grindcrusher compilation had everything one needed, at the time, to be "at the top of his game" regarding the most interesting intense music being made.


Ah, Sore Throat. I would never mix them up with the incredible INTENSE DEGREE. These are bands, my friends, that marked my life! I remember they (Intense Degree that is) even had a song called "Headache"in the 7" "Released" (as in "Released from Earache"?) about how bad they felt it was working with Earache. Sad. Why Can't We Be Friends? I actually asked Dig about this once and he said it would probably all be ok with them nowadays.


So I decided to tell my own story about dealing with punk and extreme music in the early 90s, and how it was to live through punk and metal in the late 80s and the 90s. Here it is.

Beginnings:

My musical background started with Pink Floyd in 1987. Basically I think I randomly decided that I would listen to Pink Floyd's THE WALL from my father's vinyl collection, a lot. He used to listen to it when I was really small, and when I was about nine or ten I decided I should have a musical taste and listen to this band over and over. This led me to go through the other Floyd albums he had: Atom Heart Mother, The Dark Side of The Moon, Ummagumma, Relics and Meddle. It was pretty much a conscious decision that I made, to like the band. Bear in mind I was very, very young and I was very much impressed by The Wall, specially because the film version of it had come out not many years before and was available as imported and bootleg VHS tapes here and there.

It's strange that such a young kid was attracted to such a painful, depressing wall of anguish that is that album, and that film. But I was, and that, I suppose, also marked my artistic choices and sensibilities.



While I wrote this I drank tea from this skull-adorned mug my mother gave me, not that long ago. When I asked her "why did you gave me a mug with a skull drawn on it?" she smiled and said "what else could I give you?".

In hindsight ("hindsight can be a terrible thing", said a friend of H.P. Lovecraft in a letter to him, and the mere fact I am quoting something related to Lovecraft tells something about my formation, interests and readings). My mother gave me a skull-mug because, through time and my references, I built up myself to be a person that likes... skulls.



Poster for the first Kiss gig in Brazil.

Newspaper article on Alice Cooper's visit to Brazil, 1974.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Cavaleiro das Trevas


Comentários gerais sobre o filme:

Pra começar, esse filme é propaganda enganosa. Não tem nada de ser "O Cavaleiro das Trevas", a história do Frank Miller escrita nos anos 80.

Ok, o original é "The Dark Knight Returns", mas mesmo assim... pilantragem. Steve Gerber, falecido esse ano aliás, já ensaiava essa desconstrução dos super heróis (aí, adoro essa palavra gente!) desde os anos 70, na verdade. Se você for mais elástico, no mundo dos quadrinhos mainstream, o filho do Duende Verde se tornando drogueiro/ganguista no Homem Aranha do final dos anos 60 já é relativamente barra pesada e "adulto", ao menos ensaia ir nesse sentido.

E isso são quarenta anos atrás.

Não acho que o filme tenha exagerado nessa coisa de ser "realista". Não foi um Asilo Arkhan, aí sim um tratado sobre a psique de personagens, ou o Piada Mortal, ou o Cavaleiro das Tevas (HQ) que é sobre memórias do Wayne, nóias, envelhecer, cheio de Flashbacks, voice overs, e enfim, reflexões sobre a identidade dele e sobre seu passado, sobre como esse o moldou, sobre tempo perdido, sobre se sentir fora de tempo e de lugar e ter construído uma identidade assim.

Não acho que explorou nada de profundamente psicológico dos personagens. O Coringa faz uns discursos-chave empolgantes e pontuais sobre caos que fazem a molecada falar "ai meu deus, como ele versa bem sobre o caos, nossa, me senti questionada gente! Chocou! Aí que louco, essa coisa né? O mundo é super caótico mesmo né turminha? Uma coisa assim imprevisível, sei lá, achei super louco! Vou até comentar com afêssora de psicologia na aula de quarta!" mas não se aprofunda nada nos aspectos psicológicos pessoais dos personagens.

Nem achei que o Wayne é muito explorado nesse sentido. Talvez o Harvey Dent... Mas achei a conversão dele para o lado negro relativamente simplista. Aceitável, ok, funciona, mas não é uma exploração psicológica da perda que leva ao comportamento anti social/desilusão/niilismo.

Não diria que o filme é simplório. Eu acho que ele simplesmente desconsidera qualquer discussão psicológica "realista" mais profunda e trata-se sim de cenas de acão com cliffhangers no final que te levam para outra, e para outra, e para outra, com quaisquer motivações como pano de fundo bem, bem em segundo plano. A cena da barca por exemplo tem um ponto de virada de expectativas legal, com o personagem fazendo o inesperado. Mas eu sequer LEMBRO por que eles estão nos barcos em primeiro lugar! 

Como eu disse, o que temos de mais desenvolvido sobre isso é o Coringa. Mas na minha percepção o que ele faz de mais sofisticado é um discurso curto, pontual, sintético, bem articulado e inteligente para impressionar o público médio, sobre a natureza devoradora do caos que todo mundo quer negar - bu! - o que pra mim é apenas um ensaio, uma introdução a uma maneira de ver o mundo que conta muito menos do que a verdadeira preocupação do filme, que é fazer um caminhão virar de ponta cabeça de forma gloriosa. 

Esse tipo e idéia impressiona o espectador médio que acha o que o Coringa disse super rebelde, chocrível, revelador. Honestamente houve momentos nos quais eu pensava "POR QUE essas pessoas todas estão brigando? Why can't we be friends? Eu nem LEMBRO por que começou essa sequência de ação". 

História, personagens e suas razões, de ser, viver e querer totalmente em segundo plano.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Interview with Alan Moore

This is an interview I made with author Alan Moore on the 28th, February 2007. It was published in Portuguese at the website Omelete, but most of Moore's readers, who speak English, couldn't read it. So, finally, here it is. It goes deeply into Lost Girls, his most recent major work, and I hope you will enjoy it. So much has been written about Moore's work that I doubt it is needed to introduce him much. Therefore I will attempt to put on a personal view as well as particular comments on how I see his work and persona.

To normal people, or non-comic book readers, Alan Moore must seem strange.

Well, even to comic book readers he seems strange. Alan Moore has got long hair, strange mystical rings, practices "magic" and says he worships a snake. Far from being stupid, he knows that this all creates a facade that impresses and also, to an extent, disappoints people. Some critics and readers won't take him seriously because of this, I suppose. The "official art world" (whatever that may be), for whom there are very limited ways to see, feel and behave about life.

It's brave, in a sense, of Moore to do that. Comic books and fantasy writing in general are victims of prejudice, and the fact he portraits himself, at least physically, pretty much as a weirdo is a bold statement that he does not care at all about these prejudiced views, and will go further into creating an unorthodox image, not minding if that displeases people who would otherwise take his work seriously and see how much he has to offer, how complex, sophisticated and rewarding his work is.

Alan obviously knows he has created a very curious image. And he likes it that people see him as a strange sort of crazy, weird genius.

It is a great image to create, a great image to live by, and a great image to be thought about, isn't it? Should be very fun, I think.

I mean, how many writers put on suits and glasses and pose looking to the horizon in photos made for the back cover of their books? Usually these are really "deep" books, written by an author said to have created a narrative that "untangles the intangible mysteries of the human soul"... or something like that.