terça-feira, 13 de agosto de 2013

Outland e o Fim da violência política em Hollywood - Spoiler-o-rama


Outland e o Fim da violência política em Hollywood - Spoiler-o-rama

Outland (1981) é um filme de Sci-Fi de Peter Hyams, estrelado por Sean Connery. Num futuro distante e indeterminado um xerife locado na lua Io, de Júpiter, enfrenta uma conspiração envolvendo dinheiro e drogas.

Apesar do Sci Fi ser muito renegado e encarado como um cinema de segunda linha, quando analisamos os contextos históricos e sócio-econômicos podemos tirar conclusões muito mais interessantes e profundas. Podemos dizer que este filme é um dos últimos suspiros do cinema violento e político da década de 70.

Joaquim Ghirotti, professor de Roteiro em cursos de graduação e pós graduação, discorre sobre o assunto e nos mostra que não existe grande distância entre o cenário social de Io futurista em Outland e do planeta terra na atualidade.
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Este vídeo artigo apresenta o contexto histórico-cultural da criação do filme Outland, dirigido por Peter Hyams, em 1981. São feitas ligações entre o surgimento da Nova Hollywood e o filme, além de se apresentar o cenário de sci-fi do final dos anos 70 nos quadrinhos adultos. Considerações sobre o surgimento das publicações Heavy Metal/Metal Hurlant e o papel de Moebius, Giger na estética e na linguagem do cinema.




 



 É discutida a apropriação da estrutura de MATAR OU MORRER de Zimmerman dentro do gênero do suspense espacial. Outlando readapta a critica da trama contra grandes corporações e a exploração capitalista desenfreada, para o contexto da sci fi. (podemos estabelecer um paralelo com a Chinesa Foxconn hoje em dia) enquanto Matar ou Morrer é um drama pessoal sobre a falta de empatia e o dilema ético de um homem que fica sozinho por principios. Os paralelos são então com o McCarthismo cinquentista.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

Django Unchained - Quentin Tarantino

Resenha de DJANGO, último filme de Quentin Tarantino. Como esse cineasta se encaixa dentro do cinema contemporâneo e quais são os limites da cinematografia de Tarantino?



Richard Corben e Ragemoor

Análise/resenha do álbum RAGEMOOR, contextualizando a carreira dos autores Jan Strnad e Richard Corben e entendendo a obra como resultado da tradição do horror de H.P. Lovecraft.



terça-feira, 27 de novembro de 2012

Hipster metal

A MALDIÇÃO DO HIPSTER METAL - UM ESTUDO EM PROFUNDIDADE


 Um hipster/deathcore boy com um corte de cabelo horrendo, alargadores igualmente horrendos que mereciam ser pescados com uma vara e puxados, e uma camiseta do Mayhem, posicionando-se de forma irônica, eclética e faceira sobre o gênero mais malvado do metal, o black metal. Tá aí um cidadão que merecia apanhar. Muito. 

Vou começar dizendo um clichê. Jamais imaginei que... Jamais imaginei que o metal extremo fosse virar algo hipster e descoladinho, sinônimo de uma espécie de intelectualidade, com um verniz obscuro e ameaçador. Mas quando as coisas chegam ao ponto do Thurston Moore entrar numa banda de black metal (coisa que ele não faria em 1992 nem sob ordem judicial), dele sequer se interessar por isso, significa que esse dia chegou. O metal extremo está sendo não só aceito, como também admirado, e produzido, por um grupo de posers.

Acabou. Fechem a loja.

Algo tem se abatido sobre o gênero músical número um de gente não sofisticada e ogra, que curte rock.
Finalmente, os hipsters descobriram o heavy metal. E se apossaram dele.

Tentando entender esse fenômeno, escrevi esse LIVRO sobre o assunto. Só entendendo algo em profundidade chegaremos a seu complicamento completo e complexo. E assim me divirto também. Começo procurando contextualizar o que é o que. O texto é longo. Mas e daí? Você está ocupado? Não, você está na INTERNET, e ninguém que está na internet está ocupado. Portanto engula o choro e leia essa porra. Acompanhem-me os fortes.

Façamos então breve definições do que é o metal, e o que é o hipster, para subsequentemente desabrochar esse RELEVANTE debate. 

Heavy metal é sobre cavalgar no cavalo da vida, seguindo, ceifando inimigos e fazendo seu próprio destino, decepando cabeças, conquistando problemas e mulheres (dois elementos que tem muito em comum, aliás). Enfim, o heavy metal é sobre viver e ser, sendo foda.

Hipsterismo é sobre ser descolado, blasê, intelectual e irônico. Entretendo sua turma com comentários e referencias sobre cultura pop. Tendo um visual style.

Estas definições estão breves. Vamos tentar dar profundidade a idéia de o que é um hipster: pessoas envolvidas em atividades culturais de "vanguarda", que procuram aquilo que é novo, e se definem através disso. O hipster também é um provocador, na verdade, um provocateur, já que alguns deles vivem na île-de-france, como veremos abaixo, e um diletante, sempre divertindo-se com aquilo que gosta, ou a o que se dedica, levando a coisa com um ar de ironia.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Death Fan Club



Na metade dos anos 90,  94, acho, comecei a escrever para a banda Death. Não tinha acesso a internet, seu uso não era lugar comum, como todos aí sabem. A paisagem online ainda era dominada por BBSs e conexões discadas. Portanto, enviei uma carta para eles na Flórida, explicando minha apreciação da banda, e rapidamente fui aceito no seu fã-clube.

O presidente era um tal de "Dan Robinson", pessoa que, depois me informou a internet, era o próprio Chuck. Como dizia o editorial do primeiro número do Zine deles, o "Metal Crusade":

ALL letters are passed onto Chuck Schuldiner, who spends time each week reading Fan Mail. The METAL CRUSADE office is based in Chuck's home town so he receives your letters immidiately. 

Como podemos ver, o Chuck mesmo lia tudo. Grande atitude do músico. Uma vez ele respondeu uma carta que meu amigo Denis Pereira mandou. Endereçou-a diretamente ao Denis. Ele, que como eu, tinha uns 17 anos na ocasião, contava para Chuck que jogava muito futebol. Chuck foi simpático e me lembro que sua carta manuscrita falava para Denis "keep up the killer soccer playing!". Palavras positivas e de um estimulo FOFO a nós, jovens ingênuos e cretinos, feitas com sinceridade por um músico que até hoje eu admiro muito. Aliás, confesso que chorei como uma menina que perdeu a sandália em um filme Iraniano quando ele morreu em 2001. O Death foi uma banda que realmente mudou minha visão de música.

 Chuck, praticando a arte de ser fofo em plenos anos 90, quando, dentro do death metal, ou você era malvado... Ou você era malvado. 

Enfim, tirei umas fotos do fanzine que ele mandava para nós, o Metal Crusade. O zine tinha diversas (e divertidas) palavras de ordem sobre o Heavy Metal (Support music, not rumors!) receitas de comida que o Chuck fazia, desenhos bacanas, e, claro, novidades sobre a banda. Também vendia camisetas (comprei uma do Individual, que depois dei para alguém, não sei quem) e canecas, além de uma espécie de espuma para não deixar a cerveja esfriar (ganhei uma dessas do Chuck, de grátis, mas um cachorro comeu). 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

UMA BREVE ANÁLISE DE CABO DO MEDO


UMA BREVE ANÁLISE DE CABO DO MEDO
De Martin Scorsese


"Cape Fear", de 1962, com Robert Mitchum e Gregory Peck

“Cabo do Medo” é uma refilmagem de um filme dos anos 60 feita por Martin Scorsese no inicio dos anos 90. Vi esse filme com meus amigos Leonardo e Denis em um cinema do centro de São Paulo na época de seu lançamento, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que o filme conta a história de um homem, Max Cady (Robert Deniro) que foi condenado a cadeia por estupro. Sua condenação se deu, se em muito, devido ao fato de que seu advogado, Sam Bowden, deliberadamente o defendeu mal, tendo consciência de que seu cliente era um estuprador. Quando finalmente solto, Cady resolve partir para a vingança, perseguindo Bowden e sua família. Aqui vou analizar algumas cenas do filme e sua construção.
            No inicio do filme, temos uma seqüência interessante de cortes marcantes com mudança de ângulo de câmera na cena em que Jessica Lange (Leigh Bowden)  está se observando no espelho, até ser abordada por Nick Nolte (Sam Bowden). A abordagem é repentina e desperta surpresa e atenção. Esse, na verdade, é a forma narrativa do filme: cortes bruscos e repentinos que levantam a atenção e deixam o espectador em um estado constante de tensão e expectativa.


    Outra cena que segue essa máxima apresenta-se na seqüência em que Sam Bowden é abordado por Robert DeNiro (Max Cady) no estacionamento, e fica claro o desconforto entre os dois personagens (nesse momento Cady finalmente se identifica como um antigo "cliente" de Bowden, e seu método de intimidação através do estabelecimento de um estado de tensão e insegurança constante tornam-se claros). Os cortes da cena são rápidos e alternam entre Cady e Bowden se observando e discutindo pacificamente, mas apenas nas superfície, pois esta claro o estado de constante tensão que se passa por debaixo das aparências. A posição de Cady, apoiando-se sobre o carro de Bowden e este inferiorizado por estar sentado (e sendo mostrado da perspectiva de Cady como menor) também informa sobre a relação entre os dois.
Com a crescente tensão do filme, os cortes tornam-se gradualmente mais bruscos. É importante notar a presença da música de Elmer Bernstein e Bernard Herrmann como agente fundamental e complementador da edição do filme (realisada por Thelma Schoonmaker, que desenvolveu parceria notoria com Scorcese ao longo dos anos). Outra cena em que o corte marca presença é quando Sam entra no escritório de seu amigo detetive e lhe pede uma arma. O corte é feito a partir de uma cena em que a porta da casa dos Bowden é batida e com o impacto somos levados ao escritório.
Temos uma interessante elipse quando Nolte, em seu escritório, atende ao telefone após ser informado de que sua esposa precisa falar com ele. Na seqüência já temos ele se dirigindo a sua casa, tenso, pois o cachorro da família foi envenenado (entretanto apenas descobrimos isso assim que ele chega). A tensão é mantida pois sabemos que algo de ruim está acontecendo, só não sabemos o que. Assim a narrativa do filme se constrói causando pequenos momentos de constante desconforto no espectador.
Quando Danny (Juliette Lewis), a filha de Bowen, sai da escola após ser "seduzida" pelo "professor de teatro" (novamente Cady) temos outra elipse, onde não podemos ver o percurso que ela fez mas sim está subentendido que ela esta voltando, e seu desespero se deve a presença e a maneira desconfortável com que Cady a tratou, alternando entre o sedutor e o perigoso.
Uma seqüência interessante onde o suspense é crescente se da quando a família prepara uma armadilha para Cady com auxílio do investigador. A tensão é constante, e seu clímax culmina nas mortes da serviçal da família e do investigador.  Trata-se de uma cena desagradável onde Bowden escorrega no sangue da vítima no chão da cozinha, e perde o controle, saindo ensandecido e dando disparos na porta da casa. O conflito se estabelece quando vemos que Cady tomou o lugar da serviçal e vai matar o investigador, sabemos disso e somos cúmplices de Cady, não podemos fazer nada assim que a tomada é cortada, ficando fadados a aguardar os resultados.
A seqüência final é grandiosa e catastrófica. Toda a tensão acumulada ao longo do filme é finalmente liberada nos minutos finais de forma grandiloqüente e apocalíptica. Ela se constrói a partir do momento em que o cenário inóspito se põe presente (um barco a beira do rio, a noite) e a tempestade crescente que se apresenta conforme a edição se torna mais ágil e fragmentada. O clímax é atingido quando temos a família a mercê de Cady, seus jogos de tortura com Sam e a alternação de ameaças a Leigh (esposa) e Danny. Temos a simulação de um julgamento de acordo com a ética doentia de Cady, que demonstra o lado falho do "herói" do filme  (Bowden). De uma forma ou de outra ele agiu errado: omitiu um fato na corte e não cumpriu seu papel moral como advogado. Ninguém é limpo de acordo com Scorsese (Bowden também flerta com uma colega de trabalho no inicio do filme, em mais uma indicação de sua dubiedade de caráter). Cady é uma lembrança disso, trás isso a tona. 


Com o clímax final temos a quebra da aparente felicidade estável da família colocada a mercê de um psicopata metódico. Bowden, algemado, está submetido aos atos de Cady que age como Júri, Juiz e Carrasco. Ele faz citações bíblicas ("Você esta condenado ao nono circúlo do inferno, o circúlo dos traidores!") dando um aspecto religioso ao martírio que impõe sobre a família. Cady é queimado por Danny, em uma cena que desperta surpresa e desconforto, mas finalmente alivio (estaremos livres dele?). Evidente que, como em todo bom thriller, as coisas não são tão fáceis assim, e o criminoso volta em um momento surpresa, agarrando Bowden e dando continuidade a atmosfera de tensão constante. Finalmente, quando o barco perde controle na tempestade temos uma alternação de cenas do barco fora de controle e a luta interior no interior dos dois personagens centrais. Tanto o barco como a câmera giram, causando a sensação de turbulência e tensão. A água e jogada mas volta, retrocede, e finalmente eles caem em uma espécie de praia.  Lá, inicia-se a luta selvagem entre os dois (chegam a usar pedras) e Cady age como a consciência de Bowden, sempre eufórico, apocalíptico. Ele é a consciência que não vai embora, nunca morre, atormenta.  Finalmente Cady afunda, lentamente, e morre. Bowden lava as mãos do sangue (sua culpa?) algo que nunca irá embora. Ele não está limpo, e Max Cady irá sempre lhe lembrar disso. 



A construção dessa seqüência é feita de forma crescente, a narrativa torna-se mais dinâmica à medida que o tempo passa e o clímax da luta final leva a um final desconfortável e inquietante. A última cena é tomada pelos  olhos inocentes (?) de Danny negativados, nos observando enquanto os observamos de volta. . "Se você vive no passado, morre um pouco a cada dia" é a frase final.     
Podemos não viver no passado, mas ele sempre será nossa sombra, sempre por perto, para nos lembrar do que somos e fizemos.



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Inglorious Basterds


Pois é meus queridos, foi aqui no ODEON de Canada Water que eu assisti a essa última peraltice ANIMADÉRRIMA do Tarantino. Fui com grandes expectativas pois já tinha lido muito sobre o filme, e sabia que não seria pouca coisa. Muitos anos atrás, em uma galáxia distante, comprei alguma revista de cinema americana (que ainda tenho) no qual Tarantino citava como uma referencia sua o grande "Where Eagles Dare". Dizia: "Sempre quis fazer um guys in a mission movie! Where eagles dare é um dos melhores filmes do mundo!". Na epoca a única platarforma tecnológica para reprodução caseira e em massa de imagens audiovisuais que existia era o VHS, e aluguei tudo que pude da lista dele. Foi logo depois de Pulp Fiction sair. Lembro que essa lista me revelou "Rolling Thunder", que me entreteu bastante lá por 93 ou 94.
Inglorious Basterds é, provavelmente, o melhor filme que o Tarantino já fez. Só não é melhor do que Pulp Fiction por que este é importante demais, históricamente. Pulp Fiction deu cara a uma geração específica dos anos 90 e marcou o mundo de posers estilosos, hipsters e frequentadores da galeria ouro-fino. Deu luz a fãs de citações, cineminha cult, intertextualidade, surf music e poseragem heroin chic. Todo um movimento pré-internet de pessoas que passeiam pelo mundo sendo indiferentes a tudo e apegadas a índices de cultura popular que "impressionam" encontrou significado nesse filme. Ele fez deu voz ao Cool. É um marco, já entrou para a história do cinema como fundador do cinema poser, cheiro de referencinhas, meio anos 70, mas ainda no seu tempo, boca suja, violentinho, todo mundo blasê, inafetado por sangue. Os personagens são, afinal, descolados e seguros demais para se importarem com alguém morrendo. Marcou... Não podemos negar, não podemos negar, meninos! E criou uma geração de seguidores, estes que fazem filmes medíocres com gangsters que fazem piadas e depois mergulham em violência e cenas chocantes. Como por exemplo o ex-Madonna, guy Ritchie; essencialmente um Tarantino inglês de segunda categoria.

Acima de tudo, seu cinema não é um cinema sobre a vida ou relações humanas, mas sim sobre o próprio Cinema, coisas que o Tarantino assistiu quando era um adolescente (periodo que nunca abandonou, aliás). É um Cinema para cinéfilos, repleto de cenas derivadas, violência e choque barato. Mas extremamente divertido. Tudo que liga as situações-citações de Tarantino é um dos mais primais acontecimentos testemunhados pelo homem: os eventos tomados por violência, que irão submeter seu espectador a excitação e prazer, mas raramente a empatia. Ou seja, Tarantino, de maneira geral, celebra valores egoístas e excessivamente preocupados com estetica. Trata-se de um cinema essencialmente pós moderno; consumista, niilista, hedonista, individualista, criado por signos, onde não se é o que se é, mas sim o que se parece, o que se veste e o que se representa, o que se tenta parecer. Acima de tudo, Tarantino faz um cinema de status. Estritamente ele é efemero e anti-intelectual, seu cinema é eminentemente voltado para a estetização e a emoção, a superficialidade. Ele não desenvolve algo genial sobre os temas que explora e não investiga os personagens que retrata e suas trajetórias com causas e consequências, qualquer que seja o tema que está explorando: a vida no crime, ser um policial, testemunhar a guerra. Nada disso importa, desde que seja pano de fundo para violência estilizada. Seus personagens não tem valores. Entropia, a destruição de valores e a confusão deles, predomina numa mistura de citações de cultura popular.

Apesar de Tarantino estar lidando com Nazistas, isso é uma mera escolha estética baseada na herança cinematográfica que ele teve como criança, assistindo filmes sobre o tema. Como ícone pós-moderno que ele é, seu cinema é eminentemente despolitizado; sua preocupação não é com a origem do Nazismo, seus efeitos, causas, consequências. Sua narrativa não se preocupa em tentar entender a mente do oficial Aldo Landa ou o trauma de Shosanna . Os Nazistas são inimigos herdados por sua infância assistindo filmes da Segunda Guerra. Sua preocupação está em explorar cenas de ação e conflito com fortes momentos emocionais e forte estilização estética. Convenientemente o Nazismo é a encarnação do mal puro no inconsciente (e no consciente) coletivo do ocidente contemporâneo, o que permite a Tarantino se dar ao luxo de alegremente torturar soldados Alemães na tela, completamente livre de qualquer sentimento de culpa, tanto para ele como artista como para o espectador.

Justificado pelas atrocidades cometidas pela Alemanha Nazista, Tarantino tem sinal verde para trucidar pessoas na tela com requintes de crueldade e ódio adolescente. Seu cinema é anti-humanista, sem preocupação nenhuma com questões morais. A escolha tampouco é patriota ou, como nos filmes de Segunda Guerra originais, voltada para a excitação da ação, da batalha. A glória de se lutar pelo país, tão bem representada por séries como "Combate" ou atores como John Wayne, não interessa a Tarantino. Estes valores se encontram abaixo de algo maior, que é a nostalgia do diretor por suas referencias cinematográficas e de uma guerra que permitia, com algum senso de justiça, crueldade com o inimigo. Seu cinema é um cinema de CENAS. Cenas que devem se tornar memoráveis, marcar a memória do espectador como sequências estéticamente bem acabadas. Pequenas momentos que importam mais do que a premissa como um todo. É um cinema sem valores, hedonista. Há a procura do prazer estético e da criação de cenas violentas. É um cinema narcisista, preocupado eminentemente com estilo, estilização e aparências.

 De qualquer forma, Tarantino resolveu botar a cabeça pra funcionar, e superou Kill Bill. Não que o filme escape de seus cacoetes, mas algo mudou. Filmes de caras numa missão tem uma tendência a apresentarem ao menos uma boa estrutura para uma aventura. Basicamente IB é uma aventura de RPG, na qual os jogadores são os Basterds e a missão deles é matar muitos nazistas, com bonus points se eles pegarem oficiais do alto escalão, claro. Aliás, QUALQUER campanha de RPG que eu já tenha jogado é melhor do que 90%, empiricamente, dos filmes de ação que eu assistí. 

A premissa já ajuda o filme a ser bom. Filme que se passa nos anos 40. Não vai dar, tanto assim, para o Tarantino fazer citações grosseiras, mergulhar em referencias a obscuros filmes asiaticos... Tem até uma cena na qual um nazista apaga um cigarro num crepe, ou torta. E se isso nao é ser cool, desencantado e estiloso, eu não sei o que é.

Ele, de certa forma, esgotou essa ideia de parodiar cinema dos outros nos Kill Bill, que são sim bons, mas convenhamos, olhem pro seus corações, examinem suas almas; são eles melhores do que assitir LOST? Não, não são. São muito melhores do que alguns episódios de Dexter? Também não. Não são nem melhores do que episódios antigos de Além da Imaginação. E quando voce faz um filme-citação que é divertido, mas não é melhor do que episódios de Star Trek, você tem problemas, meus amigos. Você esta em apuros. Mesmo que você seja um sucesso. Só não percebem isso os deslumbrados. Filme do Bruce Lee e alguns animes são melhores, mais divertidos, corpulentos e vitaminados do que Kill Bill. Por exemplo, "Vampire Hunter D" ou "Ninja Scrool". E isso é um problema, por que eles não foram tão celebrados quanto, e mereciam muito mais. O que nãoo faz um investimento em MARKETING, não é mesmo?




Tenho um VHS do "Inglorious BASTARDS" original, "O Maldito Trem Blindado", e trata-se de um filme de ação muito divertida, com cenas gigantescas e épicas, no qual um grupo de soldados Norte-Americanos tem que explodir um trem... Maldito. Bom filme, um "Dirty Dozen" espaguete, com baixo orçamento e bastante ação. Não tem NADA a ver com esse. Ou seja, ele comprou os direitos para ter o nome, já que não é uma refilmagem. 

Basterds já se inicia com uma cena muito bem montada; numa fazenda francesa, onde o malvado Nazi HANS LANDA interroga de forma inteligente e genial um fazendeiro leiteiro e suas filhas. Nesse momento Tarantino faz valer sua fama de fazer diálogos grandiosos, e a coisa atinge um clímax/conflito que irá levar de forma épica a próxima cena. Chega as raias da genialidade no crescendo das falas. O diálogo é uma inquisição perversa do NONCHALANTE Landa imputada sobre o bondoso fazendeiro, com uma maldosa parábola sobre ratos e Judeus, tudo ocorrendo enquanto uma família Judia está escondida debaixo do chão de madeira. Isso, meus amigos, é saber fazer conflito no cinema. Me mostrem cinco filmes nacionais dos últimos 30 anos que tenham uma cena assim. Não há. Em outra longuíssima cena, de 20 minutos, ele faz um inocente jogo de bêbados virar uma disputa por informações e percepções sutis em um diálogo em Alemão que se torna uma algo impressionante. Ele leva, leva e leva a tensão com o diálogo e finalmente ESTOURA tudo em uma erupção catártica de tiros e sangue que precisa ser vista para ser compreendida em sua totalidade total.


E depois desse clímax, OUTRO. Em uma nota, o diretor do que (dizem, nunca vi) é o filme HOSTEL, Eli Roth, faz um judeu forte com taco de baseball, que passeia cometendo atrocidades.


Simplesmente sen-sa-cio-nal a atriz Diane Kruger que faz a Alemã nazista Bridget Von Hammersmark. E a Shosanna Dreyfuss tambem nao fica atrás. Proprietaria de uma beleza meio Natassja Kinsky, faz uma dona de um cinema, vejam só. E é obrigada a exibir um filme Nazista da época, um filme dentro do filme, que ficou ótimo, sobre um franco atirador alemão que mandou desta para melhor umas duas centenas de aliados, em uma liberdade criativa do Tarantino que convence, entretem e enriquece tudo. Um dos Basterds inclusive é um teórico de cinema! Vive disso! Como eu! Me senti cúmplice desse personagem!

 
Michael Fassbender como o crítico de cinema Archie Hicox.

 
Mélanie Laurent é Shosanna Dreyfuss

De qualquer forma, o Atirador Alemão é ao menos parcialmente inspirado no ator Audie Murphy, que, diz a lenda, mandou dessa para melhor dezenas de soldados Alemães e virou herói nacional na década de 40. Vi em DVD o filme que ele fez sobre si mesmo, "To Hell and Back", e a fita tem o mesmo principio do filme dentro do filme do Basterds. Murphy foi o soldado Norte Americano mais condecorado existente. Outro bom (e curto) filme com ele é "A Glória de um covarde", também baseado nas confissões, no caso literárias, de um soldado, desta vez um veterano da Guerra da Secessão. Tem em DVD.

Audie Murphy e suas medalhas.  
To Hell and Back - A maior bilheteria da história da Universal até "Tubarão" de Steven Spielber ser lançado, em 1975. 

Portanto, o filme é uma campanha de RPG com você e seus amigos torturando Nazistas pela Europa, e paralelamente a historia de Shosanna e seu admirador nazista, exigindo que ela faça a premiére de seu filme em Paris. Belas cenas de Paris, sob ocupação Nacional-Socialista. 

Percebe-se, aliás, que Tarantino escreveu e reescreveu o roteiro. Existem várias tangentes narrativas que ele poderia ter seguido para a história, os cortes foram, de certa forma, meio aleatórios, e duvido, na verdade, que o clímax do filme fosse originalmente onde é. Todos os personagens tem uma sólida historia anterior, mas ele teve que se conter, ou faria uma minissérie. Todavia, toda essa informação dá envergadura ao roteiro e aos personagens. Você mal vê alguns dos Basterds, mas sabe que eles tem todo um passado que poderia perfeitamente ser explorado em uma série de TV. 

O cinema Alemão tambem é explorado, em amplas citacões. Muito nerdismo e fanboyzismo, nesse sentido, para agradar pessoas mais informadas do que vocês. Sempre me esqueço de como Tarantino despreza qualquer morte. Nenhum dos personagens se importa com gente morrendo em seus filmes, colegas massacrados e moscas são a mesma coisa, cenas de violência extrema entram e saem como se nada tivesse acontecido, e isso é irreal, imaturo, inseguro e desrespeitoso com o tema (violência). 

Apesar da violença gratuita e do poserismo de fanboy alucinadinho, apesar de tudo isso, o filme tem guys in a mission na Segunda Guerra Mundial, objetivo claro, Nazistas sendo escalpelados, final apocalíptico com gargalhadas fantasmagoricas e, finalmente, adentrando a filmografia de Tarantino, uma cena de morte bonita e LÍRICA, emocionante, épica! Com trilha do Ennio Morriconne! Tarantino mostra que não é apenas um californiano cínico, comedor de cheetos, que ficou vendo filme de kung fu em locadora. Mostra que tem um coração! E que entende amor, dor, traição e perdão. 

Ou, ao menos, consegue fazer um simulacro do que viu destes temas em outros filmes. Excelente cena de morte. 

Assistam, são 3 horas que passam rápido. É uma mistura de "Where Eagles Dare" com filme do Ettore Scola e pinceladas de "Cinema Paradiso". O clímax é glorioso, épico, e é a coisa mais anti-alemã que ja vi na vida. Preencheu minhas expectativas, e me surpreendeu. Sejam fanboys e vejam.

sábado, 29 de agosto de 2009

FLIP 2008


FLIP 2008

Com grande atraso, mais de um ano, venho comentar a FLIP de 2008. Encontrei alguns papéis que usei para anotar coisas que vi naqueles três dias. Foram três excelentes dias, aliás. Paraty revelou-se um lugar muito agradável, e assim também foi quando retornei lá com meu amigo germânico Manuel Rickert, no final do mesmo mês de Julho. Aparentemente ele também gostou muito.

É revigorante estar entre pessoas que lêem, estando no Brasil. Clichê dizer isso, mas a FLIP é um evento bom para se conhecer pessoas e entrar-se em contato com idéias novas, boa diversidade de autores e as mesas sempre trazem idéias instigantes.

Em uma nota completamente não-relacionada com a FLIP, estava eu lendo uma crônica utilizada por amigos para a feitura de um curta metragem, aliás muito bem fotografado, quando comecei a pensar sobre o oficio de escritor. A crônica é do Luís Fernando Veríssimo, escritor por qual tenho grande admiração (apesar de ter lido pouco, as crônicas dele me parecem muito sinceras, simples, diretas) e versa sobre um escritor dizendo algo sobre escrever. Diz ele que o verdadeiro escritor, quando já disse tudo o que tinha para dizer, se mata. Se não, não escrevia. Escreve para expurgar os livros de dentro de si. No final, ele decide não terminar a carta de suicídio/texto que estava escrevendo pois afinal, isso implicaria em que ele tivesse que cometer suicídio. Sensacional essa hein? Vocês não viram ela chegando!

Outra imagem do que é o centro histórico dessa sensacional cidade, meus amigos. Paraty!

Essa coisa de querer colocar algo gênial para os outros lerem é uma característica da literatura. "Tenho que passar uma mensagem, tenho que ser sofisticado". Um bocado chato e pedante isso, no final das contas. O Veríssimo é bom ok, tá, o cara é demais. Mas essa idéia de que "o verdadeiro escritor se mata depois de terminada a sua obras" e frases (ou idéias) de efeito do tipo são chatas e pseudo-profundas. Isso simplesmente não é verdade. Você pode achar que é verdade se tem uma profundidade emocional/intelectual televisiva, novelesca, da vida.

Está claro que em nada se equipara a complexidade de, digamos, Hardware do Richard Stanley, aí sim, uma verdadeira meditação sobre a vida.

Aqui está um trailer não oficial deste filme:



De qualquer forma, outras variações da arte, como a música, não se tornam obcecadas em querer explicar para os outros como viver a vida, apesar de poderem conter grande sofisticação. Música é assim.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Hoje eu me apaixonei por seis minutos

22/11/2007

Estava eu caminhando em um poético e bonito pôr-do-sol alaranjado de fim de tarde quando atingi meu destino: a prosaica festa de livros da USP.

Os pores-do-sol da USP são bonitos. Lá o terreno é mais plano do que na maior parte de São Paulo, e dá para ver o horizonte. Algo que sempre me emociona e me espanta quando saio dessa cidade, onde quase sempre vivi.

Solitário, começo a ver os livros. Aquela coisa sensacional, milhares deles, tudo, tudo tão interessante que dá vontade de ler pra sempre.

Estava me amaldiçoando por não ter pego uma blusa (já que tenho sentido cada vez mais frio ultimamente; eu era bem resistente quando criança e adolescente) já que a brisa de fim de tarde arrepiava meus braços, quando adentrei aquele enorme vão do saudoso prédio da História e da Geografia, lugar de profunda sabedoria e conhecimento! Ah sim! Muito! Lugar onde, afinal, passei quatro anos e meio da minha vida.

Lugar que me deu o diploma que ostento orgulhosamente no escuro da minha gaveta de escrivaninha, lugar onde assinei um documento me comprometendo apenas fazer pesquisa histórica em nome da justiça e do progresso humano! Um lugar cheio de curvas, sombras e memórias que jamais irão fugir de minha mente de de meu coração! Lugar onde aprendi, amei, chorei, transei e ri.

Quase uma novela.

Solitário, começo a ver os livros. Aquela coisa sensacional, milhares deles, tudo, tudo tão interessante que dá vontade de ler pra sempre.

Também sou possuído por uma vontade de fazer uma magia que fizesse com que aquela montanha de gente desaparecesse para que eu possa alcançar os livros com maior facilidade.

Ao mesmo tempo ondas nostálgicas de ter ido em todas as festas do livro, desde a primeira, no ano em que entrei na USP, e de tudo que vivi naquele prédio, se apossam de mim.

São muitas emoções, gente!

Caminhando entre estudantes hippies, um gordo metaleiro com uma camiseta do DIO e professores, vou direto ao stand da Conrad, onde preciso pegar alguns volumes para completar coleções de livros e quadrinhos.

Ah! GordecamisetadoDio! Membros dessa espécie, normalmente jogadores de RPG, são comunmente vistos na USP e são espéciemes belos da fauna da Universidade. Devem ser preservados. Habitualmente virgens, são bons de papo e entendem de mitologias Européias e sabem muito sobre torrents pornôs em evidência.

Uma senhora pergunta a um vendedor: "O senhor tem livros de arte?" e ele responde: "É que aqui nós consideramos quadrinhos arte". Ela diz "Ah, tá" e vai embora.

O vendedor tem tatuagens de símbolos que eu vejo em academias de Yoga nos dois antebraços.

Que prazer tenho ao ver a figura de Conan estampada na capa das edições dos volumes I e II das sagas do cimério que, eu não sabia, foram lançadas aqui!

Acredito que o perfil de toda minha fonte de prazer na vida determinou-se até meus 15, 16 anos.
Ou seja, sou um nerd infantil.

Mas isso não vem ao caso.

O que vem ao caso é que....

Estou lá, desavisado, com os olhos passando por imagens de Mangás, desenhos de Robert Crumb e figuras do Sandman... Quando vejo a loirinha.

A loirinha é "inha" na medida em que esse diminutivo proporciona as mais delicadas qualidades a moça. É meio brega, beirando o babaca falar isso. Mas ela não era uma loira.

Ela era uma loirinha.

A primeira coisa que sinto é vontade de abraçar e proteger ela.

Estava usando um moleton azul marinho antigo e puído, calça jeans e tênis All Star. O cabelo estava preso pra trás com fivelas bonitas e escuras, mas escorria pelos ombros, em ondas de amarelo e castanho claro. Seu olho é de um castanho muito claro.

Ela está folheando o livro do Lester Bangs, "Reações Psicóticas".

Me apaixonei.

Durou uns seis minutos.

Decidi que deveria dilatar aquele momento o máximo possível, e fiquei folheando um livro de ficção científica ao lado dela, bebendo sua beleza com os meus olhos. Sua beleza intimidadora nunca escapando de minha visão periférica.

Quando ela se decidiu, parou de ler.

Fechou o livro, colocou a mão na bolsa e de dentro dela tirou uma carteirinha de plástico transparente, antiga,, com dinheiro; umas poucas notas visíveis através do plástico translúcido.

Fiquei imaginando onde ela arranjou aquela carteirinha, se ela ganhou de uma amiga, se comprou numa loja de 1,99, e há quanto tempo tinha ela.

Imaginei onde ela deixa a carteira quando chega em casa. Talvez em cima da mesa? Do lado da cama? Pensei que queria estar com ela quando ela escolheu comprar a carteira.

A carteira era um pedacinho de plástico que parecia frágil e pequenininho, assim como ela é loirinha. Não era uma carteira grande da Louis Vuitton, um objeto arrogante, ostentador, deselegante, inseguro, vulgar.

Era um saquinho de plástico que combinava com ela ser loirinha e gostar de algo simples.
Desejei que a mente dela fosse transparente como o plástico da carteira, para que eu pudesse saber de tudo que ela gosta e fazer pra ela.

De relance, olhei o lado do seu rosto, ela estava olhando para algo a direita e com parte da nuca virada pra mim, seu rosto fazia uma curva bonita escondendo seu nariz, enfim, eu via só sua bochecha. Era macia e fofinha. Dava para ver os pelinhos no rosto dela, transparentes. Como a carteira.

E tinha uma pintinha pequena, clara.

Ela esticou a mão para a esquerda e pegou outro livro, algo sobre um fumador de ópio, mas não era o do DeQuincey, que vejo pra vender em bancas, em edição da L&PM.

Com uma voz muito, muito baixinha, ela perguntou o preço dos livros ao vendedor. Ele consultou uma tabela e disse, e ao invés de responder, ela apenas assentiu com a cabeça e deu os livro a ele. Começou a separar o dinheiro.

As unhas dela eram pequenas e curtinhas, sem pintura, transparentes como a carteira. Os dedos eram finos e delicados, como de uma criança.

Eu deveria ter chegado junto, e na melhor tradição do xaveco instantâneo falado: "O Bangs falando sobre Van Morrisson nesse livro é demais"

Ou ainda, dito: "Adorei sua carteirinha de plástico, seu moletom antigo e seu All Star, você é tão simples e bonita quanto uma flor, dá vontade de te abraçar e sentir seu aroma e beijar sua bochecha. Posso?"

Mas decidi não fazer nada.

Ela pagou, deu as costas a mim saiu pela saída ao lado da antiga biblioteca, sendo consumida pelas sombras do fim-da-tarde. O sol não estava mais lá.

Vi seu All Star e sua calça jeans - no tamanho exato para o corpo dela - desaparecendo e fiquei triste.

Para ela, foi só mais um dia, mas para mim, ela está imortalizada aqui.

Provavelmente ela é, e sempre vai ser, muito mais bonita na minha memória do que na verdade.

Mas é assim que eu quero que seja.


domingo, 3 de maio de 2009

Virada Cultural

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Hoje fui ao centro prestigiar a Virada Cultural, evento anual já bem sedimentado no calendário de São Paulo, onde o centro da cidade fecha e dezenas (centenas?) de atividades culturais tomam conta das ruas. Alguém teve o bom-gosto de programar uma sessão de 24hs de exibições de filmes com mortos vivos e zumbis, no cine Dom José. Agradeço ao prefeito Kassab por ter apoiado e endossado essa proposta. Fui no cinema com uma amiga e vi de uma vez só Noite, Manhã e Dia dos Mortos, a trilogia completa do George A. Romero sobre mortos vivos, que iniciou a avalanche de filmes sobre esse tema na história do cinema. Estes filmes simplesmente criaram um novo gênero dentro do horror e são clássicos absolutos. Assistimos tudo na sequência, com apenas pequenos intervalos entre um filme e outro. Como estava muito cansado, dormi um pouco durante Manhã e Dia. Foi incrível, e fazia tempo que não via uma sessão de cinema assim. Sala totalmente lotada, não via isso há anos; pessoas sentadas no chão, e todos aplaudindo tanto a cada zumbi morto como a cada personagem protagonista que morria também, com o público indeciso, aparentemente, sobre quem gostaria de apoiar, ou simplesmente feliz demais em ver cenas de violência que não podem ser levadas à sério, todos embebidos na bruma intoxicante da Jornada Cultural, onde as ruas não tem carros e estão tomadas por pessoas... Muito como uma cidade tomada por mortos-vivos, aliás! A primeira sessão, de Noite, começou as duas da manhã, com barulho absoluto do público. Algumas pessoas tentaram pedir silêncio, mas foi impossível. Toda sessão foi comentada e discutida pela platéia, permeada por gargalhadas, risadas, assovios e gritos. Enquanto a personagem Barbara fugia entre as lápides do cemiterio, e seu irmão caçoa de seu medo falando "Barbara eles estão vindo pega-la", pessoas na sala sugeriam a Barbara alternativas e saídas, em voz alta, conversando com o personagem, convidando Barbara a desde agredir o irmão a praticar atos libidinosos com ele. "Foge Barbara", "Soca esse palhaço Barbara", "Tu é babaca, Barbara", foram apenas alguns das dezenas de comentários que escutei. Quando acabou Manhã saímos e fui na lanchonete da frente comprar um suco de Melancia. Estava de dia já, céu azulado frio de manhã entrecortando os prédios antigos do centro, da rua Dom José de Barros, e já vi que para Dia dos Mortos havia uma fila gigantesca de pessoas, começava no meio da Dom José e ia até a Avenida São João, muita gente. Re-entramos na fila, cercados de góticos, punks, bêbados e metaleiros e assistimos o Dia.

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O filme é tomado por cenas claustrofóbicas, com um grupo de pessoas preso dentro de um abrigo militar, submetidos as ordens ditatoriais do Capitão Rhodes, que gradualmente tortura mais e mais, tanto fisicamente quanto psicológicamente, as pessoas que o cercam, levando o filme e os protagonistas a novos níveis de tensão e desespero confinado... Cochilei. Acordei com o cinema inteiro entrando em erupção de aplausos quando Rhodes (interpretado com excelente canastrice por Joseph Pilato) é despedaçado por Zumbis, tem suas entranhas e membros arrancados por um exército de mortos vivos, que se alimentam de sua carne em cenas que embalaram a geração GORE oitentista, a qual pertenço, e que ilustrou tantas edições da revista Fangoria. Essa sequência é uma verdadeira pausa na narrativa para que os Zumbis façam seu lanche antropofágico. Ao nosso redor, gente gritando, assobiando e correndo pelos corredores em celebração gore-nefasta-profana. Toda a projeção parecia com gente assistindo as famosas sessões do cult Rocky Horror Picture Show em Nova Iorque nos anos 70 e 80; pessoas comentando o a trama, dialogando com os personagens, tirando uma porrada de fotos dentro do cinema. Os flashes não paravam de embranquecer a tela, e teria sido proveitoso se tivessemos uma câmera para poder ilustrar melhor essa postagem. Quando o personagem do Duane Jones dava um golpe em algum zumbi, durante Noite, ouvi um grito: "Olha o Obama distribuindo sopapo!".

 
 Uma cena de pessoas participando de Rocky Horror Picture Show.

Obama? OBAMA? 

 Outro momento no qual o cinema emergiu em gritos, apitos e aplausos foi quando, em Noite, Barbara (Judith O'Dea, aliás, muito bonita e recentemente de volta as telas em filmes depois de muitos e muitos anos sem fazer nada) está dando chilique e Jones da um tapa na cara dela para que ela se controle. O machista Brasileiro não se conteve e o Cinema inteiro virou um show de rock, com assobios, risadas, apitos e gritos histéricos. É curioso como os filmes são diferentes: Noite é claramente um filme B, feito com poucos recursos, alguns "jump cuts" que quebram continuidade, cenários relativamente pobres, efeitos simples. Mesmo assim, é um filme visceral e extremamente atmosférico, que jamais perde tensão e sempre apresenta novos conflitos. Extremamente violento para a época na qual foi feito, ele deixa muito clara a arquitetura que seria utilizada dalí em diante para centenas de filmes com mortos vivos que o copiam até hoje. Romero criou na verdade um formato muito simples que provou poder ser super utilizado, a perspectiva básica é: "um grupo de pessoas cercados por mortos vivos canibais". E isso funciona para tantos filmes há tanto tempo que transformou-se em um subgênero. Essa prova apenas endossa minha teoria de que formatos simples se prestam para se explorar, com criatividade, qualquer tema, desde que você respeite as regras básicas do que está fazendo. Manhã é um filme melancólico e mais pausado. Muito diferente da refilmagem de Zack Snyder, que, me parece, só apreveitou mesmo a premissa de um grupo de pessoas confinado num shopping center cercados de zumbis. Toda a dinâmica entre os personagens é alterada aqui. É um filme sem esperança e sem conclusão, que tenta entender a solidão e o horror dos personagens. Gostei particularmente do final, não via esse filme há muitos e muitos anos, e não me lembrava que ele ia, em seu clímax, de um niilismo total para um rastro de esperança, em um bem colocado ponto de virada. Funciona muito bem, e a tomada final chega a ser poética. Em termos estéticos, o que pior envelheceu foi Dia dos Mortos. A trilha sonora é feita de um eletrônico cafona oitentista que tira um pouco atenção da trama, e prejudica a "suspensão da descrença", hoje em dia. Tive o mesmo problema com Expresso para o Inferno, que revi recentemente, devido também a sua trilha. É um filme um pouco histérico (os personagens gritam desesperados uns com os outros o tempo todo, suponho, para manter a tensão da trama) e possivelmente pessimista. Temos os personagens mais odiosos da trilogia original nesse filme. Egoísmo, maldade e traição são os temas explorados, enquanto um grupo de militares tenta sobreviver em uma espécie de bunker subterrâneo. Também é o mais violento dos três filmes da trilogia, e de certa forma o mais arrastado. Explora boas idéias em relação a como o cientista, uma figura que não aparece nos outros dois (a voz da ciência) se relaciona com e vê os zumbis, que acabam tendo seu comporamento alterado por essa relação.

 

O público se emocionou de forma tocante com esta cena de singular poesia e sensibilidade, na qual o Capitão Rhodes (Joe Pilato) tem a si apresentada uma nova perspectiva de sua existência. Queria ficar pra ver mais, mas não aguentava. A sessão de filmes de zumbi corria 24hs, até as 18 de hoje, com a exibição do filme Extermínio de Danny Boyle, aliás ganhador do último Oscar de melhor filme com seu Quem quer ser um milionário?, que ainda não vi. Saímos da sala as oito da manhã, uma sensação estranha sair do cinema, novamente, de manhã, e tomei mais um suco. Olhei pra nova fila que se formava para ver A volta dos mortos vivos – Parte 2 (um filme em nada relacionado com Romero, apenas com o conceito de mortos vivos) e comentei "pô, bem que diminuiu". Daí percebi que dessa vez a fila descia para a 24 de Maio, fazia a curva lá embaixo e continuava indo pra galeria. Esse povo não tem o que fazer? 

Foi muito legal, não ia numa sessão de cinema tão legal desde o começo dos anos 90. Parabéns aos organizadores da virada cultural e aos donos do Cine Dom José, que cederam o espaço para o evento. Aliás andei lendo sobre o Dom José é trata-se de uma sala antiga (com um belo balcão superior, fechado atualmente) fundada no anos 50 sob a alcunha de "Cine Jussara". Parece que foi o primeiro cinema a passar filmes da Nouvelle Vague em São Paulo, justamente trazendo a vanguarda Francesa para São Paulo. Em matérias on line vi que os proprietários do cinema consideraram a noite de Sábado um sucesso, e gostariam muito de trazer para a sala novos eventos parecidos. Seria muito proveitoso. A sala é bonita, antiga e lembra a São Paulo de velhos tempos, e ter um cinema voltado para ciclos específicos no centro seria algo muito bem vindo ao mapa da cidade.