domingo, 3 de maio de 2009

Virada Cultural

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Hoje fui ao centro prestigiar a Virada Cultural, evento anual já bem sedimentado no calendário de São Paulo, onde o centro da cidade fecha e dezenas (centenas?) de atividades culturais tomam conta das ruas. Alguém teve o bom-gosto de programar uma sessão de 24hs de exibições de filmes com mortos vivos e zumbis, no cine Dom José. Agradeço ao prefeito Kassab por ter apoiado e endossado essa proposta.

Fui no cinema com uma amiga e vi de uma vez só Noite, Manhã e Dia dos Mortos, a trilogia completa do George A. Romero sobre mortos vivos, que iniciou a avalanche de filmes sobre esse tema na história do cinema. Estes filmes simplesmente criaram um novo gênero dentro do horror e são clássicos absolutos. Assistimos tudo na sequência, com apenas pequenos intervalos entre um filme e outro. Como estava muito cansado, dormi um pouco durante Manhã e Dia.

Foi incrível, e fazia tempo que não via uma sessão de cinema assim. Sala totalmente lotada, não via isso há anos; pessoas sentadas no chão, e todos aplaudindo tanto a cada zumbi morto como a cada personagem protagonista que morria também, com o público indeciso, aparentemente, sobre quem gostaria de apoiar, ou simplesmente feliz demais em ver cenas de violência que não podem ser levadas à sério, todos embebidos na bruma intoxicante da Jornada Cultural, onde as ruas não tem carros e estão tomadas por pessoas... Muito como uma cidade tomada por mortos-vivos, aliás!

A primeira sessão, de Noite, começou as duas da manhã, com barulho absoluto do público. Algumas pessoas tentaram pedir silêncio, mas foi impossível. Toda sessão foi comentada e discutida pela platéia, permeada por gargalhadas, risadas, assovios e gritos. Enquanto a personagem Barbara fugia entre as lápides do cemiterio, e seu irmão caçoa de seu medo falando "Barbara eles estão vindo pega-la", pessoas na sala sugeriam a Barbara alternativas e saídas, em voz alta, conversando com o personagem, convidando Barbara a desde agredir o irmão a praticar atos libidinosos com ele. "Foge Barbara", "Soca esse palhaço Barbara", "Tu é babaca, Barbara", foram apenas alguns das dezenas de comentários que escutei.

Quando acabou Manhã saímos e fui na lanchonete da frente comprar um suco de Melancia.

Estava de dia já, céu azulado frio de manhã entrecortando os prédios antigos do centro, da rua Dom José de Barros, e já vi que para Dia dos Mortos havia uma fila gigantesca de pessoas, começava no meio da Dom José e ia até a Avenida São João, muita gente.

Re-entramos na fila, cercados de góticos, punks, bêbados e metaleiros e assistimos o Dia.

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O filme é tomado por cenas claustrofóbicas, com um grupo de pessoas preso dentro de um abrigo militar, submetidos as ordens ditatoriais do Capitão Rhodes, que gradualmente tortura mais e mais, tanto fisicamente quanto psicológicamente, as pessoas que o cercam, levando o filme e os protagonistas a novos níveis de tensão e desespero confinado...

Cochilei.

Acordei com o cinema inteiro entrando em erupção de aplausos quando Rhodes (interpretado com excelente canastrice por Joseph Pilato) é despedaçado por Zumbis, tem suas entranhas e membros arrancados por um exército de mortos vivos, que se alimentam de sua carne em cenas que embalaram a geração GORE oitentista, a qual pertenço, e que ilustrou tantas edições da revista Fangoria.

Essa sequência é uma verdadeira pausa na narrativa para que os Zumbis façam seu lanche antropofágico. Ao nosso redor, gente gritando, assobiando e correndo pelos corredores em celebração gore-nefasta-profana.

Toda a projeção parecia com gente assistindo as famosas sessões do cult Rocky Horror Picture Show em Nova Iorque nos anos 70 e 80; pessoas comentando o a trama, dialogando com os personagens, tirando uma porrada de fotos dentro do cinema. Os flashes não paravam de embranquecer a tela, e teria sido proveitoso se tivessemos uma câmera para poder ilustrar melhor essa postagem. Quando o personagem do Duane Jones dava um golpe em algum zumbi, durante Noite, ouvi um grito: "Olha o Obama distribuindo sopapo!".



Uma cena de pessoas participando de Rocky Horror Picture Show.

Obama? OBAMA?

Outro momento no qual o cinema emergiu em gritos, apitos e aplausos foi quando, em Noite, Barbara (Judith O'Dea, aliás, muito bonita e recentemente de volta as telas em filmes depois de muitos e muitos anos sem fazer nada) está dando chilique e Jones da um tapa na cara dela para que ela se controle. O machista Brasileiro não se conteve e o Cinema inteiro virou um show de rock, com assobios, risadas, apitos e gritos histéricos.

É curioso como os filmes são diferentes: Noite é claramente um filme B, feito com poucos recursos, alguns "jump cuts" que quebram continuidade, cenários relativamente pobres, efeitos simples. Mesmo assim, é um filme visceral e extremamente atmosférico, que jamais perde tensão e sempre apresenta novos conflitos. Extremamente violento para a época na qual foi feito, ele deixa muito clara a arquitetura que seria utilizada dalí em diante para centenas de filmes com mortos vivos que o copiam até hoje.

Romero criou na verdade um formato muito simples que provou poder ser super utilizado, a perspectiva básica é: "um grupo de pessoas cercados por mortos vivos canibais". E isso funciona para tantos filmes há tanto tempo que transformou-se em um subgênero. Essa prova apenas endossa minha teoria de que formatos simples se prestam para se explorar, com criatividade, qualquer tema, desde que você respeite as regras básicas do que está fazendo.

Manhã é um filme melancólico e mais pausado. Muito diferente da refilmagem de Zack Snyder, que, me parece, só apreveitou mesmo a premissa de um grupo de pessoas confinado num shopping center cercados de zumbis. Toda a dinâmica entre os personagens é alterada aqui. É um filme sem esperança e sem conclusão, que tenta entender a solidão e o horror dos personagens. Gostei particularmente do final, não via esse filme há muitos e muitos anos, e não me lembrava que ele ia, em seu clímax, de um niilismo total para um rastro de esperança, em um bem colocado ponto de virada. Funciona muito bem, e a tomada final chega a ser poética.

Em termos estéticos, o que pior envelheceu foi Dia dos Mortos. A trilha sonora é feita de um eletrônico cafona oitentista que tira um pouco atenção da trama, e prejudica a "suspensão da descrença", hoje em dia. Tive o mesmo problema com Expresso para o Inferno, que revi recentemente, devido também a sua trilha. É um filme um pouco histérico (os personagens gritam desesperados uns com os outros o tempo todo, suponho, para manter a tensão da trama) e possivelmente pessimista. Temos os personagens mais odiosos da trilogia original nesse filme. Egoísmo, maldade e traição são os temas explorados, enquanto um grupo de militares tenta sobreviver em uma espécie de bunker subterrâneo. Também é o mais violento dos três filmes da trilogia, e de certa forma o mais arrastado. Explora boas idéias em relação a como o cientista, uma figura que não aparece nos outros dois (a voz da ciência) se relaciona com e vê os zumbis, que acabam tendo seu comporamento alterado por essa relação.


O público se emocionou de forma tocante com esta cena de singular poesia e sensibilidade, na qual o Capitão Rhodes (Joe Pilato) tem a si apresentada uma nova perspectiva de sua existência.

Queria ficar pra ver mais, mas não aguentava. A sessão de filmes de zumbi corria 24hs, até as 18 de hoje, com a exibição do filme Extermínio de Danny Boyle, aliás ganhador do último Oscar de melhor filme com seu Quem quer ser um milionário?, que ainda não vi. Saímos da sala as oito da manhã, uma sensação estranha sair do cinema, novamente, de manhã, e tomei mais um suco. Olhei pra nova fila que se formava para ver A volta dos mortos vivos – Parte 2 (um filme em nada relacionado com Romero, apenas com o conceito de mortos vivos) e comentei "pô, bem que diminuiu".

Daí percebi que dessa vez a fila descia para a 24 de Maio, fazia a curva lá embaixo e continuava indo pra galeria.

Esse povo não tem o que fazer?

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Foi muito legal, não ia numa sessão de cinema tão legal desde o começo dos anos 90.

Parabéns aos organizadores da virada cultural e aos donos do Cine Dom José, que cederam o espaço para o evento. Aliás andei lendo sobre o Dom José é trata-se de uma sala antiga (com um belo balcão superior, fechado atualmente) fundada no anos 50 sob a alcunha de "Cine Jussara". Parece que foi o primeiro cinema a passar filmes da Nouvelle Vague em São Paulo, justamente trazendo a vanguarda Francesa para São Paulo.

Em matérias on line vi que os próprietarios do cinema consideraram a noite de Sábado um sucesso, e gostariam muito de trazer para a sala novos eventos parecidos. Seria muito proveitoso. A sala é bonita, antiga e lembra a São Paulo de velhos tempos, e ter um cinema voltado para ciclos específicos no centro seria algo muito bem vindo ao mapa da cidade.