terça-feira, 28 de agosto de 2012

Death Fan Club


Na metade dos anos 90,  94, acho, comecei a escrever para a banda Death. Não tinha acesso a internet, seu uso não era lugar comum, como todos aí sabem. A paisagem online ainda era dominada por BBSs e conexões discadas. Portanto, enviei uma carta para eles na Flórida, explicando minha apreciação da banda, e rapidamente fui aceito no seu fã-clube.

O presidente era um tal de "Dan Robinson", pessoa que, depois me informou a internet, era o próprio Chuck. Como dizia o editorial do primeiro número do Zine deles, o "Metal Crusade":

ALL letters are passed onto Chuck Schuldiner, who spends time each week reading Fan Mail. The METAL CRUSADE office is based in Chuck's home town so he receives your letters immidiately. 

Como podemos ver, o Chuck mesmo lia tudo. Grande atitude do músico. Uma vez ele respondeu uma carta que meu amigo Denis Pereira mandou. Endereçou-a diretamente ao Denis. Ele, que como eu, tinha uns 17 anos na ocasião, contava para Chuck que jogava muito futebol. Chuck foi simpático e me lembro que sua carta manuscrita falava para Denis "keep up the killer soccer playing!". Palavras positivas e de um estimulo FOFO a nós, jovens ingênuos e cretinos, feitas com sinceridade por um músico que até hoje eu admiro muito. Aliás, confesso que chorei como uma menina que perdeu a sandália em um filme Iraniano quando ele morreu em 2001. O Death foi uma banda que realmente mudou minha visão de música.

 Chuck, praticando a arte de ser fofo em plenos anos 90, quando, dentro do death metal, ou você era malvado... Ou você era malvado. Na verdade você poderia ser épico e ridículo e tocar no Savatage também. Acho. Tinha Savatage nos anos 90? Como alguém pode levar Running Wild e Grave Digger à sério? Sinceramente. E falo da música mesmo. Completamente horrível. Me sinto imbecil escutando essas bandas.

Enfim, tirei umas fotos do fanzine que ele mandava para nós, o Metal Crusade. O zine tinha diversas (e divertidas) palavras de ordem sobre o Heavy Metal (Support music, not rumours!) receitas de comida que o Chuck fazia, desenhos bacanas, e, claro, novidades sobre a banda. Também vendia camisetas (comprei uma do Individual, que depois dei para alguém, não sei quem) e canecas, além de uma espécie de espuma para não deixar a cerveja esfriar (ganhei uma dessas do Chuck, de gratis, mas um cachorro comeu). 

Ainda tenho os adesivos do fã clube, e eles mandavam fotos autografadas dos membros, o que era muito bacana e estimulante para nós, fãs deslumbrados adolescentes. Relendo esses zines, fico feliz de ver como o Chuck tentava transmitir a imagem de alguém positivo e produtivo, em contraste com o metal extremo da época, que parecia se dividir cada vez mais entre o death metal brutal que surgia (capitaneado por bandas como Deeds of Flesh, Disgorge e afins) e o black metal que tomava a Europa através das igrejas queimadas por Euronymous, Varg e outros fofos cavaleiros negros, todos vindos do estado de bem-estar e da social-democracia, esse sistema que tira problemas das vidas das pessoas, e os substitui por tédio e equivocos juvenis.

Os Norugueses merecem um aparte: Incrível como morar no lugar com o melhor IDH do planeta, e eleito o "país mais pacífico do mundo" pelo Índice Global da Paz leva as pessoas a precisarem aquecer toda essa frieza do coração negro botando fogo em igreja. Deve ser uma dureza grande viver numa terra com taxa de homicído de 0.72 a cada 100.000 pessoas (taxa do Brasil: 25), ganhando seguro desemprego e plena assistência social.

Na verdade, essas coisas por si não querem dizer muito, e acredito que muito do clichê de que o frio, o tédio e a falta de uma razão para se viver levam esses jovens lokos a procurar na violência e na arte agressiva um sentido para suas vidas. Fazer rock pesado não tem necessariamente nada a ver com você estar ou não fodido financeiramente. Pode-se perfeitamente criar-se arte necrochorúmica sendo-se um nobre, um burguês, um milionário. Shakespeare não era nada pobre e escreveu Titus Andronicus, que tem cenas de assassinato de arrepiar a rapeize. Jacques Callot desenhou monstros horrendos no século XVII, Rubens fez Saturno devorando seu filho, Grunewald fez a tentação de Santo Antônio em 1515, e ele definitivamente não era mendigo. O rock nasceu, floresceu e acontece de verdade em países ricos. Logo, a associação de que "você tem que ser um fodido na vida para expressar algo sobre o lado negro" é babaquice, possivelmente herança do Marxismo Cultural a qual estamos submetidos.


A tentação de Santo Antônio - Grunewald

O grande problema está em cretinos tentando procurar "ideologia" em algo tão superficial quanto rock. O rock é uma criação da indústria cultural feita para vender discos, roupas, cortes de cabelo e um posicionamento "rebelde" feito para se opor ao status quo. Nos sessenta mirins anos da invenção dessa variação musical feita para mancebos, não surgiu e não surgirá NADA em encartes de discos e discursos de jovens cabeludos/desgrenhados que irá mudar qualquer questão humana significativamente. É lamentável e patético ver gente procurando o sentido da vida na "ideologia" do Varg Vikernes, um METALEIRO Norueguês cuja profunda formação intelectual está em crescer jogando RPG de horror e escutando Bathory. Pensadores, filófosos, cientistas sociais e acadêmicos vem estudando como organizar a vida humana e como encarar a existência desde que o homem é homem, com variados graus de sucesso.

 Atenção moçada, vou lhes dar uma dica: NÃO VAI SER um metaleiro da Noruega que vai indicar nada de interessante sobre o ser humano, em NENHUM aspecto dele. Não existe "ideologia" no rock. Existem letras superficiais com palavras de ordem e declarações bombásticas feitas para impressionar mentes incautas e novatas. A coisa sempre se resumiu, e sempre se resumirá a isso, e ponto final. A única coisa que realmente é desenvolvida nessa merda é a música. Não existe "ideologia" alguma em idiotas se matando ou matando uns aos outros por causa de letras estúpidas sobre Satã, cuja profundiade é a de um pires. Mesmo em termos de estudos herméticos e ocultos esses caras são extremamente superficais. A diferença do ocultismo praticado pelo Mayhem, pelo Dissection e pelo Alice Cooper é de cerca de 0.2%. Parem de viajar.

E para os idiotas que acham que o Vikernes é um puta gênio por que escreveu um livro sobre "Mitologia": Grandessísima merda de elefante equatoriano. Alunos de gradução escrevem trabalhos e mais trabalhos sobre qualquer assunto nas UNIESQUINAS da vida, isso faz deles gênios dessas dissertações? Coletar um monte de dados de livros por que se está de saco cheio na prisão e montar isso num livrinho, querendo atingir a alcunha de "ser pensante" ou "estudioso da mitologia" não prova nada. Wikipedia está aí pra provar que qualquer um faz isso. Os estudos dele sobre mitologia não são uma revolução acadêmica sobre o assunto, a visão política do mundo desse cara não quer dizer porra nenhuma, não passa de cusparadas superficiais vindas de pensadores fascistas e totalitários, e ele é basicamente um moleque da classe média de um país onde todo mundo tem danoninho pra comer cuja formação é ouvir rock pesado e picotar os outros com faca. O currículo dele é, assim como suas idéias, o de um ser humano que estabelece relações pobres entre dados.

Aqui está uma definição de ideologia:

Conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade.

Se alguém aí acha que letras do Venom, Bathory e Mayhem dão uma fundamentação FIRMEZA para se estabelecer "principios filosóficos, sociais e políticos" pelos quais se da pra viver de forma minimamente inteligente, eu TEMO pelo seu QI, jovem leitor. Rock é algo essencialmente imbecil cuja profundidade ideológica se reflete no tamanho das letras: cabem no encarte de um CD. Logo, aceitem que essa merda é visual, música e diversão e fim de papo. Se eu começar a falar como a visão "política" do Punk é algo acretinanencefalado aqui, essa postagem será um livro. Fica para outro dia.

Cá está o nível de ideologia que o rock deu ao mundo. Algo refinado, profundo, e de impacto definitivo no TECIDO da organização social:



Chega de besteira e idiotas, voltemos ao Death, cujo foco era, justamente, música.

É particularmente triste que o câncer tenha levado o Chuck. Ele era um músico talentoso, teve papel fundamental na criação do death metal (muitos dizem que o nome do gênero veio mesmo da demo Death by Metal lançada pelo Death nos anos 80), desenvolveu o gênero, expandindo-o cada vez mais com seus discos, e jamais se repetiu. Considero discos como Human, Individual Thought Patterns e Symbolic verdadeiras obras de arte. 


Chuck conseguiu crescer sem apelar a pretensa intelectualidade das bandas de hipster metal da atualidade (vide Isis e a maioria do catálogo da Southern Lord) mantendo-se absolutamente fiel ao gênero. E manteve-se sendo uma pessoa aparentemente humilde, sóbria e austera. O câncer poderia ter levado toda os membros do Graveland, mas não, aí estão eles, vivos e lançando um disco atrás do outro. Assim funciona o karma, e a ordem cósmica, levando os bons e deixando os idiotas poluindo a crosta terrestre.

É difícil conjecturar como ele lidaria com esses (para a música pesada) cínicos e pretensiosos anos em que vivemos. Nos anos 90 era ridículo ser heavy metal, mas Chuck passou bem por isso. Lembro-me dele dizendo que "Tenho que viver com cada álbum que faço, por isso só lanço o que acho realmente bom" ou coisa do tipo. E era possível ver que esse controle de qualidade existia realmente em seus discos. Hoje em dia o que era o ridículo death metal com letras sobre zumbis e "cabeça decepada chupando uma boceta, bebendo todo sangue de sua menstruação" (procurem a letra de Scream Bloody Gore, essa é a primeira frase da música) ou a sua descrição de "a morte de uma bicha, desgraça humana" (da música Mutilation) que ele escreveu nos anos 80 são cult, cheias de nostalgia e passam uma impressão interessante e estéticamente atraente, ligada ao underground pós-moderno de uma cultura de massa subterrânea.

Após mais de 20 anos elas são colocadas como uma memória, uma produção distante e re-contextualizada, uma reação kitsch ao "mainstream" que se justifica, e que é atraente. Não são mais ridículas, são bacanas como uma camiseta da família Monstro.

(Para onde vai o sangue que a cabeça decepada bebe é uma dúvida, já que uma cabeça decepada não tem um sistema digestivo).






É impressionante como as coisas mudam. Nos anos 90 usar uma camiseta com caveiras e cantar essas letras era motivo de vergonha. Bandas "de verdade" lidavam com temas sociais, políticos, abstratos ou pessoais. O Indie era o rock inteligente e sofisticado, de artistas, herdeiro da tradição do Velvet Underground, Joy Division e afins. A arte da capa de Scream Bloody Gore não mudou um traço, nem suas letras mudaram uma palavra, nem mesmo o ataque a homossexuais de Mutilation, mas, hoje, em um show do Sunn, usar uma camiseta do primeiro disco do Death tem todo um charme hipster, indica conhecimento "real" das raízes do som extremo, aliado a imagem que essas letras de horror passaram a ter, e uma certa idéia de que sua sensibilidade enquanto fã do Death é a de um veterano.


Bruxaria pelada exploitation setentista. De algo profano, proibido e assustador, literatura de seguidores do Charles Manson, a algo cult, seguro, engraçado e nostalgico. Um tema que passou pelo mesmo processo das antigas bandas de death e black metal.

Não só isso, demonstra que você sabe recontextualizar esse disco, sem se entregar ao kitsch real dele, mas reinterpretando-o e vendo-o como obra de vanguarda da sua época. Principamente por que você o faz num show de uma banda de pseudo-vanguarda. GRANDE Sunn. Aguardem minha postagem onde brutalizarei essa merda.

No final de sua vida, o Death passava por uma fase extremamenete melódica. The Sound of Perseverance, seu último álbum, é realmente seu último flerte com o death metal. Os elementos extremos estão lá, mas o disco transcende gêneros: é melódico, épico, grandioso e progressivo, tendo diversos toques de power metal. Chuck lidou com a ojeriza ao metal extremo procurando tornar-se cada vez mais técnico, lidando com temas existenciais e "humanistas" em suas letras, e progredindo de forma melódica com sua música. Infelizmente suspeito que ele sequer tinha um disco do Discharge em sua coleção. Paralelo ao Death ele fez um projeto de power metal, o Control Denied. Não escutei muito, mas achei excessivamente épico, quase caindo na auto-paródio, melódico de forma equivocada. É o Kitsch; algo que tenta ser sério e não consegue. Se ele tivesse um coração mais hardcore poderia ter equilibrado essa emoção épica toda com um pouco de porrada. Esta foi a fórmula que funcionou no Perseverance, afinal.

Acredito que hoje em dia ele iria procurar se re-aproximar do seu lado mais extremo, aproveitando-se da onda de aceitação que sons mais pesados tem tido dentro do próprio heavy metal e de nichos cult. E estaria absolutamente certo ao fazê-lo. Foi um dos fundadores do gênero e teria todo apoio, e apreciação da comunidade musical, para criar. Deveria utilizar-se dessa janela para fazer mais música.

Uma coisa da qual tenho certeza é de que ele continuaria assinando sua música como assinava as cartas que mandava para nós do fã clube: dizendo Let the metal flow.
Chuck é um músico que faz muita falta ao metal, e a música.

Todos os números do zine foram digitalizados e colocados online, podem ser lidos aqui: Metal Crusade.












quinta-feira, 2 de agosto de 2012

UMA BREVE ANÁLISE DE CABO DO MEDO


UMA BREVE ANÁLISE DE CABO DO MEDO
De Martin Scorsese


"Cape Fear", de 1962, com Robert Mitchum e Gregory Peck

“Cabo do Medo” é uma refilmagem de um filme dos anos 60 feita por Martin Scorsese no inicio dos anos 90. Vi esse filme com meus amigos Leonardo e Denis em um cinema do centro de São Paulo na época de seu lançamento, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que o filme conta a história de um homem, Max Cady (Robert Deniro) que foi condenado a cadeia por estupro. Sua condenação se deu, se em muito, devido ao fato de que seu advogado, Sam Bowden, deliberadamente o defendeu mal, tendo consciência de que seu cliente era um estuprador. Quando finalmente solto, Cady resolve partir para a vingança, perseguindo Bowden e sua família. Aqui vou analizar algumas cenas do filme e sua construção.
            No inicio do filme, temos uma seqüência interessante de cortes marcantes com mudança de ângulo de câmera na cena em que Jessica Lange (Leigh Bowden)  está se observando no espelho, até ser abordada por Nick Nolte (Sam Bowden). A abordagem é repentina e desperta surpresa e atenção. Esse, na verdade, é a forma narrativa do filme: cortes bruscos e repentinos que levantam a atenção e deixam o espectador em um estado constante de tensão e expectativa.


    Outra cena que segue essa máxima apresenta-se na seqüência em que Sam Bowden é abordado por Robert DeNiro (Max Cady) no estacionamento, e fica claro o desconforto entre os dois personagens (nesse momento Cady finalmente se identifica como um antigo "cliente" de Bowden, e seu método de intimidação através do estabelecimento de um estado de tensão e insegurança constante tornam-se claros). Os cortes da cena são rápidos e alternam entre Cady e Bowden se observando e discutindo pacificamente, mas apenas nas superfície, pois esta claro o estado de constante tensão que se passa por debaixo das aparências. A posição de Cady, apoiando-se sobre o carro de Bowden e este inferiorizado por estar sentado (e sendo mostrado da perspectiva de Cady como menor) também informa sobre a relação entre os dois.
Com a crescente tensão do filme, os cortes tornam-se gradualmente mais bruscos. É importante notar a presença da música de Elmer Bernstein e Bernard Herrmann como agente fundamental e complementador da edição do filme (realisada por Thelma Schoonmaker, que desenvolveu parceria notoria com Scorcese ao longo dos anos). Outra cena em que o corte marca presença é quando Sam entra no escritório de seu amigo detetive e lhe pede uma arma. O corte é feito a partir de uma cena em que a porta da casa dos Bowden é batida e com o impacto somos levados ao escritório.
Temos uma interessante elipse quando Nolte, em seu escritório, atende ao telefone após ser informado de que sua esposa precisa falar com ele. Na seqüência já temos ele se dirigindo a sua casa, tenso, pois o cachorro da família foi envenenado (entretanto apenas descobrimos isso assim que ele chega). A tensão é mantida pois sabemos que algo de ruim está acontecendo, só não sabemos o que. Assim a narrativa do filme se constrói causando pequenos momentos de constante desconforto no espectador.
Quando Danny (Juliette Lewis), a filha de Bowen, sai da escola após ser "seduzida" pelo "professor de teatro" (novamente Cady) temos outra elipse, onde não podemos ver o percurso que ela fez mas sim está subentendido que ela esta voltando, e seu desespero se deve a presença e a maneira desconfortável com que Cady a tratou, alternando entre o sedutor e o perigoso.
Uma seqüência interessante onde o suspense é crescente se da quando a família prepara uma armadilha para Cady com auxílio do investigador. A tensão é constante, e seu clímax culmina nas mortes da serviçal da família e do investigador.  Trata-se de uma cena desagradável onde Bowden escorrega no sangue da vítima no chão da cozinha, e perde o controle, saindo ensandecido e dando disparos na porta da casa. O conflito se estabelece quando vemos que Cady tomou o lugar da serviçal e vai matar o investigador, sabemos disso e somos cúmplices de Cady, não podemos fazer nada assim que a tomada é cortada, ficando fadados a aguardar os resultados.
A seqüência final é grandiosa e catastrófica. Toda a tensão acumulada ao longo do filme é finalmente liberada nos minutos finais de forma grandiloqüente e apocalíptica. Ela se constrói a partir do momento em que o cenário inóspito se põe presente (um barco a beira do rio, a noite) e a tempestade crescente que se apresenta conforme a edição se torna mais ágil e fragmentada. O clímax é atingido quando temos a família a mercê de Cady, seus jogos de tortura com Sam e a alternação de ameaças a Leigh (esposa) e Danny. Temos a simulação de um julgamento de acordo com a ética doentia de Cady, que demonstra o lado falho do "herói" do filme  (Bowden). De uma forma ou de outra ele agiu errado: omitiu um fato na corte e não cumpriu seu papel moral como advogado. Ninguém é limpo de acordo com Scorsese (Bowden também flerta com uma colega de trabalho no inicio do filme, em mais uma indicação de sua dubiedade de caráter). Cady é uma lembrança disso, trás isso a tona. 


Com o clímax final temos a quebra da aparente felicidade estável da família colocada a mercê de um psicopata metódico. Bowden, algemado, está submetido aos atos de Cady que age como Júri, Juiz e Carrasco. Ele faz citações bíblicas ("Você esta condenado ao nono circúlo do inferno, o circúlo dos traidores!") dando um aspecto religioso ao martírio que impõe sobre a família. Cady é queimado por Danny, em uma cena que desperta surpresa e desconforto, mas finalmente alivio (estaremos livres dele?). Evidente que, como em todo bom thriller, as coisas não são tão fáceis assim, e o criminoso volta em um momento surpresa, agarrando Bowden e dando continuidade a atmosfera de tensão constante. Finalmente, quando o barco perde controle na tempestade temos uma alternação de cenas do barco fora de controle e a luta interior no interior dos dois personagens centrais. Tanto o barco como a câmera giram, causando a sensação de turbulência e tensão. A água e jogada mas volta, retrocede, e finalmente eles caem em uma espécie de praia.  Lá, inicia-se a luta selvagem entre os dois (chegam a usar pedras) e Cady age como a consciência de Bowden, sempre eufórico, apocalíptico. Ele é a consciência que não vai embora, nunca morre, atormenta.  Finalmente Cady afunda, lentamente, e morre. Bowden lava as mãos do sangue (sua culpa?) algo que nunca irá embora. Ele não está limpo, e Max Cady irá sempre lhe lembrar disso. 



A construção dessa seqüência é feita de forma crescente, a narrativa torna-se mais dinâmica à medida que o tempo passa e o clímax da luta final leva a um final desconfortável e inquietante. A última cena é tomada pelos  olhos inocentes (?) de Danny negativados, nos observando enquanto os observamos de volta. . "Se você vive no passado, morre um pouco a cada dia" é a frase final.     
Podemos não viver no passado, mas ele sempre será nossa sombra, sempre por perto, para nos lembrar do que somos e fizemos.