domingo, 3 de maio de 2009

Virada Cultural

http://radiated5.files.wordpress.com/2009/02/3065night-of-the-living-dead-posters.jpg  

Hoje fui ao centro prestigiar a Virada Cultural, evento anual já bem sedimentado no calendário de São Paulo, onde o centro da cidade fecha e dezenas (centenas?) de atividades culturais tomam conta das ruas. Alguém teve o bom-gosto de programar uma sessão de 24hs de exibições de filmes com mortos vivos e zumbis, no cine Dom José. Agradeço ao prefeito Kassab por ter apoiado e endossado essa proposta. Fui no cinema com uma amiga e vi de uma vez só Noite, Manhã e Dia dos Mortos, a trilogia completa do George A. Romero sobre mortos vivos, que iniciou a avalanche de filmes sobre esse tema na história do cinema. Estes filmes simplesmente criaram um novo gênero dentro do horror e são clássicos absolutos. Assistimos tudo na sequência, com apenas pequenos intervalos entre um filme e outro. Como estava muito cansado, dormi um pouco durante Manhã e Dia. Foi incrível, e fazia tempo que não via uma sessão de cinema assim. Sala totalmente lotada, não via isso há anos; pessoas sentadas no chão, e todos aplaudindo tanto a cada zumbi morto como a cada personagem protagonista que morria também, com o público indeciso, aparentemente, sobre quem gostaria de apoiar, ou simplesmente feliz demais em ver cenas de violência que não podem ser levadas à sério, todos embebidos na bruma intoxicante da Jornada Cultural, onde as ruas não tem carros e estão tomadas por pessoas... Muito como uma cidade tomada por mortos-vivos, aliás! A primeira sessão, de Noite, começou as duas da manhã, com barulho absoluto do público. Algumas pessoas tentaram pedir silêncio, mas foi impossível. Toda sessão foi comentada e discutida pela platéia, permeada por gargalhadas, risadas, assovios e gritos. Enquanto a personagem Barbara fugia entre as lápides do cemiterio, e seu irmão caçoa de seu medo falando "Barbara eles estão vindo pega-la", pessoas na sala sugeriam a Barbara alternativas e saídas, em voz alta, conversando com o personagem, convidando Barbara a desde agredir o irmão a praticar atos libidinosos com ele. "Foge Barbara", "Soca esse palhaço Barbara", "Tu é babaca, Barbara", foram apenas alguns das dezenas de comentários que escutei. Quando acabou Manhã saímos e fui na lanchonete da frente comprar um suco de Melancia. Estava de dia já, céu azulado frio de manhã entrecortando os prédios antigos do centro, da rua Dom José de Barros, e já vi que para Dia dos Mortos havia uma fila gigantesca de pessoas, começava no meio da Dom José e ia até a Avenida São João, muita gente. Re-entramos na fila, cercados de góticos, punks, bêbados e metaleiros e assistimos o Dia.

http://morb.files.wordpress.com/2007/12/dawn_of_the_dead_1978.jpg 

O filme é tomado por cenas claustrofóbicas, com um grupo de pessoas preso dentro de um abrigo militar, submetidos as ordens ditatoriais do Capitão Rhodes, que gradualmente tortura mais e mais, tanto fisicamente quanto psicológicamente, as pessoas que o cercam, levando o filme e os protagonistas a novos níveis de tensão e desespero confinado... Cochilei. Acordei com o cinema inteiro entrando em erupção de aplausos quando Rhodes (interpretado com excelente canastrice por Joseph Pilato) é despedaçado por Zumbis, tem suas entranhas e membros arrancados por um exército de mortos vivos, que se alimentam de sua carne em cenas que embalaram a geração GORE oitentista, a qual pertenço, e que ilustrou tantas edições da revista Fangoria. Essa sequência é uma verdadeira pausa na narrativa para que os Zumbis façam seu lanche antropofágico. Ao nosso redor, gente gritando, assobiando e correndo pelos corredores em celebração gore-nefasta-profana. Toda a projeção parecia com gente assistindo as famosas sessões do cult Rocky Horror Picture Show em Nova Iorque nos anos 70 e 80; pessoas comentando o a trama, dialogando com os personagens, tirando uma porrada de fotos dentro do cinema. Os flashes não paravam de embranquecer a tela, e teria sido proveitoso se tivessemos uma câmera para poder ilustrar melhor essa postagem. Quando o personagem do Duane Jones dava um golpe em algum zumbi, durante Noite, ouvi um grito: "Olha o Obama distribuindo sopapo!".

 
 Uma cena de pessoas participando de Rocky Horror Picture Show.

Obama? OBAMA? 

 Outro momento no qual o cinema emergiu em gritos, apitos e aplausos foi quando, em Noite, Barbara (Judith O'Dea, aliás, muito bonita e recentemente de volta as telas em filmes depois de muitos e muitos anos sem fazer nada) está dando chilique e Jones da um tapa na cara dela para que ela se controle. O machista Brasileiro não se conteve e o Cinema inteiro virou um show de rock, com assobios, risadas, apitos e gritos histéricos. É curioso como os filmes são diferentes: Noite é claramente um filme B, feito com poucos recursos, alguns "jump cuts" que quebram continuidade, cenários relativamente pobres, efeitos simples. Mesmo assim, é um filme visceral e extremamente atmosférico, que jamais perde tensão e sempre apresenta novos conflitos. Extremamente violento para a época na qual foi feito, ele deixa muito clara a arquitetura que seria utilizada dalí em diante para centenas de filmes com mortos vivos que o copiam até hoje. Romero criou na verdade um formato muito simples que provou poder ser super utilizado, a perspectiva básica é: "um grupo de pessoas cercados por mortos vivos canibais". E isso funciona para tantos filmes há tanto tempo que transformou-se em um subgênero. Essa prova apenas endossa minha teoria de que formatos simples se prestam para se explorar, com criatividade, qualquer tema, desde que você respeite as regras básicas do que está fazendo. Manhã é um filme melancólico e mais pausado. Muito diferente da refilmagem de Zack Snyder, que, me parece, só apreveitou mesmo a premissa de um grupo de pessoas confinado num shopping center cercados de zumbis. Toda a dinâmica entre os personagens é alterada aqui. É um filme sem esperança e sem conclusão, que tenta entender a solidão e o horror dos personagens. Gostei particularmente do final, não via esse filme há muitos e muitos anos, e não me lembrava que ele ia, em seu clímax, de um niilismo total para um rastro de esperança, em um bem colocado ponto de virada. Funciona muito bem, e a tomada final chega a ser poética. Em termos estéticos, o que pior envelheceu foi Dia dos Mortos. A trilha sonora é feita de um eletrônico cafona oitentista que tira um pouco atenção da trama, e prejudica a "suspensão da descrença", hoje em dia. Tive o mesmo problema com Expresso para o Inferno, que revi recentemente, devido também a sua trilha. É um filme um pouco histérico (os personagens gritam desesperados uns com os outros o tempo todo, suponho, para manter a tensão da trama) e possivelmente pessimista. Temos os personagens mais odiosos da trilogia original nesse filme. Egoísmo, maldade e traição são os temas explorados, enquanto um grupo de militares tenta sobreviver em uma espécie de bunker subterrâneo. Também é o mais violento dos três filmes da trilogia, e de certa forma o mais arrastado. Explora boas idéias em relação a como o cientista, uma figura que não aparece nos outros dois (a voz da ciência) se relaciona com e vê os zumbis, que acabam tendo seu comporamento alterado por essa relação.

 

O público se emocionou de forma tocante com esta cena de singular poesia e sensibilidade, na qual o Capitão Rhodes (Joe Pilato) tem a si apresentada uma nova perspectiva de sua existência. Queria ficar pra ver mais, mas não aguentava. A sessão de filmes de zumbi corria 24hs, até as 18 de hoje, com a exibição do filme Extermínio de Danny Boyle, aliás ganhador do último Oscar de melhor filme com seu Quem quer ser um milionário?, que ainda não vi. Saímos da sala as oito da manhã, uma sensação estranha sair do cinema, novamente, de manhã, e tomei mais um suco. Olhei pra nova fila que se formava para ver A volta dos mortos vivos – Parte 2 (um filme em nada relacionado com Romero, apenas com o conceito de mortos vivos) e comentei "pô, bem que diminuiu". Daí percebi que dessa vez a fila descia para a 24 de Maio, fazia a curva lá embaixo e continuava indo pra galeria. Esse povo não tem o que fazer? 

Foi muito legal, não ia numa sessão de cinema tão legal desde o começo dos anos 90. Parabéns aos organizadores da virada cultural e aos donos do Cine Dom José, que cederam o espaço para o evento. Aliás andei lendo sobre o Dom José é trata-se de uma sala antiga (com um belo balcão superior, fechado atualmente) fundada no anos 50 sob a alcunha de "Cine Jussara". Parece que foi o primeiro cinema a passar filmes da Nouvelle Vague em São Paulo, justamente trazendo a vanguarda Francesa para São Paulo. Em matérias on line vi que os proprietários do cinema consideraram a noite de Sábado um sucesso, e gostariam muito de trazer para a sala novos eventos parecidos. Seria muito proveitoso. A sala é bonita, antiga e lembra a São Paulo de velhos tempos, e ter um cinema voltado para ciclos específicos no centro seria algo muito bem vindo ao mapa da cidade.

sábado, 15 de novembro de 2008

A técnica cinematográfica de “O triunfo da vontade”


A técnica cinematográfica de “O triunfo da vontade”
Por Joaquim C. Ghirotti

O cinema alemão sempre foi pioneiro, tanto no que diz respeito ao desenvolvimento de técnicas de produção cinematográfica como nas áreas de criação de uma narrativa própria, estética e identidade visual. Todo o movimento Expressionista, iniciado no cinema alemão na primeira metade do século vinte, produziu uma gama enorme de trabalhos extremamente criativos e influentes. Autores como Murnau, Fritz Lang e Robert Wiene imprimiram sua marca na história do cinema através de suas obras, dessa forma influenciando a maneira como a arte se desenvolveu através dos anos. Com a ascensão do Nazismo, a indústria cinematográfica alemã é englobada pelos ideais e necessidades do partido. Toda a técnica desenvolvida pelo cinema germânico até então será utilizada na produção dos radicalmente diferentes filmes nazistas, filmes que se prestavam a realizar não uma revolução de cunho estético, mas sim de uma afirmação conservadora de caráter político e social, empregando em suas imagens a ostentação grandiosa exigida por um cinema que deseja criar a comoção nacional em massa.

Ciente de que o cinema, uma arte em expansão e constante aperfeiçoamento, é uma ferramenta extremamente eficaz, Goebbels, o ministro da propaganda, faz com que a sétima arte torne-se a vanguarda da propaganda nazista. Recursos, fundos e exigências não são poupados para que as idéias do Reich alemão se concretizem na tela. Leni Riefesntahl, a principal realizadora de filmes dentro do movimento cinematográfico Nazi, teve acesso a equipamentos de primeira ordem e recursos ilimitados para filmar “O Triunfo da vontade”, a obra máxima da propaganda nacional-socialista.

Todas as comitivas, assim como a organização impecável em que se encontra a disposição dos elementos de cena se dão de acordo com a câmera. O congresso, portanto, se articula diante das necessidades da câmera. A direção do filme contou com auxílio de Albert Speer, arquiteto célebre que organizou as tropas de acordo com a filmagem. O uso de caríssimos guindastes e gruas para criação de movimentos fluidos de fotografia é corrente. Leni se utilizou de um arsenal de dezenas de câmeras e operadores (trinta e seis), teve uma equipe com cerca de 150 pessoas, nove cinegrafistas apenas para a seqüência em que utilizaram um dirigível e um avião de combate. Seus recursos eram muito maiores do que o padrão para o cinema alemão, ou mesmo internacional, da época. A equipe filmava simultaneamente um mesmo evento, para poder captar um maior número de ângulos da mesma cena. Assim, durante a edição em Movieola (equipamento criado para que se realize a montagem de um filme a partir do primeiro copião positivo) ela teve uma infinidade de opções disponíveis para criar a narrativa. Dezenas de rolos de filme 35 milímetros, uma película de alta qualidade e extremamente cara, foram usados para que se fotografasse a mesma cena, simultaneamente, em alguns casos repetidas vezes. Rudolph Hess construiu elevadores capazes de levantar as câmeras por 30 metros de altura, a mesma medida de um pequeno prédio de apartamentos, para fotografar uma multidão de um milhão de pessoas. Toda a iluminação criada para os discursos dos membros do partido nazista é feita em função das câmeras. Em determinado momento, Speer arquitetou uma “catedral de luzes” com 130 holofotes anti-aéreos. O uso correto de estandartes, a ambientação e disposição das luzes e horários em que os discursos foram filmados foram feitos de maneira a fazer com que o melhor resultado possível pudesse ser atingido na tela de cinema. O objetivo era preencher a tela da forma mais eficiente possível. Quando disposta a luz do sol, Leni procura filmar os protagonistas a contra luz, criando assim longas sombras, captadas pelas sempre eficientes objetivas Alemãs. Leni utiliza predominantemente à objetiva “normal” de 50 milímetros. Assim mesmo estando submetida as intempéries características da produção de um documentário, sua imagem não perde o foco, ganhando sempre nitidez e realismo. A proporção dos corpos dispostos é mantida de forma a não despertar suspeitas de verossimilhança, pois o filme quer mostrar que o que ele fotografa É realidade.

Riefennstahl utiliza-se em muito, também, de primeiros planos e planos de detalhe. As mãos dos soldados tomam a tela por completo, tornam-se enormes, as feições, estáticas, monolíticas. A luz faz com que os rostos dos oficiais e soldados alemães sejam blocos de granito, lisos, polidos, intimidantes e sem falhas. Isso se deve, particularmente, a iluminação extremamente forte que Leni usa. Enormes refletores com milhares de watts de potência, voltados para a cena que se desenvolve em sua frente. Assim ela cria tomadas aonde o preto e branco, brilho e sombra, são usados em alto contraste, um recurso estilístico que marca muitas cenas do filme. O som é extremamente irregular. Leni faz uso de música de estúdio assim como capta o som direto, ou seja, o som do momento que se desenrola em sua frente, e manipula os volumes assim como a entrada dos mesmos de forma fluida e sincrônica durante a mixagem. O objetivo é fazer com que música, discurso e ruídos formem um amalgama que faça sentido em sua totalidade e que sejam encarados como realidade. Durante a narrativa, discursos do Fuher são interrompidos e iniciados dada a necessidade de se realizar aquele ou esse corte. O som incidental, o clamor do público, os ruídos de motores a movimentação humana, se dão de acordo com a atenção central da câmera. Novamente disposta de sofisticados equipamentos de captação sonora, Leni pode captar separadamente ruídos, o som da multidão, músicas e o próprio discurso de Hitler. A combinação destes elementos captados separadamente é criada quando todos são mixados e o resultado é adicionado, nos volumes corretos, sobre a imagem já montada. Assim música e aplausos, ovação e palavras de ordem são orquestradas de maneira a invadir a tela de forma aparentemente natural. O cenário audiovisual criado por Leni Hiefesntahl é completo quando os cortes de som e imagem são sobrepostos e atingem simetria total. Toda a movimentação e enquadramentos usados no filme também levam em consideração os cenários e locações utilizados ao longo do filme.


Segundo o próprio Fritz Lang, um dos principais cineastas europeus, que abandona a Alemanha logo após a ascensão do nazismo (mas deixa sua influência marcante no cinema germânico, tanto que o próprio Hitler o convidou a ser o cineasta oficial do Reich após assistir “Metropolis”, filme de ficção científica do consagrado diretor) a arte do cameraman implica em um híbrido de sensibilidade humanista e conhecimento lógico, prático e empírico. Em suas próprias palavras: “Ele se empenha na plástica do filme por intermédio da matemática”. Desprovidos de cores, os filmes do chamado “cinema nazista” trabalham exclusivamente com um jogo de luzes e sombras. As texturas conseguidas por Leni e sua imensa equipe de filmagem são resultado de fotometria calculada, de atenção total tomada em relação ao filme utilizado, as luzes disponíveis, ao ângulo e foco escolhidos, a distância do objeto sendo fotografado, a lente posta. A equipe de “O Triunfo da vontade” também inova no cinema alemão ao escolher novas posições de câmera para realizar os filmes. A diretora torna-se uma pioneira e especialista em realizar tomadas aéreas (a chegada clássica do Füher a cidade, literalmente vindo dos céus de avião, foi fotografada de maneira espetacular) e a utilizar locações. Até então a produção cinematográfica mundial, e em especial a alemã, usava predominantemente cenários e estúdios para realizar suas filmagens, recorrendo as locações apenas quando realmente necessário. A segurança dos estúdios e todo o arsenal de recursos (incluindo ai os cenários) que eles ofereciam eram o trunfo maior que o cinema tinha. A partir do momento que Riefenstahl tem de fotografar e retratar a “realidade” o seu campo é por excelência a locação, e ela usa isso em sua vantagem.

O cinema alemão estava tomado pelos ângulos obtusos, curiosos e inquietantes da escola expressionista. Os autores procuravam fugir da realidade e mergulhar no espaço onírico e fantástico do mundo de sombras e pesadelos proporcionado pela imaginação humana. O cine nazi vai diretamente contra essa tendência e procura a retratar o grandioso, o sublime, o perfeito, o organizado. Vão se os experimentalismos, consagra-se e sedimenta-se a imagem clássica, bem enquadrada, criando impacto subretudo emocional e não, como se dava nos filmes expressionistas, intelectual.


Com o advento do cinema nazista temos agora a câmera colocada de forma a captar eventos grandiosos, sua posição de “mergulho” e “contra mergulho” (com variações que podem ir, dentro do eixo vertical, de 0 a 180 graus), assim temos o engrandecimento das figuras. Multidões são orquestradas para serem vistas de cima para baixo, personalidades, de baixo para cima, tendo assim ampliadas a sua magnitude e potência. O cinema político nazista não vem para romper barreiras estéticas e narrativas, como toda propaganda, ele vem já calcado em o que é clássico, para reafirmar o que foi dito. As imagens colossais utilizadas nos filmes remetem a grandiosidade da arte greco-romana. Todo o ideal estético contido no imaginário alemão é reutilizado de forma a caber dentro de um padrão clássico facilmente reconhecível e absorvível. Ao dar voltas de 360 graus ao redor de Hitler durante um discurso Leni faz um uso pioneiro da câmera fixada em trilhos para criar a dinâmica de cena. A câmera retrata o ditador em sua potência máxima, sendo observado como uma figura articulada e em movimento. A ação não parte do objeto fotografado mas sim da própria máquina que o fotografa. Hitler é uma figura onipresente, captado em constante ação por todos os ângulos possíveis. A fluidez de movimento, foco e profundidade de campo, dadas as limitações técnicas impostas pela época, é impressionante. O fato é que Leni consegue criar uma estabilidade extraordinária, o que ressalta ainda mais aos olhos se levarmos em conta o aspecto documental do discurso, o evento histórico que se desenrolava em frente a equipe de produção sem permitir refilmagens.

Leni Riefenstahl é uma precursora do cinema grandioso, do cinema maniqueísta. Dessa forma, a mensagem moral que seus filmes passam se assemelha assustadoramente a utilizada e progressivamente sofisticada até os dias de hoje por Hollywood. Um dos maiores filmes de propaganda já feitos, “O triunfo da vontade” acaba sendo uma das marcas iniciais pela qual se consagra o épico, o perfeito, o sublime e o grandioso. Sua obra influência gerações, e seus extravagantes recursos técnicos são copiados e utilizados até hoje, para que se atinjam os mesmos efeitos visuais sobre os espectadores. Tão verdadeiro quanto assustador.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Irreversível


Algo que é notório e me chama à atenção é a apreciação do filme "Irreversível" por jovens. Em debates culturais é comum ouvir esse filme sendo colocado como um dos "favoritos" entre amantes de cinema contestador, contravensor e dito "ousado".

Todos os anos milhões de jovens entram na adolescência em nossa sociedade ocidental. Atualmente, eles se encontram viciados em uma droga que permeia todas nossas produções audiovisuais: o choque. Deslumbrados com seu poder, eles são o mercado perfeito para obras de arte que se ocupam em tentar "violentar" seu espectador.

A experiência cinematográfica não precisa ser positiva, nenhuma experiência precisa, e a arte não deve se ater a apenas discutir um tipo de experiência, e nesse sentido Irreversível cumpre bem o papel audio visual de trazer choque e desconforto. No que diz respeito a incomodar, desagradar e criar um ambiente insalubre e violento, o filme é muito bem feito e consegue fazer isso com grande eficácia.

Mas qual é, afinal, o interesse nisso?

Clique abaixo e descubra.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Enslaved - Vertebrae



Let's get to business: the tracks are made to represent what the word "majestic" was coined to do for, or maybe they made the tracks and then the word "majesty" and its variations came by, and it's just an illusion of ours that the word existed, at all, before this record was made.

I feel it's more mellow than the previous Enslaved albums. I pity the fool that say that Isa is a bad album (ok, alright, it's NOT as good as the three before that, specially before BELOW THE LIGHTS which is a god amongst albums). "As fire swept clean the earth" should be elected as the new national anthem of Norway, and we should use it's lyrics to reflect on the evil of the world and how it should be punished and vaporized before the powers of this Viking Metal act.

The distortion is not that brutal and the guitars are quite clean. The beautiful King Crimson like parts are there, it's basically a very good progressive album with brutal vocals. I am sure Jon Anderson, Chris Squire, the whole of ELOY and Robert Fripp could listen to and enjoy this music, although Fripp would boast about how he could play faster than the guitarists. Maybe he could do the solos faster, but not the (killer) metal riffs. I am sure that if someone gives REIGN IN BLOOD or VICTIMS OF A BOMB RAID to Fripp he won't be able to play it correctly.



I doubt this man can play one song from that record.

I know that non-versed-in-Enslaved mortals cringe when they see the words "progressive" and "metal" put together, that brings to their minds albums by pretentious bands with photos of band members who use Pantene Pro V shampoo and conditioning with leaf extracts on the inner sleeve of their records, and maybe covers with laughing jesters and a gigantic chessboard floating in space, which probably translates as "look, we are wild and experimental, we don't fear going into technical prowess show off territory!" and usually is about sub Dream Theater metal like bands, in other words, musical Camembert and Gorgonzola.

No, No, and once more, I will write it: No. This is not the case. Here we have a band that is as testosterone fulled as RAMBO IV. This album is beautiful and sweet, but also heavy and powerful. It is a homage to heterosexuality, but with sentiment, with love in it's dark, black heart.

The whole record can be summarized in the image of John Rambo pausing the slaughtering of hundreds of evil vietcongs, using his M60 General Purpose Machine gun to send the 'congs straight to Buddhas's lap, to pick up a beautiful flower in a southeast asian forest. A moment of bliss and poetic beauty amongst pure fucking carnageddon. I just love it when metal musicians combine both things. I remember some dork saying that Isis makes him feel "more human" in the comments of Isis's singer's blog.

Well, this record makes me feel like I am a galaxy at peace with the cosmos and at the same time I have a carving serrated knife and I will fucking rip to shreds posers who listen to Isis and try to intellectualize music that was created to worship Satan and drink beer to, and offer their dripping, warm guts to the members of Enslaved.

I think you get the picture. It's way better than Isa, also more melodic, loads of clean vocals and 70s progressive moments. Rides through the Andromeda in a horse made of fire with a sword in one hand and wine in the other are powerful images that come to my mind whilst listening to this modern classic.

Maybe a joint in one hand, or a jester puppet, or a chessboard instead of the sword, but I think you get the picture.

Overall, best metal record of the year (I haven't listened to any other metal records of this year, or of the last several years, I'm tired of any metal made in 00, except Genghis Tron, Vader and Enslaved and Morbid Angel, honestly) and best record of the year period.

Radiohead only wished they had the power of Enslaved to create music which is fucking devastating and takes over and shows who's the boss and who takes things forward. Listening to this album is better than reading "The Dark Tower", or than having lunch while watching "Everybody Hates Chris". Or than reading "The Dark Tower" while having lunch with "Everybody Hates Chris" playing on the background. Metallic textures and progressive black metal.

The best tracks are, in this order, TO THE COAST and REFLECTION. If you disagree you are wrong and doomed to be in the incorrect path for all eternity. I pity you, lost soul in a forest of darkness. Go listen to some old Riistetyt. It's the first step towards light.

Enslaved, I bow to thee.

domingo, 10 de agosto de 2008

This Blog Could be Your Life


The Ratos de Porão record of demo tapes and rarities. This is one of the oldest and longest standing Punk Hardcore bands in Brazil, and even in the world. They never broke up (notice the date of the recordings)

I came across this blog, Metal Inquisition, which deals with early 90s extreme metal, and by reading them I quickly realized that this was my life from 1990-95, with the exception that the guys at M.I. know very little about punk and hardcore (they can't tell the difference between Sore Throat and Intense Degree while listening to the Grindcrusher compilation) and they listen to, apparently, no other types of music.


The Grindcrusher compilation had everything one needed, at the time, to be "at the top of his game" regarding the most interesting intense music being made.


Ah, Sore Throat. I would never mix them up with the incredible INTENSE DEGREE. These are bands, my friends, that marked my life! I remember they (Intense Degree that is) even had a song called "Headache"in the 7" "Released" (as in "Released from Earache"?) about how bad they felt it was working with Earache. Sad. Why Can't We Be Friends? I actually asked Dig about this once and he said it would probably all be ok with them nowadays.


So I decided to tell my own story about dealing with punk and extreme music in the early 90s, and how it was to live through punk and metal in the late 80s and the 90s. Here it is.

Beginnings:

My musical background started with Pink Floyd in 1987. Basically I think I randomly decided that I would listen to Pink Floyd's THE WALL from my father's vinyl collection, a lot. He used to listen to it when I was really small, and when I was about nine or ten I decided I should have a musical taste and listen to this band over and over. This led me to go through the other Floyd albums he had: Atom Heart Mother, The Dark Side of The Moon, Ummagumma, Relics and Meddle. It was pretty much a conscious decision that I made, to like the band. Bear in mind I was very, very young and I was very much impressed by The Wall, specially because the film version of it had come out not many years before and was available as imported and bootleg VHS tapes here and there.

It's strange that such a young kid was attracted to such a painful, depressing wall of anguish that is that album, and that film. But I was, and that, I suppose, also marked my artistic choices and sensibilities.



While I wrote this I drank tea from this skull-adorned mug my mother gave me, not that long ago. When I asked her "why did you gave me a mug with a skull drawn on it?" she smiled and said "what else could I give you?".

In hindsight ("hindsight can be a terrible thing", said a friend of H.P. Lovecraft in a letter to him, and the mere fact I am quoting something related to Lovecraft tells something about my formation, interests and readings). My mother gave me a skull-mug because, through time and my references, I built up myself to be a person that likes... skulls.



Poster for the first Kiss gig in Brazil.

Newspaper article on Alice Cooper's visit to Brazil, 1974.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Cavaleiro das Trevas


Comentários gerais sobre o filme:

Pra começar, esse filme é propaganda enganosa. Não tem nada de ser "O Cavaleiro das Trevas", a história do Frank Miller escrita nos anos 80.

Ok, o original é "The Dark Knight Returns", mas mesmo assim... pilantragem. Steve Gerber, falecido esse ano aliás, já ensaiava essa desconstrução dos super heróis (aí, adoro essa palavra gente!) desde os anos 70, na verdade. Se você for mais elástico, no mundo dos quadrinhos mainstream, o filho do Duende Verde se tornando drogueiro/ganguista no Homem Aranha do final dos anos 60 já é relativamente barra pesada e "adulto", ao menos ensaia ir nesse sentido.

E isso são quarenta anos atrás.

Não acho que o filme tenha exagerado nessa coisa de ser "realista". Não foi um Asilo Arkhan, aí sim um tratado sobre a psique de personagens, ou o Piada Mortal, ou o Cavaleiro das Tevas (HQ) que é sobre memórias do Wayne, nóias, envelhecer, cheio de Flashbacks, voice overs, e enfim, reflexões sobre a identidade dele e sobre seu passado, sobre como esse o moldou, sobre tempo perdido, sobre se sentir fora de tempo e de lugar e ter construído uma identidade assim.

Não acho que explorou nada de profundamente psicológico dos personagens. O Coringa faz uns discursos-chave empolgantes e pontuais sobre caos que fazem a molecada falar "ai meu deus, como ele versa bem sobre o caos, nossa, me senti questionada gente! Chocou! Aí que louco, essa coisa né? O mundo é super caótico mesmo né turminha? Uma coisa assim imprevisível, sei lá, achei super louco! Vou até comentar com afêssora de psicologia na aula de quarta!" mas não se aprofunda nada nos aspectos psicológicos pessoais dos personagens.

Nem achei que o Wayne é muito explorado nesse sentido. Talvez o Harvey Dent... Mas achei a conversão dele para o lado negro relativamente simplista. Aceitável, ok, funciona, mas não é uma exploração psicológica da perda que leva ao comportamento anti social/desilusão/niilismo.

Não diria que o filme é simplório. Eu acho que ele simplesmente desconsidera qualquer discussão psicológica "realista" mais profunda e trata-se sim de cenas de acão com cliffhangers no final que te levam para outra, e para outra, e para outra, com quaisquer motivações como pano de fundo bem, bem em segundo plano. A cena da barca por exemplo tem um ponto de virada de expectativas legal, com o personagem fazendo o inesperado. Mas eu sequer LEMBRO por que eles estão nos barcos em primeiro lugar! 

Como eu disse, o que temos de mais desenvolvido sobre isso é o Coringa. Mas na minha percepção o que ele faz de mais sofisticado é um discurso curto, pontual, sintético, bem articulado e inteligente para impressionar o público médio, sobre a natureza devoradora do caos que todo mundo quer negar - bu! - o que pra mim é apenas um ensaio, uma introdução a uma maneira de ver o mundo que conta muito menos do que a verdadeira preocupação do filme, que é fazer um caminhão virar de ponta cabeça de forma gloriosa. 

Esse tipo e idéia impressiona o espectador médio que acha o que o Coringa disse super rebelde, chocrível, revelador. Honestamente houve momentos nos quais eu pensava "POR QUE essas pessoas todas estão brigando? Why can't we be friends? Eu nem LEMBRO por que começou essa sequência de ação". 

História, personagens e suas razões, de ser, viver e querer totalmente em segundo plano.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Interview with Alan Moore

This is an interview I made with author Alan Moore on the 28th, February 2007. It was published in Portuguese at the website Omelete, but most of Moore's readers, who speak English, couldn't read it. So, finally, here it is. It goes deeply into Lost Girls, his most recent major work, and I hope you will enjoy it. So much has been written about Moore's work that I doubt it is needed to introduce him much. Therefore I will attempt to put on a personal view as well as particular comments on how I see his work and persona.

To normal people, or non-comic book readers, Alan Moore must seem strange.

Well, even to comic book readers he seems strange. Alan Moore has got long hair, strange mystical rings, practices "magic" and says he worships a snake. Far from being stupid, he knows that this all creates a facade that impresses and also, to an extent, disappoints people. Some critics and readers won't take him seriously because of this, I suppose. The "official art world" (whatever that may be), for whom there are very limited ways to see, feel and behave about life.

It's brave, in a sense, of Moore to do that. Comic books and fantasy writing in general are victims of prejudice, and the fact he portraits himself, at least physically, pretty much as a weirdo is a bold statement that he does not care at all about these prejudiced views, and will go further into creating an unorthodox image, not minding if that displeases people who would otherwise take his work seriously and see how much he has to offer, how complex, sophisticated and rewarding his work is.

Alan obviously knows he has created a very curious image. And he likes it that people see him as a strange sort of crazy, weird genius.

It is a great image to create, a great image to live by, and a great image to be thought about, isn't it? Should be very fun, I think.

I mean, how many writers put on suits and glasses and pose looking to the horizon in photos made for the back cover of their books? Usually these are really "deep" books, written by an author said to have created a narrative that "untangles the intangible mysteries of the human soul"... or something like that.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Dracula

Drácula de Todd Browning foi lançado nas telas norte-americanas em 1931. Desde suas primeiras exibições já foi considerado um clássico inovador do gênero Horror, assim como estabeleceu a carreira de Bela Lugosi como importante ator de gênero (gênero esse que o marcou tão fortemente que ele jamais conseguiu se livrar do estigma de ator de filmes de horror). A versão adaptada por Browning é baseada em uma peça de teatro muito popular na época, e não foi exatamente fiel ao romance original de Bram Stoker. Isso, entretanto, não impediu o filme de ser um grande sucesso. Anunciado como “A mais estranha história de amor”, o filme também deu início a uma série de obras de horror da distribuidora Universal, que marcaram os anos trinta, e caracterizou a maneira como vampiros, e filmes de vampiros seriam mostrados no cinema.


Todd, um dos maiores diretores de Horror do século XX.

O filme inicia-se na Transilvânia, um lugar onde hoje temos a Romênia. Renfield (Dwight Frye) é um jovem corretor de imóveis que vai visitar um importante cliente local, o Conde Drácula, que demonstrara interesse em adquirir uma propriedade na Inglaterra. Ao chegar na pequena vila próxima ao castelo de Dracula, o sol se poe no céu enegrecido, e entra a escuridão. Os moradores do pequeno e pré-medieval vilarejo fecham as portas de suas casas e guardam os animais. Um estalajadeiro logo adverte Renfield para que tome cuidado ao cruzar o passo borgo, parte do caminho que leva ao castelo do Conde.

Renfield tome um coche e dirige-se para o passo. Lá, entre a bruma noturna, é encontrado por uma carruagem mandada por Drácula, que lhe aguarda. Ele não ve quem esta a frente da carruagem, mas entra assim mesmo. A carruagem finalmente sobe e para na frente do castelo de Drácula, passando por um caminho tenebroso, uma floresta semi morta e deserta. Renfield desce da carruagem e descobre que não há ninguém na frente. Entre a bruma e os morcegos ele caminha para porta. É recebido pelo próprio conde, de roupão, que o convida para entrar e beber. Quando Renfield lhe pergunta se ele também não vai beber, Drácula responde: “Eu nunca bebo... vinho”.

Renfield logo torna-se o escravo do vampiro, levado lentamente a loucura hipnótica de Drácula. Drácula tem um plano, e Renfield não passa de um peão em seu jogo. Ele aprisiona o homem e transforma ele em seu escravo. Renfield, enlouquecido, colabora com Drácula, levando seu caixão para o porto e embarcando com ele em um navio com destino a Inglaterra. Finalmente o navio atinge o seu destino, o porto de Londres. Mas todos os passageiros a bordo estão mortos, brancos, com a impressão do terror congelada na face, e marcas de mordidas no pescoço. Renfield havia libertado Drácula de seu sono profundo durante a viagem, aberto o caixão, e deixado o principe das trevas se alimentar do sangue dos tripulantes. O navio fantasma então chega em Londres, trazendo a sua maldição. Renfield é encontrado pela polícia, rindo loucamente, e é imediatamente preso. Passa então a comer insetos na prisão, totalmente tomado pela loucura causada pelo Conde.

Drácula sai aterrorizando Londres, causando vítimas nas ruas. Logo ele encontra duas belas jovens, Mina (Helen Chandler) e Lucy (Frances Dade), numa peça de teatro. A mansão da família delas é próxima do lar de Drácula, e ele passa a visita-las sob várias formas: um lobo, um morcego, névoa e até a sua própria forma profana. Ele suga o seu sangue e lentamente as suas vidas. Lucy perece, mas Mina insiste em se juntar a Drácula. Essa idéia traz obriga o pai de Mina, o Dr.Seward (Herbert Buston) e o noivo de Mina John (David Manners) a contatar um especialista.

O cientista e matador de vampiros Van Helsing (Edward Van Sloan) entra em cena. Ele consegue convencer Drácula a ficar de frente a um espelho, o teste para se detectar o “vampirismo”, e a imagem de Drácula, naturalmente, não se reflete. Infurecido, o principe das trevas quebra o espelho, e ataca Van Helsing, que mostra ao demonio da noite uma cruz. Este, horrorizado, foge. John e Val Helsing seguem Drácula e encontram ele fugindo com Mina (hipnotizada) e entrando nas catacumbas em que ele mora. Drácula se tranca em seu caixão, mas Van Helsing perfura-o com uma estaca, e seu corpo treme, transforma-se em um esqueleto, então pó. Mina sai do feitiço de Drácula e agradece aos seus salvadores, terminando por abraçar seu amado John.

Drácula foi uma das primeiras produções de horror do estúdio universal (que depois iria lançar uma série de filmes no gênero, além de continuações) foi logo seguido de “Frankenstein”de James Whale, com Boris Karloff. O filme foi um gigantesco sucesso comercial, e a Universal não pestanejou ao aplicar propagando pesada para promover o filme. Escreveram cartas para hospitais e médicos perguntado se vampiros realmente existiam, colocaram enfermeiras e prontos-socorros em cinemas que exibiam o filme para atender pessoas que ficassem muito chocadas de medo no filme, novelizaram o livro Drácula no radio, etc. Deu certo.

O filme é muito mais inspirado na peça teatral de Hamilton Deane (amigo de Stoker que adaptou a obra em 1925) do que no livro em si, mesmo assim é razoavelmente fiel a história de Stoker. Algumas mudanças mais “radicais” podem, e devem, entretanto serem comentadas: Renfield é um personagem que, tanto no livro como em outras adaptações cinematográficas já fazia parte da corte de escravos dominados por Drácula. Quem é o corretor imobiliário que vai a Transilvânia naquela noite é o próprio Jonathan Harker, namorado de Mina. Ele não é enlouquecido pelo vampiro, mas sim preso por ele. Assim como o Dr. Seward, que no livro é pretendente de Lucy, mas no filme é mostrado como pai de Mina.

A importância de Drácula esta no fato de que ele delimitou muito de como os filmes de horror deveriam ser feitos, e são feitos, até hoje em dia. Toda cenografia, direção de fotografia e direção de arte de Drácula deram o tom gótico e macabro do horror clássico. Temos uma Inglaterra vitoriana contrastando com as roupas e modelitos anos trinta sendo ostentados por alguns figurantes, a própria visão do conde com seu cabelo negro para trás e a capa preta definiu o que se espera de uma personagem vampiresca, muito do próprio castelo de Drácula deve ao próprio expressionismo alemão, movimento célebre por seus filmes (também pioneiros do horror) como Nosferatu (de F. Murnau) e O Gabinete do Dr. Caligári (de Wiene). As escadarias retângulares, cobertas de teias de aranha, as cadeiras vitorianas ao estilo Luis XVI, a armação gótica das janelas... Drácula é um filme de tons e ambientes.

A própria atuação de Frye como o insano Renfield caracterizou o estereotipo de louco no cinema. Ao mesmo tempo, temos as florestas e montanhas assombradoras da Trânsilvania, tudo com fotografia impecável, de Karl Freund. Este é o clássico filme de horror gótico.

Contribuindo para a atmosfera inquietante do filme, temos a ausência de uma trilha sonora. Ocasionalmente o “Lago dos cisnes”de Tchaikovsky corta o ar como uma navalha fria, mas predomina o silêncio sepulcral. O que mais ouvimos, no castelo de Drácula, é o arrastar de correntes, portas se fechando, rangendo, uivos de lobos na noite. É a cacofonia sonora do horror.

O autor do livro, Abraham Stoker, foi um professor inglês que se intressou pela região da Transilvânia. Em seus estudos notou que havia muitos mitos e lendas sobre Vlad, o Impalador, ou Vlad Tepes, um príncipe balcânico responsável por algumas milhares de mortes e o desenvolvimento de cruéis métodos de tortura.

A mesma historia já havia rendido duas versões não-oficiais na Alemanha: Vampyr, de Carl Dreyer (mas também muito inspirado na novella “Carmilla”de Sheridan Le Fanu) e Nosferatu, já citado, de Murnau. O filme de Browning, entretanto, foi o marco definitivo para o reconhecimento da história do conde das trevas no cinema. Deu-se inicio a uma série literalmente incontável de filmes sobre vampiros, que seguiu ao longo do século. Desde filmes de vampiros mexicanos (filmados no mesmo set do Drácula de Browning) até verdadeiras evoluções no gênero.

Temos toda uma fase do estudio inglês Hammer,que entre a metade dos anos sessenta e o começo dos anos setenta produziu dezenas de filmes de horror inspirados em Drácula, sua grande maioria com o marcante Christopher Lee (numa interpretação mais agressiva do vampiro, que tem um certa presença nobre atribuida a ele por Lugosi). Os estudios Hammer foram extremamente prolíficos, nos dando pérolas como “Horror of Dracula”, “Brides of Dracula”, “Dracula – Prince of Darkness” e etc. Infelizmente o estúdio entrou em decadência, e passou a fazer filmes de horror de qualidade inferior, com fortes doses de nudez e sexo para tentar recuperar seu público (dessa fase saem obras como “Twins of evil” e “Countess Dracula” além do hilário “Dracula A.D. 1972” onde temos uma patética tentativa de “modernização”do vampiro (para os anos setenta, evidentemente) o que torna tudo, hoje em dia, mais falido e cômico.

Nos anos sessenta ainda tivemos a genial paródia da história de Drácula no filme de Roman Polanski “A dança dos vampiros”.

Entretanto, recentemente, o gênero teve um “revival” desde os anos oitenta, com obras como “A Hora do Espanto” e “Quando chega a escuridão”. A onda de “slasher flicks”, ou filmes sobre serial killers (como a célebre série “Sexta Feira Treze” ou “O massacre da serra elétrica”, a “A familia de Sádicos", "The Last House on the Left", etc) despertaram novo interesse da industria cinematográfica no gênero horror, agora um horror jovem e barulhento. Assim, diretores como Wes Craven e Sean Cunnigham passaram a fazer muito sucesso, e vampiros não foram esquecidos como um importante atrativo ao horror. Além dos filmes citados tivemos os sucessos de “vampiros jovens” em filmes como “Os garotos perdidos”, “Fome de viver”, “Innocent Blood” ou até mesmo a recente adaptação de Francis Ford Coppola da mesma história de Stoker, ou “Entrevista com vampiro”de Jordan, e até mesmo John Carpenter, outro cultuado diretor de filmes de horror e suspense fez, em 1998, seu filme sobre o tema: “Vampires”.

O diretor

Todd Browning nasceu em Kentucky, em 12 de Julho de 1880. Aos dezesseis anos fugiu de casa para tornar-se um artista de circo, aonde trabalhou como contorcisonista, acrobata e palhaço. Logo ele começou a atuar nos nickelodeons da Biograph, produtora onde trabalhava David Griffith. Browning continuou a trabalhar com Griffith como ator mesmo depois do fim da Biograph, chegando a ser extra em “Intolerância”. Após muito atuar, decidiu tornar-se diretor, e fez seus primeiros curtas com aval e patrocinio de David Griffith na produtora Triangle Studios. Browning logo consolidou seu nome com vários curtas e filmes de longa-metragem. Após fazer Drácula fez o impressionante “Freaks”, um filme sobre (e com) aberrações de circo. Retratando a vida dessas pessoas deformadas que compoe uma classe separada na própria hiererquia do comunidade circense. Browning tornou-se um célebre diretor de horror, chamado por muitos o Edgar Allan Poe do cinema. “Feaks” causou contrvérsia por onde passou, e é proibido até hoje em alguns paises, como a Inglaterra..

Surgiu então a oportunidade de fazer Drácula de Bram Stoker. A primeira opção de Browning para o papel do Conde foi o ator Lon Chaney, ou o “Homem de mil faces”, o tradicional ator de filmes de horror antigo com seu rosto gótico e perturbador. Chaney fez clássicos como “London after midnight” do próprio Todd Browning e “O Corcunda de Notre-Dame”. Entretanto, ele morreu logo após o convite, fazendo com que tivessem que procurar um novo ator. Sua primeira escolha foi Conrad Veidt, que havia feito o papel do sonâmbulo Cesáre no clássico expressionista “O Gabinete do Dr. Caligári”, mas logo um ator novo lhe chamou atenção, e ele mudou de idéia.

O bonito galã Lon Chaney.

O Ator

Bela Lugosi nasceu na Hungria em 1882. A tentativa de revolução comunista em 1919 acabou com seus planos de continuar no país, ele havia ativamente apoiado o movimento com a idéia de conseguir melhores condições para os atores e artistas em geral. Muda-se então para a Alemanha, onde começa a atuar em vários filmes, inclusive alguns de horror (ele fez uma versão não-autorizada de “O Médico e o Monstro” de Robert Louis Stevenson). Mas as condições da Alemanha pós-primeira guerra também não eram boas para sua arte. Ele decide mudar-se para os Estados Unidos. Sem saber inglês, logo se ligou a colonia Hungara em Nova Iorque, e começou a atuar no teatro. Entretanto esse era um campo muito limitado. Ele finalmente fez uma peça em inglês, "The Red Poppy”, mas, como não sabia inglês, teve de decorar a peça fonéticamente.

Durante os anos vinte, Bela flutuou entre o cinema e o teatro. Seu forte sotaque contiunuava limitando seus papéis. Ele fez uma peça baseada em Drácula em 1927, com muito sucesso. Logo chamou a atenção de Todd Browning, que procurava o ator ideal para fazer o principe das trevas. A atuação de Lugosi em Drácula criou o tipo de vampiro que vemos no cinema hoje, seu sotaque húngaro acabou por tornar-se mais uma característica da personagem, e Lugosi tornou-se Drácula para sempre, sua imagem nunca mais se dissociou dos filmes de terror.

Lugosi teve muito sucesso nos anos trinta e quarenta, mas, entrou em franca decadência nos anos cinquenta, viciando-se em herôina, cocaína e morfina. Sem dinheiro ou respeito, e sem trabalho, tornou-se um homem recluso. Seus últimos trabalhos foram com o diretor Ed Wood, considerado o “pior cineasta do mundo”, que tentou livrar Bela das drogas e deu-lhe papeis em seus filmes de produção lamentável. Ele morreu em 16 de agosto de 1956, e seu pedido de ser enterrado com a capa de Drácula foi atendido.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Mutarelli, o expressionismo e o horror

A estética de Lourenço Mutarelli é a estética do grotesco.

Suas formas são disformes, seus personagens, perturbados, doentes, sofridos. Predominam as sombras, o escatológico, a morte, os inimagináveis processos pelo qual o corpo passa após o fim de suas funções vitais. A perda, a deformação, o desespero, o limite, o fim, a angústia, o pesadelo infernal de se viver em dor. Estes são temas abordados constantemente através da obra de Mutarelli.

Suas histórias, desenhadas predominantemente em preto e branco, nos remetem a um universo onírico, de escuridão, deformação, mutação e morte. Um universo enevoado, uma espécie de pesadelo perene, eterno e real, que é a realidade.

No universo dos quadrinhos, esta é uma abordagem relativamente recente, entretando, outras mídias gráficas já haviam explorado o disforme e o soturno. Em especial, o cinema. No final do século XIX, com a invenção do cinematógrafo pelos irmão Lumiére, tudo passa a ser asssunto para a câmera que registra imagens em movimento. Paralelamente, ao mesmo tempo pensadores como Freud trazem o desenvolvimento da psicanálise, que faz vir a tona todo um novo universo, o inconsciênte, que demanda ser explorado.

Nietzsche mata deus, há uma guerra mundial. Vivemos em tempos de mudança e caos. Se o Cinema precisa de uma tela branca que receba a projeção das imagens registradas em película, Freud propôs que o psicanalista funcionasse como uma "tela branca" onde o analisando "projetasse" suas fantasias.

Para Lourenço Mutarelli, sua “tela branca” é o papel, aonde ele imprime suas sensações e impressões mais negras. O cinema expressionista surge retratando a loucura, a doença, a morte. Os filmes expressionistas são sombrios e pessimistas, com cenários fantasmagóricos, exagero na interpretação dos atores e nos contrastes de luz e sombra. A realidade é distorcida para expressar conflitos interiores dos personagens.

A obra fundadora do movimento em sua vertente cinematográfica, “O Gabinete do Doutor Caligári”, dirigido por Robert Weine em 1919, passa-se justamente em um sanatório. Dois loucos conversam, e um deles conta uma bizarra e sombria história: em Holstenwall, uma pequena cidade no interior da Alemanha, um homem chamado Caligári controlava o sonâmbulo Cesáre.

Sob seu comando, Cesáre pratica pequenos assassinatos nas sombras. Denso e perturbador, todo o cenário de Caligári, com ângulos distorcidos, sombras fortes, cenários improváveis, perspectivas fora de eixo e proporções descabidas, remete a um pesadelo inconsciênte. E é esse uns dos efeitos que Mutarelli atinge em sua obra. Descascar a realidade e expor as desagradáveis entranhas do subjetivo, trazendo choque e confronto, são objetivos claros das obras do expressionismo e de Mutarelli.

O imaginário de Lourenço Mutarelli é povoado pela morte, pelo monstruoso e pelo deformado. Temos estes mesmos temas abordados em outra clássica obra Expressionista, “Nosferatu” de Friedrich Murnau. Livremente inspirado em Drácula de Bram Stoker, “Nosferatu” retrata a existência de uma criatura disforme, solitária, a procura de amor perdido. Um vampiro. Uma criatura noturna, que precisa matar outros seres humanos para sobreviver, se apaixona por uma mortal e deve mata-la para que possam ficar juntos.

Após a ascenção do nazismo o cinema expressionista Alemão é sufocado. A última grande obra é Metrópolis, uma fantasia futurista dirigida por Fritz Lang.

As produções experimentais vão para o surreal.

Como particularmente interessantes podemos destacar o trabalho de dois cineastas. “O cão andaluz”, filme de Luis Buñuel e do papa do surrealismo Salvador Dalí, e Freaks de Todd Browning, ainda que não exatamente um filme surrealista, ele tem diversos elementos surreal.

Em “O cão andaluz” temos a exploração do absurdo, do surreal, do imaginário e do violento. Uma amálgama de temas concentrados em 17 minutos de película sombria e perturbadora. Conforme uma nuvem passa pela lua, o olho de uma mulher é dilacerado por uma navalha. Um homem tropeça em uma mão decepada na rua. De outa mão, com um buraco no meio, saem formigas. A justaposição de imagens surreais e violentas nos leva a associar o que vemos com o inconsciênte. Da mesma forma, a obra de Mutarelli, em muito, explora os lados obscuros, negros e dormentes da alma humana. Não são raros seus painéis que abordam a religião, o sexo, a decomposição, tudo concentrado em uma única imagem.

Em "Freaks", de Browning, temos uma narrativa contada de forma tradicional. Em um circo, um grupo de aberrações humanas forma uma pequena família. Temos a mulher barbada, o homem sem pernas, a anão, a mulher com a cabeça encolhida, entre outros. Durante as filmagens foram usados atores realmente deformados, fato que causou censura e protestos a época de sua exibição.

Mais recentemente, temos os filmes do cineasta e roteirista de histórias em quadrinhos Alejandro Jodorowsky (que trabalhou com o francês Moebius em obras como “O Incal”) como “El Topo” e Holy Moutain. Nelas o absurdo também é explorado. Suas histórias, violentas, são povoadas pelo grotesco e ele também usou pessoas com defeitos congênitos em cenas de El Topo.

Outros cineastas contemporâneos como David Cronemberg e David Lynch também exploram o inconsciente humano e a fragilidade do corpo e da carne. Um sinal de nossos tempos, o pessimismo expressionista continua tão atual, aparecendo em diversas formas de expressão artística.

Como se vê muitos de seus elementos influenciaram o teor das histórias em quadrinhos atuais e a obra de Lourenço Mutarelli é um exemplo disso.

Visite o website oficial do artista aqui.